100 Papas na Língua: Ilustre crónica. Quem ler, saberá
A partir de hoje a última quarta de cada mês é ilustre.
Quer saber porquê?
Carla, apresenta-te!
“Viver não é necessário;
o que é necessário é criar.”
“Dizia Fernando Pessoa, eu não diria tanto. Diria mais que a minha vida é a derradeira obra de arte e a inspiração é tudo o que tenho.
Crio por necessidade, por terapia, porque é assim desde sempre e não vejo outra forma de (sobre)vivência. Desde sempre o lápis de cera, a aguarela, depois o carvão, a (tranquilidade da) pintura a óleo, a rapidez do acrílico e a excentricidade da instalação.
Mas a dependência, o companheiro de todos os dias, são os diários gráficos. O manual “de bons costumes”, de registos mentais do que os olhos vêem e o coração sente. Podem ser cadernos de grande ou de pequeno formato, preenchidos a caneta fina ou grossa, a cores ou a preto e branco, dependendo do dia, porque tal como um diário de adolescente todos os dias são bons para registar e para os maus serve de terapia. O hábito do diário gráfico, apura a memória, aguça o interesse e o conhecimento dos sítios e dos locais.
Desenha-se directamente a caneta, no local, desenho mais ou menos rápido, porque a partir daí a imaginação é o limite.
Dêem-me uma caneta e um caderno e ponham-me à espera, não me importo, mas se for muito tempo, tragam-me também as aguarelas e um cafezinho.”
Descobri a Carla Pinto Silveira noutras andanças profissionais, mas encontrei no seu hobbie a cor que faltava. A partir de hoje, as últimas quartas-feiras de cada mês são acompanhadas de ilustração.
Para mim é óptimo, finalmente encontrei uma pessoa que não se importa que me atrase para jantar. Sei que nem vai notar…
SEA ME
Aqui chega o peixe que vem do mar,
mas nem por isso o som da maresia,
vi que tem um conceito giro,
mas és sem dúvida, menos do que esperaria.
E sem querer faço uma quadra e consigo resumir o facto de ter sido sentada como se pertencesse a uma tripulação (calculo que seja de propósito a disposição do restaurante), saliento as cadeiras inspiradas num caixote e as menos ergonómicas onde me sentei, originais, mas não para fazer serão portanto, se quer jantar e ficar na conversa não é de todo o sítio certo, a menos que goste de saber a vida alheia sem perguntar.
Depois de sentadas, somos literalmente levadas a consumir um mojito, maravilhoso, sem dúvida. Os empregados têm a lição de marketing na ponta da língua. A escolha é que foi mais difícil, não pela diversidade mas pela forma como está estruturada.
“ Para começar ou para continuar” é assim que estão apresentadas as entradas. No entanto, pelo preço de certeza que as doses são generosas e por precaução é melhor não pedir mais nada, pensei eu…
Adorei os dois tentáculos de choco frito (5,50€) mais as 3 folhas de alface com uma tira de abacate e três batatinhas a murro (3,00€) - sem dúvida divinal. Percebi num instante o porquê do nome “Para começar ou para continuar”: começamos por aqui e continuamos com fome.
Nesta mesma carta procuro por outra bebida (o mojito estava no fim), mas estranho, não encontro as bebidas. Com tanto peixe e com tanta forma de conjugar pedidos, não encontrei as diferentes bebidas. Se têm uma carta específica, não sei. Sei é que à nossa mesa não chegou nada, nem mesmo depois de pedir. Para terminar experimentou-se sushi (6 peças 13€). O bolo de chocolate (5,00€) tem três tipos de textura - sem dúvida excelente mas confesso que pedi uma caixinha para levar o que sobrou, à quarta garfada foi caso para dizer: “Amor és tão doce que enjoas, e amanhã também é dia.”
A reter: preço médio 25€/ 30€, prima pela frescura e qualidade, o atendimento é lento e o glamour de peixaria moderna ao lado, bem como a beleza da montra, escondem o ambiente de cantina e o barulho que se concentra no interior.
Serei a prova viva de que “há mar e mar, há ir e voltar” (por quase tudo).