Sociedade
Os anos das viagens intermináveis para o Algarve
09-08-2012
Por Lucília Galha
A parte final acabava sempre com Rita a vomitar dentro do carro. Depois de mais de cinco horas de viagem, que por vezes passavam a sete, ultrapassar a serra de Monchique sem enjoar era quase impossível. O FIAT 128 formato carrinha ia apinhado de carga – as malas e a roupa seguiam no porta-bagagens; no tejadilho iam quatro ou cinco caixotes de cartão, com mercearia para pelo menos três semanas e uma espécie de forno portátil (que servia de torradeira e também dava para fazer assados). No banco da frente viajavam os pais e, atrás, entre os dois irmãos, Fernando e Rita, e várias almofadas, havia ainda uma televisão. Era um momento de grande tensão:
“Vais vomitar?”, perguntava o pai.
“Ó pai, não sei!”, respondia Rita.
Ninguém queria parar. A serra já era no Algarve e queriam chegar o mais cedo possível à praia Maria Luísa, em Albufeira. Além disso, se parassem demorariam outra meia hora a ultrapassar o camião que ficara para trás.
“Acho que estou mal disposta, vou vomitar!” continuava Rita.
“Mas queres que pare? É que se paro, aquele camião vai passar-me outra vez.”
Normalmente, a indecisão resolvia-se da pior maneira. “Ela vomitava dentro do carro”, recorda Fernando Miguel Carvalho, 37 anos, à SÁBADO. Ainda pior era a fase seguinte:
“Ela vomitava nas costas do banco do meu pai e depois tínhamos de aguentar aquele cheiro o resto da viagem.”
Viajar de Lisboa para o Algarve nos anos 60 e 70, quando ainda não havia auto-estrada (o único troço era entre Almada e o Fogueteiro e tinha apenas nove quilómetros), era uma odisseia. A viagem podia estender-se por cinco, sete ou 10 horas. Era preciso passar por todos os vilarejos e terrinhas e enfrentar filas intermináveis. Sem ar condicionado nem áreas de serviço.
A família de Fernando, professor de engenharia informática, fazia o percurso todos os anos, em Julho ou Agosto. A viagem era preparada com antecedência: a mãe comprava as mercearias (sobretudo enlatados para fazer sanduíches) e acondicionava-as em caixotes de cartão do supermercado.
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