Apple
Perfil: Steve Jobs morreu (vídeo)
06-10-2011
Há três anos, na Universidade de Stanford, nos EUA, o homem forte da Apple, Steve Jobs, assumiu que tinha cancro. Agora, abandonou a Apple para realizar novos tratamentos ao cancro no pâncreas. Steve Jobs morreu esta quarta-feira aos 56 anos, precisamente um dia após a apresentação do novo iPhone 5. O sucessor é o número dois da principal empresa informática do século XXI, Tim Cook.
Leia o perfil escrito de uma das principais figuras da última década.
O segundo acto de Steve Jobs
A confissão de Steve Jobs deixou a audiência em estado de choque. Perante mais de 3000 pessoas, numa sala gigantesca em São Francisco, o patrão da Apple admitiu que a sua empresa passou os últimos cinco anos a trabalhar em segredo com a Intel, a arqui-rival que muitos sempre gostaram de rotular, ironicamente, de “o lado negro da força”. Uma parceria confidencial que resultaria numa revelação ainda mais surpreendente: a partir desse dia e durante os próximos dois anos, a Apple irá abandonar os chips da IBM, os PowerPC. E os exclusivos Macintosh passarão a usar chips da Intel, precisamente os mesmos que qualquer computador usa hoje nas suas placas e processadores.
A notícia deixou meio mundo boquiaberto e os milhares presentes na conferência só acreditaram no que ouviam quando assistiram ao abraço emocionado de Steve Jobs e Paul Otellini selando um pacto que punha fim a mais de 20 anos de duros combates no mercado. Um combate em que a Apple sempre criticou duramente a Intel, chegando mesmo a lançar campanhas publicitárias onde satirizava a rival. Agora, não só se tornou cliente, como é sua parceira nos negócios.
É uma viragem surpreendente, mesmo para um revolucionário como Steve Jobs. O líder da Apple vive aquilo a que já chamam o maior segundo acto na vida de uma empresa. Ou, por outras palavras, o maior volte-face de sempre na história dos negócios depois de a empresa ter caído em desgraça. Hoje, muito graças ao fenómeno de popularidade do iPod, o leitor de música digital portátil lançado há quatro anos, os números voltaram a sorrir à Apple: só no último trimestre, as receitas da companhia subiram 70% e os lucros cresceram 530%. Isto apesar de os seus exclusivos Macintosh, a que Jobs sempre chamou “os Ferrari dos computadores” para justificar os seus preços elevados, representarem apenas 2,4% do mercado global. Uma fatia que também já começou a aumentar como efeito secundário do fenómeno iPod e a que a nova parceria com a Intel certamente dará um empurrão decisivo.
Para Steve Jobs, o abraço público a Otellini tem muito pouco de sentimental. Trata-se, pura e simplesmente, de uma questão de negócios em que a companhia que criou a marca Macintosh só tem a ganhar. Há muito que Jobs dera a entender a sua intenção de popularizar os seus produtos. Mas, para isso, precisaria de baixar preços dos computadores e torná-los mais compatíveis com outros sistemas. Com os chips da Intel, mais baratos e de boa qualidade, o preço dos Macintosh deverá cair até 20%. E os computadores da Apple irão aproximar-se cada vez mais dos computadores da Microsoft, até agora uma aliada preciosa da Intel.
Estas duas empresas criaram o Wintel (Windows mais Intel) que sempre foi o opositor de Jobs no mercado. Agora que o patrão da Apple se passou para o lado do que chamam “o império”, logo trataram de baptizar o novo sistema: MacinTel (Macintosh mais Intel).
Nem todos os consumidores, contudo, aplaudem estas mudanças. Se, por um lado, a mudança de chip não altera o design e a funcionalidade de um Macintosh - os seus maiores atractivos -, por outro, nada impede um utilizador de instalar um programa Windows num Macintosh. E para os puristas destes aparelhos, isso significa a perda de identidade que tem atraído milhares de artistas, arquitectos e designers para a carteira exclusiva de fãs da marca.
