Artes
Entrevista: Vik Muniz, o artista que trabalha no lixo (vídeo)
27-09-2011
Por André Barbosa e imagem de Joana Mouta
Durante dois anos, o artista plástico brasileiro Vik Muniz viveu com os catadores de lixo de Jardim Gramacho, o maior aterro sanitário da América do Sul, junto ao Rio de Janeiro. Os 3.500 homens e mulheres que ali trabalham (e onde a maioria também vive), reciclam 200 toneladas de material por dia. “Vai tudo nas costas, no lombo dessas pessoas. É um formigueiro humano, muito impressionante”, conta à SÁBADO em entrevista.
Destes, os realizadores de 'Lixo Extraordinário', o documentário nomeado para um Óscar, escolheram seis para serem representados em obras de arte. Entre eles estão Tião, o presidente da associação de catadores, que lê clássicos como 'O Príncipe', de Maquiavel; Zumbi, o intelectual que recolhe este e outros livros do entulho e sonha criar uma biblioteca; Suelem, mãe de três filhos que quer um dia abrir uma creche; Ísis, que adora moda e começa a ter “alma de artista” quando é recrutada por Vik; Irma, a dona do restaurante improvisado no meio do lixo, o 'Podrão'.
Criado numa favela, filho de um empregado de mesa e de uma telefonista, Vik Muniz está radicado em Nova Iorque onde, em início de carreira, chegou a viver nas ruas. Hoje, é um dos mais influentes artistas plásticos brasileiros. As suas obras chegam a ultrapassar os 70 mil euros e são feitas com materiais improváveis: reproduziu a Mona Lisa em geleia de uva e manteiga de amendoim e nos trabalhos de maior escala usa brinquedos, motocicletas e até máquinas de lavar. Com terra importada de Portugal, fez em 2007 uma série onde incluiu Cristiano Ronaldo, José Saramago e a Praça do Comércio.
Em Jardim Gramacho, fotografou os catadores, depois reproduziu-as em telas gigantes e cada contorno do retrato foi feito com objectos retirados do lixo. Depois, fotografou o resultado do trabalho. Só o quadro inspirado no retrato de Tião rendeu mais de 50 mil euros, que reverteram para ajudar a comunidade de catadores. Ao todo, entre prémios, vendas de fotos e direitos, já conseguiu mais de 200 mil euros para aquelas pessoas. “O artista também é um ser humano. Pobre precisa de comer, de um trabalho decente. Eu já fui pobre, tenho essa responsabilidade”.