Eu, idiota, me confesso
A inveja é uma coisa feia. Foi assim que aprendi a não desejar o que não me fosse atribuído por direito e/ou mérito. E foi também assim que me consegui enganar ao acreditar que aquilo que sentia quando praguejava contra a sorte alheia era só um desabafo inofensivo contra a minha falta da mesma. Com o tempo percebi que não, que era inveja pura e dura e que isso, que é senão uma azia sentimental agudíssima, era uma coisa muito pouco nobre de se sentir.
Mas como eu, pessoalmente, nunca aspirei ao sangue-azul, acolhi a minha limitação o melhor que pude. Não sem antes me ter massacrado com um ou outro episódio de vergonha: começou com a Barbie princesa da vizinha aos sete anos e prolongou-se até à fase adulta com a Bimby. A minha inveja, que é só minha, não afecta ninguém em particular, não é direccionada a nenhum utilizador da Bimby, antes a todos os que têm uma em casa.
Futilidades!, dirá o leitor. E eu até assino por baixo, mas vendo bem as coisas, a tendência é querer e invejar aquilo a que ainda não se conseguiu deitar a mão porque o resto, o que importa mesmo, que para mim (orgulhosamente) são a família e os amigos, não entram neste campeonato. Não se inveja ninguém porque tem um amigo mais bem educado, ou mais boémio, ou mais inteligente do que nós. E a família, já se sabe, não se escolhe, pelo que o assunto nunca será para aqui chamado. A inveja é palpável e estupidamente material.
E sim, gostava de fazer parte do grupo de pessoas que conseguem levar a vida sem nunca projectar comparações idiotas, sem nunca querer para si, só de vez em quando, aquela restiazinha de sorte que premeia sempre a pessoa ao lado. Por isso mesmo, eu, idiota, me confesso.