Política
Os silêncios de Mário Soares
01-12-2011
Por Patrícia Silva Alves e Vítor Matos
Mário Soares levanta-se cedo e escreve à mão. Maria José Ribeiro, a secretária, bate os textos no computador, que ele corrige duas e três vezes. Levou dois anos a produzir todas as manhãs este Ensaio Autobiográfico. Disciplinado, sentava-se a escrever no escritório do 4.º andar, numa casa que comprou para transformar em biblioteca, por cima do apartamento onde vive há mais de 50 anos; ou ficava em casa e espalhava livros e papelada pela mesa da sala de jantar, relembrando a sua vida por baixo de dois quadros de Vieira da Silva.
Por vezes, o aparato no meio da casa gerava uma guerra doméstica à hora de almoço, quando era forçado a arrumar o material para Olinda, a empregada, servir a refeição. Este Verão, na casa do Vau, no Algarve, escrevinhava o dia quase todo as 524 páginas com o título 'Mário Soares - Um Político Assume-se: Ensaio Autobiográfico, Político e Ideológico', lançado no dia 30 de Novembro.
Aos 87 anos, Soares confessou muito no livro, mas não assumiu tudo. A SÁBADO foi à procura dos silêncios de Soares e encontrou muitos: pouco, às vezes nada, é dito sobre os seus medos, erros e tácticas menos ortodoxas.
Por exemplo: quando chega do exílio a 28 de Abril de 1974, depois de discursar às massas em Santa Apolónia, Soares encontra-se com o Presidente António de Spínola na Cova da Moura. O episódio narrado no livro, porém, não inclui uma parte que António Campos recorda à SÁBADO. Uma atitude que não deixa de ser estranha num homem 12 vezes preso pela PIDE:
"O Spínola recebeu primeiro o Tito de Morais, que tinha andado com ele no Colégio Militar, e nós ficámos com o Soares à espera numa sala. Ele estava nervosíssimo e com medo de ficar lá preso."
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