Queijos com vinho
As ideias feitas são muito má companhia para o vinho. Tão más que podem chegar a transformar um vinho decente numa qualquer zurrapa de pacote. E há más ideias sobre temperaturas, copos e combinações entre comida e vinho. De resto, esta última área é tão sensível que se já se inventou o conceito de maridagem. Hoje daremos pistas para desmontar o cliché de que os queijos se devem degustar exclusivamente com vinho tinto.
Regras à laia de decreto-lei não há. Fundamental é percebermos que na degustação dos dois produtos não se podem fazer combinações em que: a) um deles anule radicalmente o sabor e a textura do outro (um queijo fresco com um tinto alcoólico): b) um sabor já de si acentuado e forte seja potenciado com a participação de outro sabor na boca (um queijo de Nisa com tinto taninoso da Bairrada). Donde, fundamental é procurar equilíbrio das partes.
Peguemos, por exemplo, num queijo da ilha de São Jorge. Queijo picante, de sabor forte, medianamente salgado e seco. Dar-lhe por companhia um vinho tinto com estrutura, álcool e taninos robustos é má ideia. Combina pouco. Se não acredita, experimente acompanhá-lo com vinhos brancos. Quais? Vários. E todos com perfil diferente. Um Alvarinho Muros de Melgaço (vinho com corpo, fruta e acidez equilibrada); o Aneto (com doçura e gordura da casta Semillon); um Quinta dos Roques Encruzado (estrutura, corpo e notas minerais) ou, até, um espumante feito com 100 por cento Chardonnay (fresco mas untuoso).
Se o leitor está a torcer o nariz, nada como juntar os amigos à volta de uma tábua de queijos, pedir a cada um que arranje um das garrafas mencionadas, abrir as hostilidades e, depois, registar as conclusões. Mas para isso faz falta abertura de espírito – a melhor arma para combater a praga das ideias feitas.