Esta podia ser a melhor crónica do mundo, mas é só o melhor que sei fazer
Andamos todos com a mania de que temos de ser os melhores. Não só naquilo em que somos realmente bons, mas em tudo. Como se “ser o melhor” fosse condição essencial e eliminatória para se ser de facto alguém. E a pressão é tanta que acabamos por querer ser os melhores em coisas que não nos dizem respeito, como por exemplo a fazer sushi. Porque não saber fazer sushi está para a culinária como os blogs para a escrita. Se se vive da escrita e, por galo, não se tem uma plataforma de divulgação com pelo menos 3 anos de actividade, não se é ninguém de que valha a pena falar. Perdeu-se a oportunidade de se ser alguma coisa dignificante e é nessa altura que sabemos (julgamos) chegada a hora de nos despedirmos do sonho de mudar o mundo antes dos 30.
Numa altura em que dedicamos tanto tempo à construção de uma personagem que, pensamos nós, nos vai tornar inesquecíveis, o que acaba por acontecer é sermos mecanicamente transformados em sugadores de criatividade alheia.
Queremos saber fazer sushi porque os nosso amigos sabem e até foram ao Japão tirar um curso sobre como brasear salmão. Queremos ter um blogue porque é o que faz toda a gente que acha que tem alguma coisa a dizer. Quer-se ter uma casa retro-moderna porque as casas retro-modernas mandam uma pinta do caraças e são indicadoras de um sentido estético apuradíssimo que resulta na combinação perfeita e infalível de um móvel rústico do século XVII com uma cadeira de acrílico Philippe Starck. Sonha-se com um guarda-roupa a rebentar pelas costuras de coisas giras, porque sem coisas giras nós próprios não saberíamos ser assim tão giros. Porque a nossa forma de estar e ser, por muito adorável que seja, não chega para garantir o efeito.
Quer-se tanto ser estas coisas todas que, pelo caminho, acabamos por deixar passar o facto de que, afinal, odiamos sushi; que não somos autores de um blog porque não teríamos o que partilhar; que preferimos os móveis do Ikea às peças de antiquário; que até nem gostamos por aí além da moda que nos impõem. E pior: chegamos à fase em que assimilamos de forma tão cega as modinhas sociais, que ficamos convencidos de que por não sermos os melhores em coisa alguma, é porque não somos bons em nada.
E eu tenho cá para mim que não temos de ser os melhores do mundo. Basta-nos, à nossa maneira, sermos o melhor que conseguirmos.