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Fotogaleria: conheça a vida incrível de José Hermano Saraiva

20-07-2012

Por: Vítor Matos

Em 1966, durante as comemorações dos 40 anos do Estado Novo, José Hermano Saraiva foi convidado para fazer uma conferência na Assembleia Nacional sob o tema “Construir o Futuro e Celebrar o Passado”. O outro convidado para o mesmo dia era José Guilherme de Melo e Castro e era suposto fazerem intervenções com sentidos políticos diferentes. Mas os oficias do regime esperavam que Melo e Castro fizesse uma intervenção alinhada e que Hermano Saraiva fosse mais crítico, de modo que Ramiro Valadão, presidente da RTP, decidiu filmar a intervenção do primeiro e não a do segundo. Um erro. No fim de contas, Melo e Castro criticou a dependência absoluta do regime da personalização em Salazar, e José Hermano Saraiva louvou o ditador. Resultado: Salazar exigiu que o discurso de Saraiva fosse transmitido.

A meio da noite, o historiador participou numa manobra de manipulação dos media típica em ditadura. Foram a casa desinquieta-lo de noite, voltou a vestir a roupa de cerimónia e repetiu o discurso na Assembleia Nacional para um hemiciclo vazio. Os aplausos seriam acrescentados depois na montagem televisiva. E o discurso seria integralmente transmitido a 31 de Dezembro de 1966.

José Hermano Saraiva morreu hoje, aos 92 anos. Quase 20 anos depois daquele discurso televisivo interrompido por aplausos enlatados, o professor havia de se tornar uma figura muito popular da televisão, por causa dos seus programas e documentários sobre História de Portugal. Filho de um reitor de liceu, José Hermano Saraiva fez parte da primeira lista de voluntários da Mocidade Portuguesa publicada no Diário de Notícias a 2 de Agosto de 1936, com António Ricciardi, Augusto Supico ou Baltazar Rebelo de Sousa. Na escola, era colega de turma de Adriano Moreira, com quem teria conflitos graves no futuro.

O futuro historiador e celebridade televisiva faria a carreira política normal do Estado Novo. Foi deputado à Assembleia Nacional, procurador à Câmara Corporativa e depois Ministro da Educação Nacional, entre 1968 e 1970. Apanhou as academias em polvorosa. Os estudantes comunistas perdiam força para os maoístas nas principais universidades, e o Maio de 68 fazia os seus efeitos na crise académica de 1969, desencadeada em Coimbra, quando ele e o presidente da República Américo Thomaz são desafiados por um dirigente estudantil em Coimbra chamado Alberto Martins.

Quando Salazar cai da cadeira e abandona o poder, e Hermano Saraiva mantém-se como ministro de Marcello Caetano, sendo mais tarde substituído por Veiga Simão. Baltazar Rebelo de Sousa, em cartas a Caetano, falava da “loucura criativa” de Saraiva, que estava a ser muito contestado pelos estudantes e, ao mesmo tempo, não era bem-amado nas hostes marcelistas. Quando saiu do governo, foi para embaixador de Portugal no Brasil, até ao ano da Revolução, em 1974.

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