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“Acho que hoje ainda era capaz de montar e desmontar um copiógrafo de olhos fechados”

04-03-2013

Por Vítor Matos

Há 20 anos que José Pacheco Pereira anda a juntar e a estudar publicações de extrema-esquerda. No novo livro, 'As Armas de Papel', reúne 158 títulos

"Acho que hoje ainda era capaz de montar e desmontar um copiógrafo de olhos fechados"


José Pacheco Pereira anda a recolher materiais há mais de duas décadas para escrever 'As Armas de Papel' (Temas&Debates/Círculo de Leitores) – lançado no dia 5 de Março. O livro que inventaria 158 publicações clandestinas de extrema-esquerda entre 1963 e 1974 – exclui as publicações do PCP – é também uma narrativa sobre a experiência do próprio autor como jovem produtor de imprensa radical no âmbito da UEC(ML) e do PCP(ML).

Aliás, estas publicações acabam por ser o retrato de toda uma geração, que cede ao apelo do maoísmo sobretudo depois do Maio de 68, onde aparecem nomes como: Manuel Vilaverde Cabral, João Carlos Espada, Mariano Gago, Nuno Crato, Fernando Rosas, Medeiros Ferreira, Maria Gabriela Llansol, Hélder Costa ou Leonor Coutinho. O novo livro do historiador e comentador político é um trabalho enciclopédico e exaustivo com aspectos inéditos, que o autor pretende o mais científico possível. Por outro lado, tem lados autobiográficos sobre os quais Pacheco Pereira falou ao longo de quase duas horas com a SÁBADO. Eis a versão integral da entrevista publicada na revista impressa.

Quanto tempo trabalhou neste projecto?
De forma intermitente há quase 20 anos. Comecei a recolha desde sempre: sou como os antigos caçadores-recolectores. Ando por todo o lado a salvar papéis, bibliotecas, arquivos, manuscritos. E tenho tido algum sucesso nesta matéria e sei até que ponto isto é perecível.

Quantos destes exemplares tem na sua colecção?
Tenho grande parte das publicações deste livro, que tenciono começar a publicar na íntegra no meu site ephemera. Neste livro tenho material inédito e único. Há aqui textos e manuscritos de Nuno Crato, Mariano Gago, Manuel Vilaverde Cabral, Fernando Rosas, meus (não os identifiquei), ou de Hélder Costa. São pessoas que tiveram impacto nas artes, na literatura, no teatro, na política.

No dia 25 de Abril estava a transferir um copiógrafo para uma casa segura. Que jornais é que estava a imprimir nessa época?
Já não me lembro bem a que jornais esse copiógrafo estava adstrito. Nessa manhã estava com um camarada a fazer a transferência para um local mais seguro, porque estávamos nas vésperas do 1º de Maio, em que a PIDE fazia uma série de razias preventivas.

Houve um número elevado de publicações a que estive associado. Algumas eram reimpressões de publicações de carácter nacional, como era o caso da 'Unidade Popular' ou o 'Novo Militante', que eram do PCP(ML). Outras eram publicações do norte, associadas ao movimento estudantil. Havia também a revista teórica 'Que fazer?'. Não sei a qual esse copiógrafo estava associado, mas era a uma destas coisas.

Tendo esse lado autobiográfico por ter vivido estas experiências como militante do PCP(ML) – até na clandestinidade –, optou por um trabalho enciclopédico em vez de uma memória pessoal. Porquê?
São matérias que estudo há muito tempo: o movimento operário português, a história do PCP, e a história dos movimentos da extrema-esquerda. Já tinha publicado um volume sobre a cisão entre os russos e os chineses [O 'Um Dividiu-se em Dois']. Tenho recolhido uma quantidade considerável de informação e tentado salvar o maior número possível de papéis.

Vivi algumas destas circunstâncias, no caso da imprensa clandestina em toda a cadeia da produção: escrevi, ajudei a imprimir. Conhecia todo o processo, de preparar os stenceis, agrafar as folhas, embrulhá-las e distribuí-las, as vicissitudes da publicação, que eram muito complicadas. O método era rudimentar, mas era uma revolução em relação aos anteriores.

