Dinheiro
Catroga falou mesmo em "pentelhos"? (vídeo)
12-05-2011
Depois de um mês em que decretou "blackout" aos jornalistas enquanto coordenava o programa do PSD e negociava com a troika, Eduardo Catroga concedeu várias entrevistas em que contradisse o líder do partido, revelou conversas privadas e surpreendeu com comparações arriscadas.
O último "momento Catroga" aconteceu ontem à noite na SIC Notícias. O coordenador do programa eleitoral do PSD disse que quer ver políticos e jornalistas a discutir questões estruturais, em vez de "pentelhos". Veja o vídeo e recorde os sete temas mais polémicos do antigo ministro das Finanças de Cavaco Silva:
Aumentar IVA na cerveja… aliás, no vinho
Na segunda-feira de manhã, Catroga participou no Fórum TSF, onde defendeu a reestruturação do IVA, passando alguns produtos para taxas superiores do IVA. Deu como exemplo “a cerveja que não deve estar na taxa reduzida”.
Acontece que este é um produto que já paga taxa máxima de 23%, o que obrigou o economista a esclarecer ao Económico que "foi um Lapsus Linguae”, pois “estava a pensar no vinho”, enquanto produto para subir de escalão.
Eliminar taxa intermédia do IVA
Numa entrevista ao Negócios, na terça-feira, 10, Catroga disse que “deve-se caminhar para apenas duas taxas” no IVA, lembrando numa entrevista posterior ao Público que foi António Guterres quem criou a taxa intermédia deste imposto e questionando mesmo: “a taxa intermédia serve para quê? Há aqui um grande potencial de aumento da receita”.
A discussão em torno deste tema é politicamente delicada, pois discute-se como é que o PSD propõe compensar a redução da taxa social única já a partir de Janeiro de 2012.
Horas depois, o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, garantiu que é ele quem toma as decisões políticas e que é “absolutamente falso” que os social-democratas queiram terminar com a taxa intermédia. A opinião de Catroga é apenas técnica, justificaram os assessores do partido, mas a máquina do PS não deixou escapar a diferença de opinião para lançar a suspeição de que o PSD poderá avançar com um substancial aumento de impostos no pós-eleições.
Sócrates “demagogo” e “com o povo atrás de si até à derrocada”… como Hitler
Na quarta-feira, 11, concedeu uma entrevista o Público em que compara José Sócrates a Hitler, ao responder a uma pergunta sobre as sondagens.
“O Hitler tinha o povo atrás de si até à derrocada, até à fase final da guerra. Faz parte das características dos demagogos conseguirem arrastar multidões. José Sócrates, honra lhe seja feita, é um grande actor, um mentiroso compulsivo, que vive num mundo virurtal em que só ele tem razão”.
A reacção do PS foi enérgica, com lamentos de dramatização sobre a forma de fazer política.
Crítica feroz à Caixa deixou a administração “profundamente chocada”
Em entrevista ao Económico, Eduardo Catroga abriu o livro das críticas à Caixa Geral de Depósitos, acusando o banco público de não ser transparente e de ter uma gestão dependente do Governo e pouco profissional.
Em resposta, hoje publicada pelo mesmo jornal, o conselho de administração liderado por Faria de Oliveira expressou “choque profundo” por estas declarações.
“Não as esperávamos de tão conceituada figura pública. Terão sido infelizes, com considerações muito injustas e injustificadas, afectando uma instituição de referência, que se rege por critérios de ética, isenção, rigor e competência”, reagiu o banco através de comunicado.
A mágoa por um País a discutir “pentelhos”
Ontem à noite, em entrevista à SIC Notícias, Eduardo Catroga volta a surpreender, ao criticar os políticos e os jornalistas porque “em vez de andarem a discutir as grandes questões que podem mudar Portugal andam a discutir, passo a expressão, pentelhos”. A expressão está a dominar as conversas nas redes sociais esta manhã.
“Apresentámos medidas das mais importantes que foram apresentadas neste país. Pois ninguém discute. O PS não tem programa, anda-se a agarrar, quando o próprio PS assinou a redução da taxa social única”, lamentou, depois de um dia em que várias vozes socialistas criticaram a proposta do PSD, que afinal está também no memorando assinado pelo governo com a troika.
Na mesma entrevista, Catroga revela uma conversa que teve com Teixeira dos Santos antes das legislativas de 2009, afirmando que o ministro das Finanças tentou convencer José Sócrates a reduzir esta taxa em vez do IVA.
Lamentos pela “muita porcaria” feita pela sua geração desde 1995
Em entrevista ao jornal “i”, hoje publicada, Catroga traçou o perfil do futuro ministro das Finanças, que até poderá ser ele próprio – “não comento cenários” –, caso o PSD vença as eleições: “Alguém com capacidade de gestão que perceba quadros macroeconómicos e a economia portuguesa”.
Para o ex-ministro de Cavaco Silva, “é altura da nova geração assumir o poder”, já que a sua própria geração, que está no poder desde o 25 de Abril, “fez a revolução, fez coisas boas, mas tem feito muita porcaria nos últimos 15 anos”.
Novo ataque à “bandalheira” na CGD, com relatos de conversas privadas com Manuel Pinho
Em declarações citadas pelo “i”, Catroga insiste nas críticas à Caixa e lembra uma conversa privada com Manuel Pinho, ex-ministro da Economia, onde afirmou que a gestão do banco ficou “abandalhada” quando entrou o actual administrador, Francisco Bandeira.
“A Caixa tem de alterar o modelo de governance, estar ao serviço do financiamento das empresas, não pode ter interferência política e viver em regime ‘agora dêem lá a mão aos Berardos para comprarem acções do BCP’”, disse Catroga, defendendo “uma revolução” no banco público.
De seguida, relata uma conversa privada que manteve com Manuel Pinho, quando foi noticia que o antigo ministro poderia ser o próximo presidente da Caixa. Pinho terá dito a Catroga: "dizem que vou para a CGD, mas aquilo só dá 350 mil euros e o carro também não é grande coisa...".
Na resposta, Catroga diz que respondeu o seguinte: "Ó Manuel, a CGD nunca deu dinheiro, dava prestígio. Quem ia para administrador tinha status. Agora vocês abandalharam o banco todo! Meteram lá o Vara e o Bandeira [presidente do BPN e vice-presidente da CGD]! Abandalharam aquilo tudo!”, relatou o antigo ministro.