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A seita do chá

29-08-2011

Por André Barbosa

O professor de ioga ouviu as águas rápidas de um rio a atravessarem a sala, numa quinta na zona de Sintra. Tinha tomado, momentos antes, a primeira dose de 40 mililitros de ayahuasca, um chá alucinogénio produzido a partir de raízes e folhas de árvores amazónicas, de cor ocre e sabor a terra. As duas dezenas de pessoas à sua volta começavam a entrar em transe, enquanto entoavam hinos e tocavam maracas e viola. Estavam num semicírculo, homens para um lado, mulheres para outro, em frente a uma mesa com fotografias dos fundadores da seita Santo Daime e uma cruz de Caravaca, de dois braços horizontais. Depois, as luzes desligaram-se e o grupo ficou à luz das velas. Fez-se silêncio. “Aí é que bate forte”, conta o participante de 33 anos. Algumas pessoas vomitaram, outras tiveram diarreia ou os dois sintomas ao mesmo tempo. Outros, ainda a suarem, deitaram-se num colchão lá colocado para quem não aguentasse o efeito do chá. O líder, um xamã brasileiro radicado em Portugal, pediu firmeza e encorajou-os a não abandonarem a sala.

O professor de ioga começou a sentir o corpo a “desmoronar-se, como se fosse um tremor de terra”. Ainda teve dúvidas: “Se calhar não devia estar aqui, isto é forte demais.” Mas já era tarde. À sua frente, formaram-se serpentes gigantes.

Isto aconteceu em Julho do ano passado. Mais de duas dezenas de portugueses e brasileiros, dos 20 aos 70 anos, vestidos de branco, combinaram encontrar-se na Lagoa Azul, na serra de Sintra. Dividiram-se pelos automóveis e foram para uma quinta onde ia decorrer um ritual que os índios da Amazónia fazem há dois mil anos. Em Portugal, a Céu Cruzeiro de Luz existe há 10 anos – é uma ramificação do Santo Daime, seita fundada no Brasil na década de 1920 por Raimundo Irineu, um seringueiro filho de um ex-escravo. Depois de ter tomado o chá no estado do Acre, na Amazónia, viu Nossa Senhora da Conceição, que o incentivou a criar uma religião a partir do ayahuasca, que rebaptizou de Santo Daime. O que fundou mistura hinos, dança e o culto a divindades tão diversas como Jesus Cristo ou Iemanjá.

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