Dinheiro
Foi despedido? Há empresas que o ajudam
10-02-2012
Por Daniel Vidal
Inês, 40 anos e nome fictício, estava de licença de parto enquanto esperava para ser mãe de gémeos quando recebeu a notícia de que iria ser despedida. Após o choque, a empresa de consultoria de gestão onde trabalhava deu-lhe a possibilidade de tirar partido de um serviço de outplacement, que a ajudaria a procurar um novo emprego. Fazia parte da proposta de compensação financeira e o preço desse serviço era descontado na indemnização.
“Quando me informaram que iria ser despedida, senti o chão a fugir dos pés, nem queria acreditar no que estava a acontecer”, confessa à SÁBADO.
A Mercuri Urval – consultora especialista em recursos humanos – respondeu à chamada do empregador de Inês. A SÁBADO online falou com Maria José Santos, a vice-presidente, e André Simões, management consultant, que explicaram no que consiste este serviço cada vez mais requisitado em Portugal.
A sua intervenção nas empresas pode ser feita em duas fases: antes e depois dos despedimentos. O ideal, revela Maria José Santos, é a antecipação dos problemas. Mas confessa que “não há uma visão a longo prazo, não mantêm avaliações periódicas e enquanto tudo está bem, não há preocupações”.
Quando os empregadores necessitam de reduzir o pessoal, a Mercuri Urval presta o seu apoio a identificar e separar os trabalhadores que são realmente úteis e necessários, daqueles que devem ser recolocados ou até despedidos.
“É tão importante tomar medidas no sentido da contratação, como medidas no reajustamento da estrutura. As empresas precisam de sobreviver – se não o fizerem, será mau para todos”, explica Maria José Santos (MJS).
A entrada destes especialistas nas empresas costuma lançar o pânico entre os funcionários. “Na maioria das vezes as pessoas apercebem-se”, acabando por revelar alguma hostilidade.
Mas a antecipação dos problemas é uma coisa rara em Portugal. Normalmente, as empresas apenas requisitam os seus serviços no momento do despedimento – e depois de já terem informado os trabalhadores.
“Se há decisões que devem ser tomadas cedo são as decisões sobre pessoas. O pior que se pode fazer é adiar, mas isso acontece porque são questões difíceis de endereçar. Doem a quem vai ouvir, e doem a quem tem de dizer”, confessa MJS. E acrescenta que o acto do despedimento deve ser feito “olhos nos olhos, de um modo positivo, porque as pessoas merecem essa dignidade.”
Muitas vezes nem intervêm no processo de despedimento. Casos há em que são chamados e apresentados ao trabalhador despedido como uma alternativa, num momento em que a dispensa já foi comunicada. Uma espécie de método para suavizar o impacto da notícia, uma operação de charme que acaba por ser mais do que apenas isso .
A Mercuri Urval acredita que é contratada pelas empresas por estas terem uma genuína vontade de ajudar e um maior sentido de responsabilidade social. Mas não é apenas isso que os move.
Um estudo sondou empregadores britânicos e mais de 70% dos inquiridos concordaram que o recurso ao outplacement melhorava a reputação da empresa, bem como a capacidade de reter os trabalhadores em funções. Semelhante percentagem admitiu também encarar i despedimento com uma consciência mais tranquila, já que lhes tinha sido oferecida uma alternativa.
Como é o processo de outplacement?
Durante todo o processo, o cliente é acompanhado exaustivamente: são feitas entrevistas, é criado um perfil, fazem-se listas de interesses e hobbys. No fundo, os especialistas tentam “conhecer a pessoa, quais os seus interesses e motivações.”
MJS afirma que a sua empresa, por trabalhar nas duas vertentes – quer no despedimento, quer no recrutamento -, encontra-se numa posição privilegiada para aconselhar os seus clientes quanto aos melhores “truques” para encontrar, com sucesso, um novo posto de trabalho.
O acompanhamento personalizado que proporcionam é atento aos pormenores. Até os pequenos pormenores como “controlar o nervosismo” pode ditar o sucesso ou insucesso de uma entrevista de emprego.
“Por vezes uma entrevista tem tudo para dar certo, mas uma palavra, uma frase descontextualizada dita por algum nervosismo, pode deitar tudo a perder”, revela MJS, que diz que se deve “ser confiante ao afirmar as próprias capacidades, mas com cuidado para não exagerar.”
Mesmo depois das entrevistas, é normal que o cliente ligue e conte como tudo correu, o que lhe disseram e o que ele respondeu.
Inês continua à procura de emprego através de outplacement. MJS, que lidou com o seu caso, admite que “as coisas poderiam ter sido conduzidas de outra forma”, de modo a que “não constituísse uma surpresa tão grande.” E revela os erros mais comuns em que incorrem os empregadores: “Há tendência a evitar o contacto até ao momento inevitável, e isso torna tudo mais complicado. Recomendamos que haja uma comunicação aberta e tudo seja feito de forma clara e directa.”
Ainda assim, há situações mais difíceis do que outras. Como os desempregados que pertencem a faixas etárias mais altas. “Trabalharam muitos anos seguidos numa só área e acabam por cristalizar”, diz MJS. Mas mesmo nestes casos, é preciso olhar para o problema com optimismo e ajudar as pessoas a pensar “fora da caixa”, analisando o que realmente gostam de fazer e quais os seus hobbies. É nestas respostas que, por vezes, se encontra a solução para o desemprego.