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Pré-publicação: Voz Perdida

30-03-2010

Isa Mestre, jovem escritora portuguesa, acaba de lançar o livro Voz Perdida.

A obra trata de um conjunto de micro-narrativas romanceadas em que os olhares, as paixões, os gestos e os medos se entrecruzam num verdadeiro jogo de emoções.

O livro, em prosa, constituído por 32 micro-narrativas é, segundo a autora, “uma viagem solitária pelos labirintos da alma de quem se procura todos os dias, de quem se perde e se encontra, de quem sorri e chora, de quem também se olha por dentro”. 

Cruzamento de várias personagens e várias histórias esta é a obra de estreia de Isa Mestre, que 2007 arrecadou o segundo prémio no Concurso Sophia de Mello Breyner.

O livro encontra-se já disponível para venda na livraria online do Sítio do Livro e será apresentado no dia 10 de Abril, na Biblioteca Municipal de Faro.


Leia aqui o primeiro capítulo da obra. 

Capítulo I

Segredo

Escrever-te o sorriso, olhar-te por dentro, amar-te sem me envolver, sem me deixar tocar pela doçura das palavras ditas, dos gestos continuamente repetidos na minha memória.
Olhei-te durante anos e desejei apenas o parágrafo mais sincero, o mais puro, aquele em que a tua beleza pudesse ofuscar unicamente os olhos de quem me lê, de quem me acredita apaixonado, e se apaixona tantas vezes pelos meus amores.
Perguntas-me se te amo, faço uma pausa, a dureza das palavras pode ferir-te, a crueldade da verdade impedir-me-á de voltar a ver-te sorrir.
- Amo-te como nunca ninguém te amou.
Não te minto. Estou certo de dizer-te toda a verdade.
Amo-te como nenhum outro homem pode amar-te, porque te amo o sorriso e não a tua forma de sorrir, porque te amo as palavras e não tudo aquilo que dizes com elas, porque te amo a naturalidade e não a sensatez.
E enquanto os outros te olham com as mãos repletas de prazer e desejo, eu olho-te e amo-te com as palavras que escrevo, com os adjectivos sempre ridículos e incapazes de classificar-te, de dizer-te que és a mulher mais bela do mundo.
Chegará o dia em que ousarás estar cansada de mim e dos meus papéis, de mim e do meu olhar constante, da ânsia de quem quer ver tudo sem ver, na verdade, absolutamente nada.
O editor pede-me mais, desconfio que gosta da mulher que há em ti, da essência que se esconde por detrás do rosto sério e do olhar expressivo. Conhece-te sem nunca te ter conhecido. Apaixonou-se por ti mais do que pelas minhas palavras.
Escrever-te-ia uma carta de amor, se não se achasse ridículo, se não se olhasse ao espelho todos os dias sentindo-se miserável por amar-te sem saber que te ama, por pensar na mulher que lê nos meus livros, na mulher que ele crê que não existe e está cada vez mais próxima de si.
Revelar-te ao mundo seria acreditar que os homens algum dia poderão olhar-te por dentro.
Por isso, serás sempre o meu segredo.
***

Indício

De que é feita a saudade? De que matéria é feita a palavra que escreves vezes sem conta sem querer acreditar que nunca te questionaste sobre ela?
De que são feitos os nossos corpos quando te afastas e sorris, quando me olhas sóbrio e distante, frio e melancólico?
De que são feitas as noites escuras, encobertas pela claridade de um lençol alvo que nos cobre, que nos segreda ao ouvido que o amor é a papoila encarnada do campo da vida.
Diz-me. Ainda sabes sorrir? Ainda conheces de cor os caminhos do meu sorriso?
Saudade. Dizia na carta que escreveste.
Nem um endereço, nem um destinatário, nem o início,nem o fim. Porque a saudade é uma palavra curta, como o amor, como o medo.
Apenas um envelope branco, uma folha manchada pelo medo e pela angústia e no mais profundo de mim, a palavra a batucar-me no peito, como um tambor a rufar, como um som que não me deixa dormir: saudade, saudade, saudade.
Não sei de onde vim nem para onde vou, sei apenas que amo certas palavras, que nasci com elas e cresci ao vê-las crescer dentro de mim, ao vê-las sorrir e chorar.
Talvez saibas disso, talvez por isso me escrevas, talvez por isso tenhas desistido das palavras banais para semear no meu peito aquelas que ficam, que ficam mesmo quando a dor e o medo se sepultam aqui dentro, que ficam quando tudo ameaça desaparecer.
Tu foste, a saudade ficou. Tu foste, o amor ficou. Tu foste, a esperança ficou. Tu foste, o sonho ficou.
Quis saber porque escreveras saudade.
Do latim solidão, diz-me o dicionário. 

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