O Expresso dos Malditos
- Para finalizar, disse a directora de turma, gostava de ouvir a opinião do delegado de turma. Como ouviste, todos os professores notam uma atitude incorrecta no teu colega que não existia no ano passado. Existe alguma coisa que nos queiras dizer para nos ajudar neste caso?
- Sim, disse o delegado da turma do oitavo ano. O meu colega disse-me uma coisa, que acho que ele tenciona que seja do conhecimento dos professores. Ele é atormentado por alunos mais velhos desde o quinto ano. Eles até chegam a queimá-lo com cigarros. E disse-me que começa a sentir necessidade de fazer a outros o que lhe fizeram a ele.
Os professores fitaram o delegado de turma.
- Porque é que ele nunca disse nada?, perguntou a directora de turma. Todos nós teríamos feito os possíveis para travar a situação.
E indicou com um gesto o colectivo que formava o Conselho de Turma.
- Ele tinha vergonha, disse o delegado de turma, e não queria que ninguém soubesse. Só falou agora porque está preocupado.
- Preocupado com o sentir vontade de fazer a outros o que lhe fazem a ele…, disse o professor de História.
- Sim, confirmou o delegado de turma.
O delegado de turma foi dispensado e a reunião continuou.
- E agora, disse o professor de História, o que fazemos?
- Não podemos deixar que a situação alastre a outros, disse a directora de turma. O facto deste aluno já ter sofrido abusos, é grave.
- Não percebo porque é que ele nunca disse nada...
- Devia sentir vergonha, acanhamento...
- O ideal, propôs um professor, era enviá-lo para os serviços de psicologia da escola. Pelo menos, para uma avaliação do que pode ainda ser feito por ele.
- Neste momento não temos ninguém nos serviços de psicologia, informou a directora de turma. A psicóloga está de licença de parto e não foi substituida até agora.
- Ah, claro, eu esqueci-me. Já há muitos gastos com a Educação, é necessário cortes no supérfluo e etc, imagino eu. Bom, então, o que fazemos?
- Eu falo com ele, disse a directora de turma.
E assim fez.
- Já falei com ele, disse a directora de turma aos colegas, no segundo intervalo da manhã do segundo dia seguinte à reunião.
- E?
- Ele diz que mentiu ao delegado, que só queria chamar a atenção do colega e que inventou. Tudo.
- Mas não parece ter sido invenção! A história era coerente.
- Eu acho, disse a directora de turma, que desde que ele disse ao colega que sentia vontade de fazer aos outros o que lhe fizeram, tomou uma decisão e não foi no sentido ideal.
- E o que fazemos?
- Encaminhamos para os serviços de psicologia, para uma avaliação exaustiva, assim que chegar a psicóloga. E, sobretudo, estamos muito atentos. A ele e aos outros.