Reportagem
Não parece mas isto é um funeral (vídeo)
25-08-2011
Por João Lopes Marques
O princípio é simples: quanto mais pessoas assistirem a um funeral mais honrado se sentirá o falecido. Assim sendo, que melhor chamariz do que uma stripper? O que no Ocidente poderia parecer mau gosto tornou-se moda em Taiwan, onde as tradições chinesas permanecem no seu estado mais puro: afinal, o comunismo nunca desembarcou na ilha, a eterna rival da República Popular da China.
As strippers intercedem junto dos deuses considerados “menores”. Só eles é que podem libertar o falecido dos pecados mais mundanos, sejam eles o jogo ou a prostituição. As divindades “maiores” estão muitíssimo ocupadas com temas mais éticos e magnânimos.
O erotismo nas festas acentuou-se nos anos 80, quando os “carros eléctricos floridos” se massificaram na ilha. O nome não engana: são palcos ambulantes onde circulam as artistas do varão. Têm algo de trio eléctrico baiano, mas em vez de ritmos de axé há êxitos de música pop cantados em inglês, mandarim, japonês ou hokkien – o dialecto de Taiwan.
Depois de nove anos a viver em Taiwan, Marc Moskowitz, professor de Antropologia na Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, não resistiu a filmar as strippers nos funerais. O resultado foi o documentário Dançar para os Mortos. Num jeito burlesco, as dançarinas podem apresentar-se de minissaia e decote generoso, de biquíni ou mesmo nuas. A sua audiência privilegiada são as classes desfavorecidas, operários ou camponeses sem dinheiro para pagar o bilhete de um concerto na capital, Taipé.
A elite mais ocidentalizada da ilha – especialmente a imprensa, os políticos e as classes altas na capital, Taipé – não aprova estes carnavais mórbidos, mesmo que estejam bem enraizados na tradição. Moskowitz garante que os primeiros registos de striptease em funerais datam do século XIX e aconteciam nos próprios templos budistas.
A verdade é que há várias razões que explicam a oposição a estas manifestações. Por exemplo, o facto de a maior parte de as artistas começar a carreira com 15 ou 16 anos, normalmente treinadas pela própria família. Por outro lado, é qualquer coisa do submundo: o controlo do negócio mantém-se nas mãos de gangsters.