Acho que hoje ainda era capaz de montar e desmontar um copiógrafo de olhos fechados. Tenho uma nota no livro com uma referência a uma tipografia clandestina que ajudei a montar. Um camarada meu que teve um papel principal nessa montagem é hoje um distinto médico e que tinha uma grande aptidão para este tipo de trabalho muito aborrecido e trabalhoso, que exigia qualidades muito próprias.

Está a falar só do trabalho de impressão?
Não, de tudo. Alguns cabeçalhos são dele. Quanto ao cabeçalho, estou a falar da 'Luta' ou 'O Que Fazer'. Penso que o cabeçalho também era dele, e ele era muito meticuloso num aspecto muito importante que era a segurança das instalações. Uma tipografia clandestina tinha problemas para poder ser usado exaustivamente. Tenho ideia que chegávamos a trabalhar 48 horas de seguida, a imprimir a embrulhar, a distribuir.

Tinha feito uma caixa na tipografia e o copiógrafo funcionava lá dentro...
Tipografia é um nome exagerado: era uma sala, em que o copiógrafo ficava dentro de uma espécie de cabine telefónica feita com esferovite, mas era muito quente trabalhar no seu interior. As máquinas de escrever eram metidas dentro de caixas com uma tampa de vidro para que se pudesse escrever sem provocar ruído a qualquer hora do dia ou da noite. Depois as mãos entravam para o teclado, era como se estivéssemos a manipular material radioactivo... na altura era. Fazíamos isto para evitar que o barulho repetido denunciasse a actividade. O barulho repetitivo tinha de ser diminuído ao mínimo para se poderem usar as instalações 24 horas.

Da sua experiência, como procediam?
O papel era tirado das Associações de Estudantes e algum era comprado directamente. O papel nunca ia directamente para o sítio em que as coisas eram impressas. A pessoa “A” arranjava o papel, a pessoa “B” transportava e a pessoa “C” fazia chegar o papel à tipografia. Esses processos eram compartimentados. O número de pessoas que conheciam as instalações era diminuto.

Na UEC(ML) quantas pessoas sabiam?
Umas três, incluindo quem trabalhava na própria tipografia. Isto era a teoria, pois na prática as coisas não funcionavam assim, que eram um pouco mais laxistas. A teoria era que tinha de haver uma compartimentação.

Como é que se coordenavam as pessoas que escreviam com as que imprimiam e distribuíam?
Muitas vezes eram os mesmos que escreviam, imprimiam e distribuíam. Expressões como a existência de uma redacção, dá a ideia de uma organização que, em muitos casos, não existia. Nem sempre se cumpriam as regras de segurança como devia ser, porque não havia muito dinheiro. O número de pessoas era escasso, depois já na distribuição havia um número mais significativo.

Quais eram os cuidados a ter na distribuição, de que também fala no livro?
A distribuição de jornais era mais complicada que a de panfletos. Nos casos que conheço e a que faço referência, estamos a falar do interior do País, porque no exterior [no estrangeiro] era diferente. Se fosse uma publicação teórica, normalmente com mais páginas e menor tiragem, tentava-se que chegasse a pessoas que se pretendia recrutar ou influenciar. Nalguns casos ficava nas caixas do correio, ou era enviado pelo correio. Eram seleccionadas as pessoas que recebiam.

Outro tipo de publicações eram deixadas em certas zonas das faculdades, junto das cantina, às escondidas, e já havia uma cumplicidade e as pessoas passavam por lá e iam buscá-las. Em alguns casos, a distribuição era de noite nas zonas operárias, sobretudo na hora de mudança de turno.

Quando saía da zona dos jovens intelectuais dos vários grupos, as pessoas percebiam as pequenas diferenças de linguagem entre as publicações de inspiração diferente?
Não. Só nas vésperas do 25 de Abril, em que começa a haver um certo recrutamento de jovens operários, de cooperativas, sindicatos, escolas técnicas, com excepção desses sitos, a maioria das pessoas não percebia as diferenças. Mas nem toda a imprensa é do mesmo tipo, alguma imprensa é de pura agitação. Aí as diferenças não eram relevantes. Estamos a falar de um mundo de intelectuais e estudantes.

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