A hormona do amor no plano da troika
A ideia era simples de aplicar e devia constar do memorando da troika. Os actuais sacrifícios dos portugueses poderiam ter sido evitados se os políticos portugueses tivessem sido inoculados, desde há muitos anos, com um esguicho de oxitocina em cada narina, com reforços sucessivos e doses generosas se fossem para o Governo.
Os cientistas chamam-lhe a ”hormona do amor”, porque a sua presença no organismo aumenta 40% depois de um orgasmo, é responsável pelo prazer que os pais sentem ao pegar num bebé ou quando um casal de namorados se abraça. Mas não pense que o objectivo de injectar a hormona nos políticos era eles passarem a amar-nos perdidamente. Não: estamos a falar de dinheiro.
Um esgicho com a hormona oxitocina “torna as pessoas mais pacientes”, disse à revista Newsweek de há umas semanas Paul Zak, investigador na área da neuroeconomia da Claremont Gratuade University.
Durante uma experiência que realizou, as pessoas que recebiam uma dose extra de oxitocina tinham capacidade para lidar melhor com os mecanismos de recompensa e conseguiam adiar a gratificação no tempo para terem mais ganhos no futuro: as cobaias inoculadas com a hormona do amor preferiam receber 12 dólares mais tarde do que apenas 10 dólares no imediato.
Ora isto tem tudo a ver com política. O artigo de capa da Newsweek é sobre como o cérebro nos leva a gastar dinheiro e porque razão há pessoas com mais propensão a poupar para reforma.
Há os consumidores compulsivos, os gastadores, os viciados em crédito, e os que conseguem adiar o prazer de gastar hoje para terem um futuro mais prazenteiro. Os políticos são como os consumidores: procuram mais depressa a recompensa imediata do ciclo eleitoral do que uma aposta no futuro, que está para além da legislatura.
Cavaco Silva não resistiu a obras, mais betão e a inaugurações perto das legislativas; António Guterres não aproveitou os anos de desafogo para fazer uma política contracíclica, de modo a poupar nos anos bons para poder gastar nos maus; Durão Barroso dividiu o mandato em dois, os primeiros anos para apertar o cinto e os últimos dois para gastar, mas antes disso foi-se embora obter uma recompensa muito mais imediata em Bruxelas; José Sócrates foi o que se sabe, multiplicou Parceiras-Público-Privadas (PPP), fez disparar o endividamento do Estado, e empurrou os encargos para o futuro de modo a obter benefícios imediatos. Um pouco da hormona do amor não lhe teria feito mal.
É preciso “artilhar o cérebro para encontrar prazer nas recompensas futuras”, escreve a Newsweek. Hoje, esse ajustamento está a ser feito à bruta e com grande sacrifício dos portugueses. O problema é olhar para os próximos anos sem se percebe onde estará escondida a recompensa. Os cérebros que não pensam nas consequências de gastar, não se escondem apenas dentro dos crânios que olham para as montras dos centros comerciais.
Passam por Governos, Parlamentos e gabinetes. Não era preciso oxitocina, bastava ter havido alguma responsabilidade, mas achávamos todos que éramos ricos e que íamos ser ricos para sempre. Acabada a ilusão, somos obrigados a procurar algum prazer nas recompensas incertas de um futuro longínquo, mais pobres e sem hormona do amor.