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Reportagem: Bastidores da assembleia-geral da PT

30-06-2010


Por Patrícia Alves e imagem de Joana Mouta

Uma Assembleia-Geral, dois ritmos. Enquanto dentro do Centro de Congressos de Lisboa o dia começou tenso – a Vivo vai ser vendida ou não? A Telefónica pode votar ou não?, discutia-se nos corredores -, cá fora era o CD de Sérgio Godinho que animava o parque de estacionamento onde os trabalhadores da Portugal Telecom se manifestavam. Pouco depois das 10 horas – hora a que estava marcado o início da assembleia-geral -, os trabalhadores reclamavam o que não se discutia entre accionistas – melhores salários, direitos de saúde – e o assunto do dia – a venda da metade portuguesa da Brasilcel (dona da Vivo) à Telefónica. Queriam fazer saber aos accionistas – 68% dos quais esteve presente em Lisboa – e ao Conselho de Administração, que eram contra a venda da Vivo. E, entre faixas dispostas à enterada estava um pedido especial: “Intervenção do Governo no negócio da Vivo”, lia-se à porta da antiga FIL.
 
Não se sabe se Pedro Vasquez, o representante do Estado na reunião, leu o pedido e ouviu as vozes dos cerca de 200 manifestantes que abanavam bandeiras das cinco centrais sindicais da PT. Mas o certo é que as reclamações dos trabalhadores, cujos gritos de ordem não se ouviram dentro do edifício, também era partilhada pelo executivo: o Governo decidiu vetar a venda da Vivo durante a AG.
 
Quem não terá lido o cartaz foi seguramente o presidente executivo da PT, Zeinal Bava. Mal chegou ao centro de congressos – pouco antes das 10h - foi rodeado por jornalistas. Resistiu aos microfones e às câmaras que o perseguiram. No entanto, antes de subir as escadas para o primeiro andar do edifício, onde se realizou a assembleia, foi buscar a sua acreditação – um cartão azul com o seu nome. As mesas, dispostas para esse efeito no lobby de entrada, estavam ordenadas alfabeticamente pelos nomes dos participantes. Detalhe: A mesa onde o presidente executivo foi buscar a acreditação era para os participantes com nomes começados por “N”, de Nelson a “V” de Vítor. A letra “Z” – de Zeinal – não estava lá.
 
Mesmo assim, o presidente executivo continuou sorridente e subiu as escadas sem fazer declarações aos jornalistas. Guardou-as para quem com ele se reuniu antes da assembleia, numa sala reservada especialmente para isso. Zeinal Bava e os seus homens estiveram juntos na sala 1.13, durante 35 minutos. Só depois começou a assembleia pela qual esperavam mais de meia centena de jornalistas nacionais e estrangeiros (brasileiros, espanhóis e norte-americanos, incluindo o New York Times e a Reuters). A reunião começou com 25 minutos de atraso.
 
Depois, foi preciso esperar quase até às 13h pela decisão de accionistas como Nuno Vasconcellos, da Ongoing, Joaquim Goes e Amílcar Morais, do BES e ainda outros accionistas como Rolando Oliveira, da Controlinveste.
As novidades de dentro da sala (os jornalistas tiveram que esperar cá fora) iam chegando pelos responsáveis de comunicação da PT, que entravam e saíam da reunião. Mas a primeira (grande) notícia – que fez correr todos os jornalistas para os seus computadores para alimentar os sites de informação – foi dada às 12h45 pelo presidente do Sindicatos dos Trabalhadores da PT, Jorge Félix.
 
“O Estado chumbou a proposta de compra da Vivo”, repetiu várias vezes. “Sim, o Estado usou a golden share”, reforçou para dissipar dúvidas. Dentro da sala de reuniões, depois de o presidente da mesa, Menezes Cordeiro, ter confirmado que a Vivo se manteria na posse da PT, ouviram-se palmas espontâneas dos pequenos accionistas.
O mesmo não aconteceu por parte do BES e da Ongoing, que votaram a favor da venda. Já sem falar dos representantes da Telefónica – Santiago Fernandez Valbuena e outro executivo espanhol – que saíram da reunião passando a direito pelo espesso grupo de jornalistas sem fazer qualquer declaração. Depois soube-se que dentro da Assembleia-Geral os espanhóis tinham admitido recorrer da decisão do presidente da mesa da AG de permitir que o Estado utilizasse a golden share para vetar o negócio.
 
Foi preciso esperar uma hora para ver o sorriso de Zeinal Bava a sair da sala, acompanhado por Henrique Granadeiro. Os dois responsáveis fizeram as declarações que os jornalistas ansiavam e garantiram que o Governo não os informou da sua decisão com antecedência. “O Estado não deu indicações, nem tinha que dar”, afirmou Granadeiro. Saíram juntos e partiram no mesmo Mercedes com motorista. Lá fora, o grupo de trabalhadores já tinha dispersado. Pelo menos por agora estão satisfeitos: a Vivo continua na PT, mesmo que contra a posição dos maiores accionistas.

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