Como controlar a revolta depois de um passado problemático
- Este aluno apresenta um passado problemático, explicou a psicóloga aos professores. A mãe fugiu de casa. O pai lidou com a situação, fechando os miúdos num quarto, por vezes sem luz, durante bastante tempo. Meses, creio eu, até os familiares descobrirem. Ele foi entregue aos tios. Devido aos graves problemas psicológicos que tem, está sob forte medicação.
- Que idade tem?
- Tem dezasseis anos.
- Dezasseis anos e ainda no oitavo ano?!....
- Não pensem que ele não sente isso, disse o director de turma. A frustração morde-o por dentro. E depois, há os problemas disciplinares, uns atrás dos outros.
- Ele porta-se mal?
- Ele tem dificuldades em controlar-se. Os tios apelam a que, pelo menos, ele consiga acabar a escolaridade obrigatória.
O director fez uma pequena pausa e continuou.
- Reparem que não estou a dizer que tudo deve ser perdoado mas ele pode ser encaminhado. O orgulho dele funciona a nosso favor. No ano passado, quando ele estava a descontrolar-se, eu dizia-lhe baixinho: Ajuda-me, olha que os outros seguem o teu exemplo. E funcionava.
A professora respirou fundo. Considerando a medicação que lhe roía o fígado, o aluno podia ter feito pior. Mas existiam mais duas dezenas de alunos atentos à sua reacção. Porque ele tinha sido mesmo malcriado. E agora tinha de optar. Se disciplinasse demasiado, ganhava a turma e perdia o aluno. Se fosse contemporizadora, podia perder ambos.
- Sabes, se eu não tivesse em consideração todas as circunstâncias, punha-te na rua imediatamente. Mas acredito que isto não vai acontecer outra vez e que vais controlar-te.
- Peço desculpa, disse o aluno, não me dei conta de que fui incorrecto.
- Eu sei que não, disse a professora, e sei também que não vai voltar a acontecer.
O assunto ficou encerrado. Passou tempo. Era a aula de entrega de testes. O aluno sorriu com a nota de 51%, a sua primeira positiva, e olhou para a professora.
- Eu tenho-me controlado melhor, a setora tem reparado?
- Quero dizer-te que acho que és extraordinário! Se eu tivesse passado pelo que tu passaste, não acredito que conseguisse estudar e dominar-me como tu te dominas. Deves pensar sempre em ti como um vencedor.
- A minha mãe, a minha mãe verdadeira, não a minha tia, diz-me sempre que eu não sou nada e nunca farei nada.
- A tua mãe é estúpida, não te conhece e não tem o direito de te dizer isso.
A professora ficou a pensar no que tinha feito. Abordara o passado dele e além disso, como é óbvio, nunca se diz que uma mãe é estúpida na cara de um filho. Não se faz uma coisa dessas.
- Sabe, setora, eles perguntaram lá fora o que é que se tinha passado comigo, disse o aluno na aula a seguir. Mas eu não respondi. É um assunto meu e não têm nada de se meter na conversa que a setora teve comigo.
E mais que tudo, a expressão do aluno convenceu-a de que ia ficar tudo bem. Porque há males que só são vencidos quando já não são dignos de se falar.