Mas se a nova parceria é importante para a Apple, já o mesmo não se pode dizer em relação à Intel ou à IBM. Para a primeira, esta nova aliança com a Apple não é vital para os seus negócios. A poderosa companhia de chips controla 82% do mercado de microprocessadores no planeta, pelo que mais computadores Macintosh pouca diferença farão nas contas finais. Ganha, contudo, alguma glória e ainda mais prestígio. A Apple tem sido desde sempre a mais inovadora e chique protagonista na indústria informática, especialmente em duas áreas que a Intel considera estratégicas: mobilidade e lar digital, através dos quais os computadores se podem ligar a electrodomésticos e outros equipamentos domésticos para novas opções de entretenimento.
Também para a IBM, que tem sido a parceira da Apple na última década, esta ruptura tem pouco impacto nos seus negócios. Primeiro, porque a ligação com a Apple representa menos de 1% das duas receitas. E depois, porque a IBM ganhou recentemente contratos para o fornecimento de microprocessadores para todas as três consolas de jogos – a Xbox 360 da Microsoft, a Playstation 3 da Sony e a Nintendo Revolução. Uma aposta que irá mais do que duplicar os computadores e centros de entretenimento domésticos no mundo inteiro e compensar largamente as vendas da IBM.
Os analistas de mercado são unânimes. Se há alguém que pode liderar esta mudança tecnológica, essa pessoa é Steve Jobs. Aos 50 anos, este visionário já colecciona uma série de marcos históricos no mundo da tecnologia, a começar pelo lançamento do primeiro computador pessoal, em 1984 (ver caixa). Mas a empresa que criou quando saíu da faculdade e que chegou a deter 85% do mercado de PCs, não resistiu ao lançamento de produtos semelhantes a preços mais acessíveis. Um desaire a que se juntaram projectos falhados, mas aos quais Jobs sempre sobreviveu. Em 1997, depois de um longo afastamento da companhia, voltaria à liderança da Apple e a novos projectos. O mais significativo foi a compra da Pixar, o estúdio de animação ligado à Disney que esteve por detrás de sucessos cinematográficos como Em Busca de Nemo.
Steve Jobs, contudo, não se ficou por aí. E assinou uma nova revolução, talvez a mais importante na história da Apple e do mundo dos negócios: o lançamento do iPod, o leitor de música digital portátil. Numa altura em que todos ainda desconfiavam da Internet, ele mostrou que era possível vender música na rede em larga escala. E depois ouvi-la em grande estilo, num mini-aparelho capaz de armazenar 15 mil músicas em formato MP3.
A história do iPod tem detalhes curiosos que são agora contados numa biografia não autorizada de Steve Jobs (ver perfil). Tudo começa no dia em que um jovem consultor de alta tecnologia entra na Apple com uma ideia meio atabalhoada. Queria juntar um leitor de música portátil com um portal de onde pudesse fazer download das melodias favoritas, mas ainda não sabia muito bem como o fazer. As tentativas anteriores de Tony Fadell tinham resultado em pelo menos dois protótipos muito pouco práticos. Um deles parecia mesmo um enorme rádio de pilhas cheio de botões.
Mas quando o jovem criador apresentou os seus planos a Steve Jobs, o patrão da Apple soube exactamente como os concretizar. Estava ali o embrião do iPod, aquele que é neste momento o mais bem sucedido produto da Apple e o verdadeiro segredo do volte face que Jobs conseguiu para a sua empresa. Desde então, já se venderam mais de 15 milhões de unidades no mundo inteiro.
O patrão da Apple acompanhou diariamente todo o projecto do iPod, aplicando ali os dotes de marketing e design, características que marcam todas as criações da companhia. “Steve sentia-se terrivelmente insultado se não conseguisse chegar à canção que queria ouvir em menos de três toques num botão”, recorda Ben Knauss, do PortalPlayer, um dos seus parceiros de negócios citado no livro iCon. Uma atitude decisiva na criação do iPod e que ele certamente manterá nesta nova etapa ao lado da Intel. Resta saber se Jobs, depois de revolucionar o mercado, conseguirá levar até ao fim a segunda revolução na sua própria empresa.