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A vida agitada de Villas-Boas em Londres

04-02-2012

Por Cláudia Garcia

André Villas-Boas é um eremita do futebol em Londres. Tal como acontecia no Porto, o treinador do Chelsea nunca passeia na cidade acompanhado pela família, preferindo ficar fechado na sua casa de Belgravia, um dos bairros mais ricos da cidade e onde também morou José Mourinho quando esteve no clube, entre 2004 e 2006. Villas-Boas não frequenta eventos públicos e nunca foi visto nos restaurantes preferidos do plantel e da equipa técnica do Chelsea. “Vêm cá muitas vezes o Drogba, o Lampard e o Essien depois dos jogos. Roman Abramovich também vem algumas vezes e o próprio Mourinho esteve cá em Fevereiro do ano passado, no Dia dos Namorados, com a família. E quando vivia em Londres vinha várias vezes com a mulher”, conta à SÁBADO Álvaro Maccioni, proprietário do restaurante italiano La Famiglia, que fica em Chelsea e é muito frequentado pelos jogadores.

“A vida dele é o futebol e a família. Não participa na vida social de Londres, é muito reservado e prefere estar em casa com as filhas, que são muito pequenas”, diz um amigo do treinador. A escolha da casa e da localização foi influenciada pela mulher, Joana Villas-Boas, que conhece bem a zona este de Londres, onde estudou design de interiores no Chelsea Art College.

A imprensa britânica acusa Villas-Boas de ser excessivamente fechado, ironizando que o Chelsea vive ainda no período da Guerra Fria, tal é a preocupação com todos os detalhes que passam cá para fora. “Não sabemos nada sobre ele para além do futebol. A única coisa que falou é que gosta de motas. E mesmo no seu trabalho ele fecha-se demasiado e erra ao pensar que isso o pode ajudar, reage mal às perguntas dos jornalistas, por exemplo sobre o Lampard está sempre na retaguarda”, comenta Martin Lipton, jornalista do Daily Mail, minutos antes de Villas-Boas entrar na sala de imprensa de Stamdford Brigde após mais um empate em casa, desta vez contra o Fulham. Villas-Boas revelou à imprensa o seu hobbie, desportos motorizados, mas nem isso o treinador faz em Londres, visto que só quando vem a Portugal aproveita para andar de mota pelas colinas de Valongo.

A rotina diária

Villas-Boas chega ao centro de treinos do Chelsea em Cobham todos os dias antes das 9h, ao volante do seu BMW X6 preto. É sempre um dos primeiros, ainda que seja um dos que vive mais longe, a cerca de 30 km de Cobham. Prepara os últimos detalhes com a equipa técnica e durante os 90 minutos do treino fala e grita com cada um dos jogadores do plantel até perder a voz. Vai sempre questionando e pedindo a opinião dos restantes elementos do staff, sem nunca perder de vista o plantel. “É muito rigoroso com os jogadores e exige o máximo de cada um. Nisso ele é bem parecido com Mourinho”, diz à SÁBADO o defesa Alex, que estava no Chelsea e agora mudou-se para o Paris Saint-Germain, tendo sido treinado por Mourinho em 2007.

Os jogadores têm normalmente a tarde livre, mas antes almoçam juntos em Cobham, tal como ficou definido por Villas-Boas no início da temporada. Quando chegou, uma das suas principais preocupações foi estabelecer regras no plantel, que desde Mourinho não sabia o que isso era. O português começou por proibir a entrada de pessoas estranhas. Até então, e principalmente quando o treinador era o italiano Ancelotti, os jogadores estavam habituados a trazer mãe, pai, namorada, amigos e até cabeleireiros para o trabalho. “Ele estabeleceu novas regras diárias ao plantel, até porque muitas coisas tornaram-se demasiado relaxadas com Ancelotti e ele teve naturalmente de elevar os padrões, mas não é um treinador extremamente rigoroso, simplesmente com padrões normais que exige dos jogadores”, revela uma fonte do clube.

Villas-Boas tem tido dificuldades em gerir um balneário com muitas estrelas. “Os jogadores respeitam-no, mas não se pode dizer que tenham uma relação próxima ou que sejam amigos. É normal que a grande popularidade que ele conquistou dentro do plantel do FC Porto seja difícil de repetir no Chelsea. Aqui os jogadores têm muito poder, muitos deles falam directamente com o proprietário e há muita política pelo meio”, descreve a mesma fonte do clube. Já um amigo do treinador, que prefere não ser identificado, nega qualquer atrito entre Villas-Boas e os jogadores. “O André não tem problemas com nenhum jogador, trata todos por igual, como fazia na Académica e no FC Porto. Determinados jogadores é que talvez estivessem habituados a um tratamento diferente, que agora não têm nem vão ter da parte dele”, conclui.

Villas-Boas foi considerado arrogante por ter impedido Alex e Anelka, que em Janeiro abandonaram o clube, de estacionarem os carros nos lugares que lhes pertenciam em Cobham e de ter proibido a presença de Anelka no almoço de Natal do Chelsea. O plantel reprovou a atitude do treinador e organizou mais tarde um almoço privado para o francês, que logo depois saiu para o Shangai Shenhua, da China. O defesa Alex preferiu seguir o antigo treinador do Chelsea, Carlo Ancelotti, na sua nova aventura em Paris, depois de ter sido dispensado por Villas-Boas. “Quando chegou, ele disse claramente que todos iriam ter oportunidade para jogar, mas no meu caso, não tive praticamente nenhuma oportunidade e quando assim é, é porque o treinador não gosta do teu trabalho”, esclarece Alex.

Apesar dos problemas no balneário e de estar a 13 pontos do líder do campeonato inglês, o Manchester City, Villas-Boas continua a ter o apoio dos adeptos. “É um treinador jovem, mas já provou várias vezes que pode conquistar títulos. Acredito que podemos vencer a Champions”, diz Andy Oakley, na bancada a assistir ao empate do Chelsea com o Fulham. O belga Cedrick Walravens, outro adepto do Chelsea que está frequentemente em Stamford Bridge, também defende Villas-Boas: “É a pessoa ideal para treinar a equipa neste momento, é jovem, tem ambição e força para mudar. Nós precisamos dessas qualidades”.

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