Sociedade
A vida dupla dos homens perfeitos que agridem mulheres
07-02-2012
Por Raquel Lito e ilustrações de Alex Gozblau
Era um bom vizinho, um óptimo tio e um excelente oficial de guerra. À chegada ao aeroporto militar de Figo Maduro, o tenente-coronel, de 42 anos, dirigiu-se logo à mulher. Tinha estado três meses numa missão no exterior e parecia impaciente. Seguiram para o carro, mas nem saíram do estacionamento. A mulher, professora do liceu, de 36 anos, magra e de olhos castanhos expressivos, tentou acalmá-lo. Ele violou-a ali mesmo, dentro do carro. A seguir deu-lhe duas bofetadas e fez-lhe uma ameaça: “Se não queres é porque estás farta, mas vou descobrir. Quem é ele? Eu mato-te, mato-o e depois mato-me a mim!”
Ninguém suspeitava desse lado do militar, que se agravara nos últimos dois anos – aquilo a que a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) define como “ciclo de violência doméstica”, com base na “manipulação emocional”. É mais difícil de detectar em agressores com um comportamento público irrepreensível, o que leva as vítimas a temerem um escândalo social.
O tenente-coronel terá jogado com isso. Nas missões era voluntarioso – e corajoso. “Foi várias vezes condecorado e teve uma rápida progressão na carreira”, descreve à SÁBADO a advogada de acusação, Fidélia Proença de Carvalho. Manteve-se dissimulado, à semelhança de outros agressores que, mesmo quando confrontados, tentam negar ou justificar a violência.
Com a família, o tenente-coronel mostrava-se terno, sobretudo com os sobrinhos, a quem oferecia aviões de aeromodelismo que ele próprio fazia. Organizou um jantar em casa para 30 familiares, para dar a notícia de que chegara o momento de ter filhos. No bairro de Lisboa onde viviam era um vizinho prestável: sempre que ia ao hipermercado perguntava à vizinha mais velha do prédio se queria que lhe trouxesse garrafões de água ou paletes de leite, para ela não carregar pesos; a uma mãe de dois bebés, oferecia-se para a ajudar no transporte dos carrinhos quando se cruzavam.
Mas dentro de casa, um T5, era de fúrias. Das ameaças à mulher passou às torturas, que duraram quase dois anos. Tratava-a como escrava sexual. Nas temporadas de dois meses que passava em Portugal, entre missões, exigia que ela metesse baixa na escola para ficar sexualmente disponível. E que andasse sempre despida pela casa. Quando a mulher adormecia, abanava-a com força pelos ombros, até ficar atordoada. Proibia-a de sair e de contactar familiares.
Dizia que nenhum homem da sua família tinha sido “panilas” e insistia que tinha de ser pai, recusando-se a aceitar o facto de ser estéril. Se a mulher resistisse a ter sexo, levava-a para a banheira cheia e mergulhava-lhe a cabeça na água.
Costumava bater-lhe com uma toalha húmida enrolada, que lhe provocava lesões internas sem deixar marcas. Uma vez, à noite, deixou-a a vomitar sangue, convulsivamente: tinha-lhe provocado uma grave lesão no estômago e recusou-se a levá-la ao hospital. Ela acabou por ser socorrida pela irmã e pelo cunhado. Nas urgências do Hospital de São Francisco Xavier, nem a médica conseguiu diagnosticar o problema.
Depois obrigou a mulher a fazer um tratamento de estimulação hormonal, que a fez engordar bastante. Queria que a ovulação coincidisse com os períodos que passava em Portugal. Habitualmente fazia missões de três meses, bem remuneradas em dólares.
Católica praticante, a vítima consultou um padre, que respondeu: “Minha filha, não pode o homem separar aquilo que Deus uniu. Diz para ele falar comigo.” Recorreu então à advogada Fidélia Proença de Carvalho, que a ajudou a preparar meticulosamente um plano de fuga. Arranjou colocação numa escola no Norte, acumulou poupanças e reuniu testemunhas que assistiam aos maus-tratos. Mas não chegou a apresentar queixa – limitou-se a mover uma acção de divórcio litigioso por violação do dever de respeito no casamento de 10 anos.
Pensou em todos os detalhes: em Maio de 2007, entregou à irmã uma cópia da chave de casa e pediu à vizinha do lado que escondesse em casa dela três agentes da PSP, duas amigas, o pai e a porteira do prédio. Sabia que duas horas depois o marido iria aparecer. Mal abriu a porta, ele insultou-a: “Minha grande p..., onde andaste?” Ao ouvirem os gritos, os familiares, os amigos e os polícias entraram a casa. Chegaram mais cinco agentes militares que o levaram para um aquartelamento, onde ficou detido cerca de um mês e meio. O divórcio foi decretado em Outubro e o agressor teve de pagar uma indemnização de 7.500 euros.