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Freakpolitics

Vítor Matos

Jornalista

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Freakpolitics: Pusemos Cavaco no divã...


Aníbal Cavaco Silva costuma falar “dos políticos” como se fossem “os outros”, uma casta diferente da sua, a dos economistas, apesar do próprio estar na política activa há mais de 30 anos. O Presidente e recandidato a Belém, nunca diz o que pensa de José Sócrates, esse “político”, mas há uma maneira de descobrir.

Vamos usar a regressão, uma técnica central da psicanálise, para entrarmos no pensamento profundo de Cavaco Silva e descobrir a sua verdadeira opinião sobre o primeiro-ministro. Deitamos Cavaco no divã e vamos regredir até 1978: as perguntas deste texto são fictícias; mas as respostas são transcrições exactas de um texto escrito por Cavaco Silva nesse ano (quando nunca tinha exercido cargos políticos), com o título “Políticos, burocratas e economistas”, publicado na revista Economia, depois de ter participado num colóquio em Hamburgo.

José Sócrates tem sacrificado os interesses do País à táctica eleitoral?
“A ideia do político como criatura dedicada à prossecução dos interesses da sociedade como um todo é hoje considerada um mito pela generalidade dos economistas.”

Isso não faz sentido: todas as boas decisões para o País tomadas por Sócrates deviam render votos ao PS, não acha?
“O facto da permanência no poder (...) constituir o principal objectivo dos políticos poderia conduzir a que as decisões tomadas na base do seu interesse pessoal fossem também consistentes com a maximização do bem estar social. Contudo, as imperfeições do mercado político do mundo real fazem com que as divergências possam ser significativas”.

Como viu a campanha de 2009, em que Sócrates parece ter ocultado o valor do défice: dizia que era 5,6% e logo a seguir às eleições assumiu que era 8% e acabou em 9,3%?
“Um importante factor de imperfeição do mercado político reside na possibilidade que os políticos têm de controlar a informação que fornecem aos cidadãos sobre os custos e benefícios das diferentes alternativas, exagerando-os ou escondendo-os conforme o seu interesse pessoal”.

Qual a sua opinião sobre as Parcerias Público-Privadas?
“Os políticos tendem a favorecer as opções cujos benefícios se concentram no curto prazo e em que a maior parte dos custos são diferidos”

Então é isso que pensa do TVG, novo aeroporto de Lisboa ou dos novos hospitais?
“Quando os políticos realçam os verdadeiros benefícios produzidos por um projecto a cuja realização estão associados, procuram deixar na penumbra os custos suportados, assim como as alternativas que foram rejeitadas, porventura com maior benefício social líquido”

Na sua opinião, por que razão é que José Sócrates tem sido tão relutante em recuar nas grandes obras públicas?
“A imperfeita informação que caracteriza o mercado político faz ainda com que seja mais rentável para os políticos a apresentação de novos projectos e o lançamento de grandes obras públicas, o que certamente é publicitado pelos meios de comunicação social (...), do que promover a execução e administração eficiente de programas públicos, o que não atrai grandemente a atenção dos jornalistas”

Como é possível que os conselheiros do Governo e na administração pública ninguém se tenha preocupado com o crescimento da despesa?
“Os burocratas, não menos do que os políticos, procuram satisfazer os seus objectivos privados e não os da sociedade como um todo. (...) Os burocratas rejeitam os economistas, embora não o digam aos políticos, e actuam segundo os seus próprios objectivos, entre os quais se encontram, certamente, a detenção de formas de poder sobre outros grupos, promoção pessoal e maiores compensações materiais”

Porque é que o senhor está sempre a evidenciar o facto de ser economista?
“O economista que consegue evitar um só erros da administração pública terá beneficiado a colectividade em muito mais que a totalidade de recursos que consome durante toda a vida”

Não vai dizer que sente satisfação pelo facto de estar a acontecer aquilo para que avisou há anos: a insustentabilidade do crescimento do “monstro” da despesa pública...
“Face à ignorância a que políticos e burocratas têm votado muitas das recomendações da análise económica, os economistas têm retirado ultimamente algum conforto (ou mesmo vingança) do facto de várias medidas tomadas contrariando essas recomendações terem sido largamente criticadas ex-post, por se revelarem claramente inoperantes, ineficientes e anti-económicas”.

PS: É claro que também é muito divertido ler este texto à luz do que foi o Cavaco político como primeiro-ministro e agora como Presidente da República...


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