Carta ao meu corpo
Filipa Martins, 28 anos (escritora)
10-11-2011
Como é injusto propalar a fraqueza do corpo. A carne é fraca, diz-se, desculpando as ousadias do espírito. Uma falácia. Quando o corpo é libertino, o espírito, ao comando, já ultrapassou a ilegalidade. A voluptuosidade do corpo pouco mais é do que ecos da pornografia do espírito. A vaidade do corpo resquícios da soberba do espírito. Os hematomas na pele materialização de fracturas expostas da consciência. O visível refracções débeis do invisível.
A juventude do corpo, a tua juventude, mantém a lucidez do tempo físico, mantém o ponteiro no hoje. Um hoje que aconteceu há muito tempo porque o espírito é velho, mas que é o tempo certo.
Um encontro contigo, numa montra, na casa de banho de um hotel, poucas vezes é um encontro comigo. De quem são aquelas sobrancelhas? Os sinais minúsculos que se multiplicam do nariz às bochechas? A pele lisa? Estranho a mecha loira artificial sobre a testa – mais uma desfaçatez do espírito sobre o corpo. Estranho-te. Estranho-me. Está alguém em frente ao espelho de mãos no lavatório e não sou eu. Posso virar costas, abandonar o espaço, apagar a luz e tu continuas estático. Ou segues-me, mas surpreendo-te num gesto mais lento. Uma mão que deixas sobre a coxa quando eu já estou em rotação, em movimento. Furto-me a ti. Observo-te e furto-me a ti.
E quando te olho, corpo, e te vejo jovem. E quando te olho, corpo, e te vejo limpo, arranjado e até bonito. Surpreendo-me e nos primeiros segundos não te trato por tu, corpo. Escolho o você no tratamento, ao espelho, de um corpo desconhecido.
Um risco. Arriscamos muito, corpo. Um dia procuro-te e não sei de ti. A sabedoria está no saber parar. Combinar, talvez, um encontro tardio. Unir-nos na espessura dos hábitos que partilhamos, no cristalizar de caprichos. Nesses momentos, capto-te. E quando te capto, não me capto, deixo-me capturar por ti. Pela tua lucidez.