Governo
Noitadas, bifanas e Orçamentos do Estado
27-01-2010
Por Daniela Gouveia
Há sempre memória de noitadas com bifanas, pregos e pizzas na preparação dos Orçamentos do Estado. E de ministros que passam dias seguidos enfiados nos gabinetes ou que vão para casa só para tomar banho. Mas há dois anos consecutivos que nem as directas resolvem os atrasos na entrega do documento.
Com Eduardo Catogra, ministro das Finanças de Cavaco Silva (1993-1995) a culpa foi da impressora. “O Orçamento estava pronto 48 horas antes de ser entregue na Assembleia da República, só que na véspera quando dei ordem para imprimir, a impressora encravou”, contou o ministro ao Diário Económico (DE).
E vieram os pregos, as bifanas e o café do costume. Pela madrugada, a impressora colaborou e antes de entregar o documento a tempo e horas na Assembleia, Catroga ainda teve tempo de brincar com o neto no jardim.
Mas isto foi nos tempos em que a culpa ainda podia ser da impressora e das milhares e milhares de páginas que se metiam em caixotes e eram entregues por funcionários e guarda-costas. Hoje, na era de planos tecnológicos, de pens e dos cartões de memória, tudo mudou. Para pior.
A entrega do Orçamento do Estado para 2010 na Assembleia da República estava marcada para dia terça-feira, 26 de Janeiro. Foi entregue, mas por pouco. A saga começou à tarde. Houve várias “horas indicativas” para a entrega do documento. Esteve para ser às 18h. Depois às 19. E finalmente às 22h.
Os deputados de todos os partidos foram obrigados a permanecer na Assembleia da República. A ementa fugiu dos habituais pregos e bifanas. Cansados de esperar, os deputados encomendaram sushi, fast-food e sandes para conseguir aguentar a passagem das “horas indicativas”.
Vinte minutos depois das 22h, chegava o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos à AR com dois cartões de memória para entregar a Jaime Gama: um com o OE para 2010, o outro com as "Grandes Opções do Plano".
Já passava das onze quando o documento foi apresentado em conferência de imprensa no Ministério das Finanças.
Dois minutos antes da meia-noite, Teixeira dos Santos dizia a um jornalista: "Que eu saiba, ainda estamos no dia 26». «O meu horário de trabalho não é o vosso, eu trabalho 24 horas por dia", afirmou. "Nós também", ouviu dos jornalistas presentes na sala de conferência.
Já em 2009 a coisa também não correu muito bem. Três horas e meia de atraso, uma pen com defeito a chegar com o documento confidencial e uma confusão em torno da lei do financiamento do partido quase originou um orçamento rectificativo horas depois da proposta.
"Problemas operacionais de interligação de documentos complexos", desculpou-se Teixeira dos Santos, com a entrega de “meio” documento.
Na conferência de imprensa, sem mapas e sem toda a informação, o ministro das Finanças fez uma declaração histórica na política orçamental do País: "Não me peçam números".