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Dois novos itens para avaliar restaurantes

(sem insinuações sobre governantes ou jornalistas)

A vontade de escrever sobre certos comportamentos dos portugueses nos restaurantes já vem de longe mas, seja porque há sempre outro português a recomendar o eterno ‘deixa lá que não vale a pena’, seja porque não temos tido tempo para consultar as mais recentes investigações de Desmond Morris e de Edward O. Wilson, a coisa arrastou-se. E arrastou-se até ao dia (sábado passado) em que, num restaurante de Lisboa, tivemos que ouvir, durante meia hora e aos berros, uma cidadã a anunciar aos seus parceiros de mesa que a solução para a vida de uma amiga sentimentalmente de rastos - a Natália- seria “arranjar um amante”. E, naturalmente, um amante “jovem”.
 
(detalhe: eu apostava que a responsável pela chinfrineira teria entre 65 e 70 anos; quem me acompanhava, vítima de uma escolha de restaurante verdadeiramente infeliz, atirou para além dos 70...).
 
Ainda se lançou à senhora e aos seus acompanhantes olhares esbugalhados, mas, qual quê, sua excelência insistia em dissertar sobre as virtudes de um “certo grau traição” como garante da eternidade matrimonial. Pior ainda, com uma boa dose de vergonha, lá tivemos que deglutir a alta velocidade um arroz de choco e uma garoupa à marinheiro, com o braço no ar a pedir a conta (na circunstância, €65).
 
Este singelo episódio – cada vez mais frequente – leva-nos a reflectir sobre a necessidade de se criar dois novos itens de avaliação de restaurantes:
1º a taxa de ocupação infantil do espaço.
2º os níveis de decibéis registados e as distância entre mesas.
 
Das criancinhas  
É uma moda gira. Portugal, em matéria de tratamento de crianças, passou da rudeza do Antigo Regime para a ditadura das teses científicas dos pediatras – profetas que tudo sabem sobre os deuses de palmo e meio. Enquanto estas ideias se confinavam ao espaço familiar, a coisa passava, mas, de um momento para o outro, papás, mamãs e rebentos de todas as idades decidiram invadir o espaço público que é um restaurante e incomodar quem está lá a comer civilizadamente. Sim, porque havia a ideia de que um restaurante existia para servir comida. Coisa mais tacanha! Hoje, um restaurante pode funcionar como o prolongamento da vaidade de cauda dos progenitores. Exemplo: o Manel sai da sua cadeira para andar à volta da mesa a correr atrás da irmã Constança que entretanto já chegou ao fundo da sala e vai a mamã e diz: “Manel, sente-se, comporte-se, tenha modos”(coisas assim). Acontece que o Manel, espertalhaço e habituado à brincadeira, não pára. Era o que faltava. E a mamã volta a repetir a ordem, exactamente no mesmo tom, uma, duas, três e quatro vezes para que o traquinas se sente por vontade própria. Na verdade, a única coisa que a mamã e o papá do Manel querem é que metade do restaurante aprecie e comente a beleza e a genialidade do rebento. Isso da correria incomoda quem está a comer tranquilamente? Oh, por Deus! Que heresia. Afinal de contas, eles (os papás), pagam impostos, pagam a conta, têm os seus direitos (bem como as crianças, obviamente), lêem os estudos dos tais pediatras e estão habituados a ver outros papás com a prole nas páginas dos jornais a divertirem-se em restaurantes. Não são menos que ninguém.
 
Donde, talvez não fosse má ideia – antes de fazer a reserva - avaliar o grau de ocupação de crianças nos restaurantes, digamos que em percentagem da lotação.  
Dos decibéis e das mesas geminadas
Sem que se perceba bem as razões (lá está, a falta que faz as leituras dos textos de Desmond Morris e o Edward O. Wilson), um volume crescente de clientes tende a imaginar o restaurante como um mercado de peixe – é ver quem dá/berra mais. Não sei se me escapou alguma norma emanada desses manuais de boas maneiras que bom sucesso editorial fazem, mas parece-me que alguém vendeu a ideia de que é muito giro (giríssimo!!!!) reservar mesa num restaurante e, uma vez sentado, vociferar para as mesas do lado qualquer ideia que lhe ocorra, de preferência à mistura com risos e gargalhadas. Há restaurantes de beira de estrada, frequentados por camionistas, bem mais tranquilos do que alguns espaços muito na moda (mesmo às segundas-feiras após uma derrota do Benfica). Um tipo faz um esforço e volta a perguntar: quem impôs esta moda? Foi um personagem do Herman ? Foi o Major Loureiro? Foi uma telenovela ? Foi um freak de algum talk show? Foi um espanhol de Sevilha? Quem? Que algum entomólogo nos acuda.   
    
E se a falta de educação dos clientes não pode ser atribuída aos donos dos restaurantes, a gestão do espaço é da sua inteira responsabilidade. Noutros tempos, nas casas de referência não se ficava a dar cotoveladas ao desconhecido do lado, nem a encostar a barriga à mesa para dar passagem aos comensais que passam a encolher-se entre duas filas. Hoje, por razões de produtividade e mau gosto, come-se a ouvir as conversas do parceiro, que tanto pode ser um desconhecido (do mal o menos) como um superior hierárquico, o gerente bancário, o padre, um ministro e outros tipos indesejáveis. Puro granel. É por essas e por outras que se arranjam sarilhos políticos. Hoje a zaragata é com o primeiro-ministro e o Mário Crespo; antes tinha sido entre Sousa Franco e António Guterres, o tal primeiro-ministro de um Governo tão mau quanto o do tempo de D. Maria II. Vendo bem as coisas, a exiguidade do espaço dos restaurantes até dá jeito ao jornalismo...     

Donde, talvez não fosse má ideia - antes de fazer a reserva - indagar sobre o espaço que existe entre as mesas, em metros, por exemplo.

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