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Reportagem: Fomos à Maya ler as cartas

19-10-2011

Por Ricardo Dias Felner

Maya sai finalmente da salinha. Esteve lá fechada a dar uma consulta por telefone à menina Dulce (“Não seja tonta, menina Dulce! Não vai nada seguir Fotografia, isso não dá dinheiro nenhum! A menina tem 51 anos e dois filhos, meta juízo nessa cabeça! Parece que estou a falar com uma criança!”).
Ao passar pela sala de espera, improvisada no hall, faz um cumprimento rápido – Boa tarde –, e prossegue matraqueando o soalho, os saltos muito altos, até ao escritório ao lado.
– Preciso que adiem a festa do dia 29 – ordena, por telefone.

O apartamento onde a taróloga atende o público está longe de ser requintado ou esotérico – quem esperasse incenso e figuras místicas nas paredes ficaria desiludido. Situado num prédio antigo (sem elevador e com a entrada pintada de graffiti), da Av. Infante Santo, em Lisboa, o espaço é despojado e modesto, com mobiliário Ikea barato e um ambiente empresarial.

Uma das razões para esta sobriedade pode ser o facto de ali coabitarem (apertadas) a Clínica de Psicologia Miguel Bombarda, a Cartas da Maya, Estudos de Tarô, Lda. e a Maya Eventos.
Aliás, a mesma pessoa que há minutos falava em nome do Manta Beach Club (discoteca de Manta Rota, que Maya promoveu durante o Verão) é quem vem encaminhar a SÁBADO para o consultório.
– Pode esperar aqui. A Maya já vem.

A sala, com uns seis metros quadrados, tem uma mesa ao centro forrada por um pano de jogo esburacado por queimadelas de cigarro. Sobre ele, dois baralhos e uma caixa fechada que nunca será aberta.
Maya aparece, por fim. Não perde tempo. Agarra numa minuta e regista os dados biográficos. Nome, número de filhos, data de nascimento, estado civil. No fim, pergunta a profissão.
– Isso preferia não revelar.
[Para não alterar a espontaneidade da consulta, a SÁBADO decidiu omitir o propósito jornalístico.]
– Tem de me dizer!
– É que...
– Tem de me dizer!

A declaração é posta como se não restasse outra hipótese. Maya usa um tom no limite da reprimenda. Dá a ideia de que se a contrariarmos a reacção vai ser brutal, vai rebentar a falar – a gritar? – como uma professora ríspida, como devia fazer nos tempos em que dava aulas na escola primária da Ericeira. Não é fácil enfrentá-la. Está produzida, vestido e maquilhagem, parece ainda mais alta do que na televisão, tem uma voz nasalada e melíflua, um nariz de bruxa e um duplo implante mamário.
– Escritor, sou uma espécie de escritor... Já escrevi uns livros...
– OK, OK, a sua formação é de letras. Pronto, não preciso saber mais nada – conclui a taróloga.
Logo a seguir, deixa o registo burocrático e adopta a pose de feiticeira. Benze-se. Fecha os olhos. A imagem é ligeiramente assustadora.
– Coloque a mão esquerda sobre a palma da minha mão.

A mão de Eunice Cristina Maia Moraes de Carvalho, nome de nascimento, nascida há 52 anos na Amadora, é maior do que a de um homem com 1,83 de altura. Não só é maior como parece igualmente grossa; não só é maior e grossa como termina numas unhas gigantes, uns 5 centímetros para lá da extremidade da falangeta. Eis Maya, a bruxa moderna, eis Maya, a empresária vamp.

Durante largos segundos não diz nada. Mantém os olhos fechados. Parece analisar as vibrações da mão sobre a sua palma. Bichana algo e benze-se novamente. Depois começa a baralhar as cartas, os olhos ainda fechados, a cabeça virada para o tampo da mesa, em meditação.

Por fim, acorda. As primeiras 12 cartas do Tarô de Marselha são distribuídas sobre o tampo, formando um losango. Segue-se o baralho de cartas normal. Acompanha a distribuição com expressões ora de espanto, ora de constatação. Prepara-se para discorrer sobre o assunto. O momento é tenso.

Na manhã do dia anterior, no seu novo programa na SIC, O Dilema, Maya havia dito a uma mãe, numa consulta por telefone, em directo, que a sua filha, toxicodependente, de 37 anos, não iria chegar aos 40 anos. Quando a polémica rebentou, com uma notícia no Diário de Notícias falando em críticas dentro do próprio canal de televisão, a taróloga desmentiu, dizendo que não falou em morte.
  
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