Colheita tardia
Na categoria de vinhos doces portugueses temos o Porto, o Moscatel, o Madeira, o Carcavelos, o Licoroso do Pico e até o Favaios do Douro. Nos últimos anos surgiu por cá, embora timidamente, uma nova categoria de vinho doce: os vinhos de Colheita Tardia. Tal designação vem do inglês late harvest, pelo que significa que as uvas que dão origem ao vinho são colhidas tardiamente, em Outubro.
A nível mundial, as categorias mais importantes de late harvest são o Sauternes (o mais afamado e feito em França), o Tokay (o mais antigo e feito na Hungria) e o Ice Wine, experiência recente e curiosa, visto tratar-se de um vinho canadiano e alemão que resulta de uvas colhidas em Janeiro, quando as temperaturas estão a menos 10 graus negativos.
O Sauternes e o Tokay (ou o Takaji) têm em comum o facto inusitado de serem feitos com uvas afectadas pelo fungo botrytis cinerea, popularmente conhecido por podridão nobre (por oposição à podridão cinzenta). E o que faz semelhante fungo? Entra pela película da uva, mirra o bago, retira-lhe a água e, em consequência, concentra os açúcares. Assim, uma vez fermentadas, as uvas produzirão vinhos doces, com bons níveis de açúcar, álcool e ácidos, necessários à vivacidade e evolução do vinho no tempo.
Porque em França (Sauternes) e na Hungria (Tokay) as manhãs são manhãs frescas e carregadas de neblinas, seguindo-se tardes e noites secas e frias, criam-se as condições ideais para o desenvolvimento da botrytis cinerea. E, agora, tome atenção. Como o fungo afecta os cachos a um ritmo lento e disperso, a apanha das uvas, em processo manual, é feita recolhendo apenas os bagos afectados (não se apanha o cacho). Nas grandes casas de Sauternes há cachos vindimados cinco ou seis vezes, sendo que as primeiras colheitas revelam qualidade acrescida. Por essas e por outras, vinhos Sauternes há que custam pequenas fortunas. Não é coisa rara ver uma garrafinha de chateau D´Yquem por 1500 euros. Aliás, esta é um marca referida nas obras de Proust ou de Dostoievksy. E, mais recentemente, por Hannibal Lecter, esse gourmet requintado.
Ora toda esta prosa serve de ponte para falarmos de dois vinhos de Colheita Tardia portugueses. Embora não tenhamos as mesmas condições que os húngaros e os franceses, a botrytis cinerea também aparece por cá em anos climaticamente favoráveis. No mercado haverá meia dúzia de marcas. Hoje falamos de um vinho criado em Trás-os-Montes por Dirk Niepoort (Colheita Tardia 2003) e outro feito por Nuno Cancela de Abreu no Ribatejo (Colheita Tardia, 2006). O primeiro tem um aroma delicado a flores de tília, mel, notas secas de flores e alguma fruta. Na boca entra com alguma vivacidade, revelando depois uma doçura nada enjoativa, muito equilibrado pelos ácidos. Custa 24 euros. O segundo revela mel, casca de laranja madura e notas de cogumelos, com a boca a destacar sabores provenientes da madeira. (Custa 11 euros). Estes vinhos, que devem ser apreciados a 10 graus, servem para acompanhar entradas (o clássico foie gras ou salmão) ou sobremesas com frutos secos. Contudo, estão abertos à imaginação de cada um.