Freeport
Sócrates e primo com duas versões
09-01-2010
O primo do primeiro-ministro foi ontem ouvido no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) no âmbito do processo Freeport e, segundo revelou ontem o Expresso on-line, garantiu ter recebido autorização de Sócrates para usar a relação de parentesco numa reunião com o director de marketing do Freeport, Simon Jobling, conforme confirmou ontem o CM. O gabinete do primeiro-ministro desmente-o: "É completamente falso que tenha havido qualquer autorização."
Hugo Monteiro, que recusou falar ao CM, é testemunha no caso e só agora foi inquirido porque estava na China a fazer um curso. Regressado a 16 de Dezembro, foi notificado para ser inquirido.Acedeu, e ontem esteve no DCIAP, onde se encontra sediada a equipa especial que se dedica à investigação do caso.
Júlio Monteiro, tio de José Sócrates, disse ao CM que desconhece o que o filho disse aos magistrados e investigadores da PJ de Setúbal. O familiar, que também foi ouvido como testemunha, não quer mesmo voltar a falar do caso Freeport, mostrando algum desgaste pelo envolvimento e pela demora na conclusão da investigação.
'Já gastei 2500 euros em advogados. Quem é que me paga isto?', pergunta Júlio, voltando a garantir que o filho nunca recebeu qualquer suborno. 'Ele não precisava. Fala-se em 80 mil euros e nós temos muito mais que isto. Este processo é um disparate'.
CRONOLOGIA
2004
Uma carta anónima à PJ de Setúbal denuncia o financiamento do PS a troco da aprovação do Freeport. Sócrates é acusado de receber luvas para dar luz verde ao outlet.
2005
Buscas no Freeport, na Câmara de Alcochete e nas empresas Smith&Pedro, SAM e SEA, intermediárias no negócio. O nome de Sócrates e da mãe surgem na lista de 15 suspeitos.
2008
Cândida Almeida, directora do DCIAP, avoca o processo, alegando a complexidade do caso. Iniciam troca de informações com a polícia britânica.
2009
O presidente do Eurojust, Lopes da Mota, é acusado de pressionar os dois magistrados titulares do processo, Vítor Magalhães e Paes Faria. Lopes da Mota é suspenso do cargo – e demite-se.
PAI CONFIRMOU USO DO NOME
Júlio Monteiro apresentou há alguns meses uma versão com ligeiras diferenças do que agora terá dito o filho. Afirmou em comunicado que Hugo pediu que lhe fosse dada a oportunidade de ser ouvido e apresentar pessoalmente a proposta da sua empresa para uma acção promocional do Freeport, identificando-se como sendo seu familiar. 'Invocou o facto de eu, seu pai, em tempos ter demonstrado disponibilidade em transmitir ao meu sobrinho uma situação anómala ligada ao Freeport', assegura Júlio Monteiro.
Recorde-se que o e-mail em causa dava conta de um projecto de marketing para o outlet de Alcochete. Tratava-se de uma proposta para a área de eventos e foi apresentada em 2005, antes de o PS ganhar as eleições e Sócrates ser nomeado primeiro-ministro.