Artes
Serge Gainsbourg: Os escândalos e o sexo - muito sexo
03-11-2010
Por Luís Silvestre
Conquistou Brigitte Bardot, Jane Birkin e Catherine Deneuve. Fumava e bebia em excesso. O filme Gainsbourg, inspirado na sua vida, já está em exibição nos cinemas.
Você é muito bonita e eu quero comê-la." Foram estas as palavras (numa tradução suave) usadas por Serge Gainsbourg quando conheceu Whitney Houston, no programa de televisão Champs-Élysées, transmitido em directo em 1986. O apresentador, Michel Drucker, tentou contornar a situação, mas o cantor francês, que se rebolava no sofá do estúdio com a voz arrastada e o smoking descomposto, insistiu: "Não desconverse. Diga-lhe que a quero comer!" Enquanto isso, aproveitava para passar a mão pelo pescoço da cantora norte-americana, cada vez mais embaraçada.
Serge Gainsbourg era assim: provocador, polémico, irritante, inconveniente e feio, muito feio, nas suas próprias palavras. "A fealdade é uma coisa superior à beleza, porque dura para sempre." Com um nariz grande e torto, olheiras, dentes amarelados, orelhas salientes e uma tendência irresistível para fumar e andar bêbado durante dias, poucos o colocariam na categoria de símbolo sexual. A verdade é que seduziu as mulheres mais bonitas do seu tempo: Brigitte Bardot, Jane Birkin, Catherine Deneuve e Juliette Gréco tiveram uma relação com ele. Tinha um charme único, uma mistura de timidez e arrogância, e sobretudo possuía talento artístico que usava para seduzir o público - e as mulheres. O filme, Gainsbourg, estreia quinta-feira, dia 21.
O músico coleccionou escândalos e amantes. Em 1984, também em directo na televisão francesa, queimou uma nota de 500 francos (cerca de 120 euros actualmente), como protesto contra o aumento de impostos, acabando por ir preso por desrespeito aos símbolos nacionais. Em 1978, gravou o hino francês, A Marselhesa, em versão reggae, conseguindo irritar tanto Bob Marley (o ídolo da música jamaicana sentiu-se desrespeitado) quanto os militares e os nacionalistas do seu país, que o receberam com cuspidelas no aeroporto. Esteve preso várias vezes, principalmente porque decidia estender-se no meio da rua quando bebia de mais.
A sua canção mais célebre, Je t'aime, moi non plus, também causou polémica. Foi escrita originalmente para Brigitte Bardot, com quem manteve uma relação tórrida no final dos anos 60, mas a actriz, pressionada pelo agente e pela família, recusou gravar o tema devido ao conteúdo sexual explícito. O tema acabaria por ser editado em 1974, num dueto com a mulher, Jane Birkin, e parte do refrão é acompanhado por gemidos de prazer, recriando um orgasmo feminino. A BBC baniu a sua divulgação e o Vaticano atacou o tema publicamente. Gainsbourg disse que o Papa devia reconsiderar a sua posição, porque a canção tinha uma "melodia quase litúrgica".
O talento para as artes e para a ironia foi notado logo em criança. Era filho de um casal de judeus russos, que fugiram da revolução comunista de 1917. Foi baptizado com o nome de Lucien Ginzburg, mas mais tarde decidiu mudar porque achava que "Lucien" era nome de "cabeleireiro de bairro" e porque queria ter um com sonoridade russa, a lembrar-lhe as suas raízes. Aprendeu música com as melodias folclóricas tradicionais judaicas, inspirado pelo pai que era pianista em bares nas horas vagas.
Gainsbourg, nascido em 1928, passou uma infância difícil com as perseguições aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Teve de usar a estrela amarela, com que os alemães marcavam os judeus, e a família acabou por fugir de Paris e refugiar-se na província, para escapar aos nazis. Começou por estudar pintura, mas nas aulas escapava da vigilância dos professores para ir espreitar à socapa as sessões de desenho dos adultos onde posavam as modelos despidas. Na escola fazia brilharetes entre os colegas, distribuindo folhas de papel com os seus esboços de mulheres nuas, com os pêlos púbicos devidamente realçados.
