Divórcio
O meu pai traiu a minha mãe
13-12-2011
Por Lucília Galha
Filipa descobriu que tinha irmãos no Facebook e Sofia apanhou o pai com a mãe de uma amiga. Duas histórias de traição contadas na primeira pessoa.
Filipa, 24 anos (estudante de tradução)
Não houve um momento ou uma data, mas lembro-me de que a certa altura isso se tornou claro para mim: o meu pai traía a minha mãe. Ele só vinha a Portugal duas vezes por ano porque trabalhava para uma multinacional no estrangeiro. Estava connosco um mês no Verão, outro no Natal. À noite, ouvia-o a falar na Internet com outras mulheres. Nunca vi nada incriminatório mas percebi que só podia ser isso. Aí pelos 15, 16 anos, tentei falar com a minha mãe, abrir-lhe os olhos, mas ela chateou-se comigo. “Independente de tudo ele é teu pai, não fales dele assim”, disse-me. Sempre quis proteger a família, foi criada com aquela mentalidade: uma mulher casa-se para a vida.
A prova concreta da traição do meu pai chegou há três anos, através do Facebook. O meu pai criou uma página e adicionou-me. Quando aceitei o convite descobri que tinha dois meios-irmãos com 9 anos. Fiquei completamente desorientada e desatei a chorar. Foram muitos anos de desconfiança mas, naquele momento, ver as duas crianças – que só podiam ser filhos dele porque eram a cara chapada do meu pai –, foi um choque.
Senti-me desiludida por o meu pai não ser quem eu pensava, não só em relação a mim mas, sobretudo, em relação à minha mãe. Ela merecia mais do que isto, é uma boa mãe e uma boa mulher. Sempre fez tudo para lhe agradar. Ver todos esses sacrifícios encheu-me de raiva mas depois veio a culpa. Culpo o meu pai por ter feito o que fez à minha mãe e nunca lhe ter dado a atenção que ela merecia. Até hoje, não se recompôs, ainda tem recaídas.
Não falei com ele porque achei que não fazia sentido. Se me adicionou como amiga no Facebook, tinha consciência de que mais cedo ou mais tarde descobriríamos a verdade.
Também não tive coragem de contar à minha mãe. Foi a minha tia que conversou com ela. Se isto foi um choque para mim que, de certa forma, já estava à espera, o que seria para ela? Reagiu bem, dentro dos possíveis. Quis saber os pormenores e ver as fotografias. Nessa altura, lembrou-se de coisas e juntou as peças – contou-me que por vezes, quando lhe ligava, ouvia um bebé a chorar.
Quando a empresa pediu ao meu pai que voltasse para Portugal, ele não aceitou. Deixou de vir e também de mandar dinheiro. Mas nunca nos disse abertamente que não ia regressar. Sempre foi cobarde, não gostava de confrontos nem de falar sobre as coisas.
A traição do meu pai afectou-me muito. Ganhei medo de que me aconteça a mesma coisa. Não fiquei rancorosa com todos os homens, mas tenho pavor se sinto que me estou a anular para beneficiar outra pessoa. Ironicamente, foi o que aconteceu no meu último relacionamento. Apaixonei-me por um homem com as mesmas características do meu pai e acabei por adoptar o comportamento da minha mãe. Percebi mais tarde, com a ajuda de uma terapeuta, que reflecti o que vi acontecer durante toda a minha vida.
O meu pai morreu no ano passado e só soubemos através da mãe dos meus meios-irmãos. Enviou-nos uma mensagem a dizer que precisava de falar connosco. Faz no dia 9 de Dezembro um ano e ainda estamos a fazer o luto. Foi muito triste porque o meu pai teve três famílias – soubemos pela embaixada que tinha mais um filho registado de outra mulher – e morreu sozinho. Esteve três dias morto em casa sem ninguém dar por ele. Por muita revolta que sinta, acho que ninguém merece morrer assim.
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