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Sabe mesmo o que eles e elas preferem?

17-08-2011

Por Ricardo Dias Felner

O gi Ogas e Sai Gaddam são os maiores voyeurs do mundo. Nos últimos dois anos, os dois jovens neurocientistas da Universidade de Boston dedicaram-se a espiar os desejos sexuais de mais de 100 milhões de internautas. Com base no histórico de três poderosos motores de busca, observaram um milhão de websites eróticos, outros tantos vídeos, contos pornográficos e milhões de anúncios pessoais. O que viram resultou numa investigação pioneira (publicada no livro A Billion Wicked Thoughts – mil milhões de pensamentos perversos –, lançado em Maio, nos EUA), e na mais contundente prova de que homens e mulheres têm mentido sistematicamente sobre os seus desejos.

A avaliar pelo que diz o Google, o Yahoo! e o Bing, quase nada do que as pessoas procuram corresponde àquilo de que dizem gostar nos estudos científicos. E percebe-se o constrangimento. Veja-se, por exemplo, o histórico de um dos internautas estudados, Mr. Playstation (apelido dado pelos investigadores). Depois de fazer uma pesquisa relativa “à humidade óptima para uma casa”, as suas preocupações mudavam radicalmente para “vovó anal filmes”. Noutros casos, concluiu-se que muitas mulheres crescidas fantasiavam com Harry Potter e que uma grande parte dos homens gostava de ver transexuais e desejava ardentemente ir para a cama com a mãe (ou com a avó!) do seu melhor amigo.

Sempre houve este tipo de taras ou perversões. Apesar do espanto com que algumas conclusões de Ogas e Gaddam foram recebidas, elas não são uma coisa da era 2.0. Os homens – sobretudo eles – sempre tiveram gostos extravagantes e há muitos séculos que a pintura e a literatura vêm relatando isso: do incesto na Grécia antiga a homens bíblicos com 700 mulheres ou à promiscuidade na aristocracia e nas elites europeias do século XIX, passando pela violência descrita em Os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade.

O que mudou foi a possibilidade da observação directa dessas tendências e, sobretudo, a percepção da dimensão dos fenómenos. Até há pouco tempo, a ciência apostava que a maioria das excentricidades sexuais contemporâneas era um fenómeno marginal e não sabia explicar nem sistematizar sinais dispersos que iam surgindo nos media. Ainda hoje, os especialistas em desvios sexuais classificam como parafilias (comportamentos que podem ser considerados um “problema médico”) práticas que estão no top ten das eleitas pelos homens que vêem pornografia na Internet.

A gerontofilia, por exemplo (desejo por um parceiro sexual com a idade dos pais ou dos avós), é talvez o caso mais evidente desta transformação. De entre os homens que consomem pornografia na Internet, a idade é o tópico principal das suas escolhas. E as três idades mais procuradas, por pessoas com mais de 16 anos e de 18, são os 50 anos, os 40 e – atenção – os 60. A confirmar a tendência, o terceiro adjectivo com mais pesquisas nos motores de busca – só atrás de “teen” (adolescente) e “young” (jovem) – é “mom” (mãe), sendo o quarto “MILF” (Mothers I’d Like to Fuck) e o quinto “grannies” (avozinhas). No site de pornografia mais visitado do mundo, o PornHub.com, “mom” bate mesmo toda a concorrência.

Outro mito difundido por alguns sexólogos é a alegada equiparação das mulheres aos homens, em matéria de sexo – um cenário que os dados mais recentes não confirmam. Mulheres com taras não são de agora:recorde-se a Czarina Catarina da Rússia, que recebia a visita diária de jovens oficiais e contou 82 amantes. Mas, ao pé dos homens, a mulher média é um anjinho. Para se ter uma ideia, um dos dois únicos sites eróticos pagos dirigidos a mulheres é descrito pela sua fundadora como uma revista Cosmopolitan mais gráfica e mantém, a par de vídeos pornográficos pródigos em preliminares, artigos sobre saúde e horóscopos.

À parte as mulheres bissexuais (que parecem ter uma libido maior), elas continuam a entusiasmar-se é com o príncipe com quem casar e ter filhos. Mesmo na Internet, do que gostam mesmo é de ler contos eróticos envolvendo machos-alfa ou seres com poderes sobrenaturais, de entrar nos chats e de ter conversas picantes.

As justificações para estes comportamentos sexuais resultam frequentemente da biologia. A obsessão masculina com pénis grandes pode ter a ver com a marcação de território, típica dos primatas, em que a dimensão do órgão genital é determinante. Já a atracção das mulheres por machos altos, com ombros largos e um bom rabo (a parte masculina preferida delas) responde à pergunta: “Ao investir nesta relação sexual irei criar crianças mais saudáveis e mais felizes?” Nisso, a Internet não mudou nada.

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