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A Ventresca

A descoberta da ventresca está para o atum como os secretos para o porco, o porco preto claro está. Os secretos existem desde que se come porco, vai-se lá saber desde quando. Sucede que esta nobre e saborosa peça de carne (músculo com gordura interestícia e fazendo ligação entre a paleta e o lombo) só começou a ser popularmente conhecida aí há 10 ou 15 anos. Com a ventresca, a lenga-lenga é a mesma. Estes pequenos filetes gordos das barrigas dos atuns sempre existiram e a captura de tunídeos no país até tem a tradição, mas a sua comercialização a partir de peixes capturados nos nossos mares é que é mesmo novidade. E logo, de rajada, com duas marcas: a Corretora (ilha de S.Miguel) e a Santa Catarina (ilha de S. Jorge).
 
É tal a riqueza de gosto destes filetes que bem se pode dizer que uma coisa é o atum, outra a ventresca. Por ser uma peça gorda, tem uma textura cremosa, macia, delicada e riquíssima de sabor. Já vimos gente que não gosta de atum a pelar-se por ventresca. Não obstante todos os atuns terem barriga, aquela que é mais apreciada é a proveniente da espécie Patudo, bichos de grande porte e força que podem ultrapassar os 2 metros e os 250 quilos. Em média, estes valores ficam-se pela metade. Note-se que o Patudo é tão gostoso que os japoneses – conhecedores do assunto como ninguém - pagam fortunas por ele, desde que capturado e sangrado segundo as regras deles.
 
E mais. Uma latinha de conserva de ventresca espanhola ou italiana custa, no mínimo, 6 euros, e pode mesmo chegar aos 10 ou 12 euros. Quanto às marcas açorianas, a Corretora custa €3,50 e a Santa Catarina €2,50. Em conversa com um dos responsáveis da Corretora ficamos a saber duas coisas: uma boa e outra má. A boa é que a empresa vai continuar a apostar nesta pequena gourmandise, assim as águas correntes marítimas do arquipélago permitam boas capturas do fugidio Patudo; a má é que o actual preço está relativamente desfasado do que deveria ser o seu valor de mercado para uma peça rara e distinta. Quer dizer, está barato. Eu, por via das dúvidas, e como bom português, vou ali passar pelo El Corte Inglês e abastecer-me de umas quantas latinhas antes que o editor do site da Sábado meta esta peça on-line. E não vale a pena acusarem-me de inside trading porque toda a ventresca que conseguir açambarcar será para consumo da família e amigos.  

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