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Conversas de casa de banho

06-07-2012

Por Lucília Galha / Ilustrações de Rui Ricardo

Vou fazer um chichi, também queres?
– Yep!
– Já começo a sentir umas moinhas do período, sabes?
– Hum, hum.
– Amanhã vou ligar para a médica para saber o que faço à minha vida.
– Pois, acho que fazes bem.
– Ai meu Deus! Já ‘tou a fazer chichi pelas pernas abaixo.
A outra ri-se.
– A esteticista tirou-me os pêlos todos, pronto!
Puxa o autoclismo e continua:
– Bem, que se lixe – destranca a porta e sai.

Duas mulheres, com cerca de 30 anos, conversam na casa de banho do Centro Comer cial Colombo como se estivessem sozinhas. Falam bastante alto para se ouvirem entre o barulho dos secadores de mãos e dos autoclismos. Pela conversa, ninguém diria que estão num sítio público. Mas estão.

São 14h07 de quarta-feira, dia 23 de Maio, e estou há 20 minutos fechada num cubículo de 80 centímetros por 1,60 metros. Objectivo: acabar com um dos grandes mistérios do mundo masculino – o que é que as mulheres conversam nas casas de banho?

À hora de almoço, as casas de banho do Colombo são (a par da zona de restauração) um dos sítios mais frequentados. E poucas mulheres entram ali sozinhas. Há as que, a meio da conversa, suspiram, as que se queixam de tudo e as que, enquanto esperam, se divertem a trautear a música ambiente. E também há desabafos inesperados.

Pelas mochilas, calculo que as duas raparigas acabadas de entrar sejam estudantes:

– Eh pá! Tenho de fazer o buço urgentemente [aproxima-se do espelho para ver melhor]. Ai não pode ser, isto é da luz, só pode. E como se não bastasse ainda tenho uma marca de biquíni bué da deficiente. Não gosto nada.
– Porquê? – pergunta a outra.
– Porque nesse dia estava de cuecão.

Um estudo recente feito pela empresa American Standard concluiu que cada pessoa passa em média cerca de meia hora por dia na casa de banho. Para uma em cada quatro, este tempo é de uma hora. Por norma, as mulheres gastam mais tempo do que os homens. Não há dados científicos que expliquem porque é que as mulheres vão em grupo, mas há uma série de boas hipóteses. Por regra, há sempre fila nestes sítios e conversar ajuda a passar o tempo. Outras explicações possíveis: vão em pares para arranjarem o cabelo e partilharem truques de maquilhagem, para se queixarem dos namorados ou para falarem mal de amigas.

Vários destes argumentos podem ser comprovados numa noite qualquer do Lux. A casa de banho é um espaço quase tão concorrido como a própria discoteca: a fila tem mais de 20 pessoas.
Passa pouco das 3h e o Lux está cheio. Na fila, sou das poucas, talvez a única, sem companhia. À minha frente, três raparigas posam em frente ao espelho enquanto tiram fotografias com um iPhone.

– ‘Tou sinistra! Olha a minha cara.
– Bora tirar uma fotografia?
Tira da carteira um frasco de spray com perfume, borrifa as amigas duas ou três vezes, junta-se a elas e posam as três. Imitam uma imagem do filme Anjos de Charlie.

Ao fim de 10 minutos, chego à frente. Antes de mim, uma rapariga espanhola entra na primeira cabine quando percebe que está ocupada. “Hay una mujer haciendo un cigarrillo”, diz-me atrapalhada. Finjo-me desentendida e abro a porta. Confirma-se: está lá uma rapariga, a enrolar um charro.

Ficar fechada tranquilamente numa das divisões parece uma tarefa impossível. Passados menos de dois minutos, já uma mulher bate à porta insistentemente. Embora eu grite “está ocupada!”, não desiste.

Saio e sento-me numa das três cadeiras à entrada, voltadas para um espelho gigante, fingindo enviar SMS. Uma miúda de cabelo curto, olhos verdes e estilo hippie senta-se ao meu lado à espera das amigas. Traz na mão um copo baixo.

– F...-se! Enchem isto tudo de gelo.

Põe a mão dentro do copo, agarra nos cubos de gelo e atira-os com força para o chão. Por pouco não me atinge os pés.

– Isto sabe a água, f...-se! – continua.
Depois, vira-se para mim:
– Queres?
Acho a pergunta ridícula mas respondo-lhe na mesma.
– Não, obrigada. O que é?
– Martini com Red Bull. Mas sabe a água, queres? – insiste.

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