Foi numa das aulas de desenho, depois da família regressar a Paris, que conheceu a sua primeira mulher. Chamava-se Elizabeth Levitski, era uma jovem aristocrata boémia, estudante de artes plásticas e assistente de Salvador Dalí. O casal tinha por hábito escapar para o apartamento do pintor espanhol na capital francesa, que estava desocupado a maior parte do ano. Diz-se que faziam amor em cima das telas do mestre surrealista.
Casaram em 1951, quando Gainsbourg tinha 23 anos e começava a perder interesse na pintura e a apostar na música. Passava as noites a tocar piano em cabarés de travestis e em bares obscuros, aperfeiçoando o talento como compositor. Treinava também os dotes de sedutor, com amantes que eram atraídas pela sua voz rouca, enquanto a mulher ficava cada vez mais por casa. Divorciaram-se em 1964, quando ele já era uma estrela da música em ascensão.
Tinha sido Boris Vian, escritor e cantor francês, anos antes, um dos primeiros a reconhecer-lhe o talento, abrindo-lhe a porta das editoras, e a vedeta da canção dessa época, Juliette Gréco, seduziu-o e contratou-o como compositor. Ele também interpretava alguns dos temas que escrevia, mas era sobretudo famoso pelas canções que fazia para outros.
Sabia que uma boa polémica atraía publicidade e começou a dominar com mestria os truques da fama, chegando a telefonar às redacções dos jornais quando armava escândalos ou era preso pela polícia. Uma das suas cenas famosas foi a parceria com a estrela dos anos 60 France Gall. Ela era uma adolescente, dependente do pai, que contratou Gainsbourg como compositor. Ele escreveu-lhe a canção Poupée de Cire, Poupée de son (1965), que ganhou o Festival da Eurovisão, pelo Luxemburgo. Depois não resistiu a pregar-lhe uma partida, aproveitando-se da ingenuidade da rapariga. Entregou-lhe uma nova canção, intitulada Les Sucettes (os chupa-chupas), que ela gravou inocentemente sem saber que muitos dos versos eram uma referência maliciosa às virtudes do sexo oral. Até hoje, ainda se discute se France Gall conhecia o significado do que estava a cantar, mas o certo é que o escândalo foi imenso e ela nunca mais lhe perdoou. Ele tanto era capaz de escrever temas de amor sublimes como canções com sons de gases intestinais.
A segunda mulher de Gainsbourg, Béatrice Pancrazzi, com quem casara em 1964, também começava a ficar farta dos vícios do marido. O facto que desencadeou o divórcio foi o caso que ele manteve com Brigitte Bardot no fim dos anos 60. O músico passou a ser uma espécie de herói da nação: o homem mais feio de França tinha conquistado a mulher mais bonita do país. "O nosso caso amoroso não durou mais de três meses, mas mesmo no meio de 25 mil pessoas o Serge fazia-nos sentir que éramos únicos", contou Bardot.
Depois casou com Jane Birkin, uma jovem actriz e cantora britânica, 18 anos mais nova do que ele, que entrou na vida do músico depois de surgir em Blow Up - História de um Fotógrafo, de Antonioni, onde protagonizou a primeira cena de nu frontal do cinema. Viveram uma paixão tórrida no início dos anos 70, tiveram uma filha, Charlotte (também actriz e cantora), mas a relação não resistiu ao alcoolismo e às traições do marido. Marianne Faithfull foi uma das visadas pelos boatos que a davam como amante do músico. Respondeu assim: "Nunca dormi com ele, mas tenho pena. Todas as mulheres que conheço que passaram pela sua cama saíram de lá muito satisfeitas." Outro dos nomes célebres nas colunas de mexericos era a actriz Catherine Deneuve, com quem terá tido um affaire.
Gainsbourg ainda voltou a casar em 1981, com a modelo asiática Bambou, que o acompanhou até ao fim da vida.
Nos anos 80 arrastou-se por programas de televisão e causou um novo escândalo ao interpretar a canção Lemon Incest com a filha adolescente - choveram as acusações de lascivo e incestuoso. Cada vez mais frágil, não resistiu aos excessos, ao álcool (foi operado ao fígado por causa de uma cirrose) e ao tabaco (chegou a consumir mais de quatro maços de cigarros Gitanes, a sua imagem de marca). Morreu a 2 de Março de 1991, com 62 anos.