Presidência da República
As guerras de Cavaco em Belém
22-01-2010
Por Vítor Matos
Aníbal Cavaco Silva ganhou a Presidência da República faz hoje quatro anos, quando ainda tinha como filosofia a cooperação estratégica com o Governo. Mas a relação com São Bento deteriorou-se tanto que um socialista muito próximo de Sócrates disse à SÁBADO que o clima é tão mau que o primeiro-ministro deixou de ver a candidatura de Manuel Alegre à Presidência como um drama.
O próprio Manuel Alegre até afirmou esta semana à SÁBADO que tem “divergências políticas” com Sócrates, “se calhar até maiores do que ele tem com Cavaco Silva em algumas áreas”, mas ressalva que mantém “relações cordiais” com o primeiro-ministro “e isso é muito importante em política”.
O factor cordialidade é que deixou de existir no relacionamento de Cavaco com Sócrates. A relação está agora reduzida ao puramente institucional. Há quatro anos, parecia perfeita. Nos primeiros tempos como Presidente, Cavaco elogiava o “espírito reformista” do Governo e apoiava em público as políticas da ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues. No fim de Janeiro de 2008, porém, quando foi remodelado o ministro da Saúde, Correia de Campos, o Presidente deixou de acreditar que os socialistas fossem capazes de levar as reformas mais difíceis até ao fim, explicou um conselheiro de Cavaco à SÁBADO.
Os vetos presidenciais nunca causaram mossa séria em São Bento até ao Verão de 2008, em que Cavaco Silva fez a primeira de duas comunicações ao País sobre o Estatuto dos Açores, que alterava poderes presidenciais através de legislação ordinária. Num dos seus discursos, chegou a ameaçar com a bomba atómica: “O precedente agora aberto abala o equilíbrio de poderes e afecta o normal funcionamento das instituições”.
A desconfiança mútua acentuada pela eleição de Manuela Ferreira Leite para a liderança do PSD deu lugar a uma guerra institucional antes das eleições legislativas de Setembro de 2009. É uma história de intrigas de ambos os lados. Primeiro, o Público fez uma manchete dizendo que Belém desconfiava que estava sob vigilância de São Bento. Nasceu o caso das escutas. Durante toda a pré-campanha, Cavaco não desautorizou as palavras do seu assessor. Até que, a meio da campanha eleitoral o Diário de Notícias revela que a fonte do Público era Fernando Lima, o mais próximo dos assessores do Presidente.
O drama atinge o auge depois das legislativas, quando Cavaco faz uma comunicação ao País acusando o PS de ter “ultrapassado os limites do tolerável e da decência”, mas segura o assessor. Duas horas depois do discurso presidencial, Pedro Silva Pereira, ministro da Presidência e dirigente do PS, faz lê na televisão uma dura resposta a Cavaco. As relações institucionais passaram a estar feridas de morte.
Apesar de ter caído para níveis de desaprovação históricos, uma sondagem da Aximage publicada no Correio da Manhã revela que se as eleições fossem hoje, Cavaco esmagaria Manuel Alegre: a sondagem dá-lhe 60,3% das intenções de voto, enquanto Alegre não ultrapassa os 39,7%.