Crónica: Os dirigentes incendiários
Não devem existir muitos dirigentes no futebol português com pior sentido de timing do que Paulo Pereira Cristóvão. No momento em que alguns adeptos do Sporting tentavam pegar fogo ao Estádio da Luz, o «vice» leonino aproveitou para falar em «condições pré-históricas» na forma como os leões foram recebidos. Quando um jornalista da TSF o confrontou com o que se estava a passar dentro do estádio, Cristóvão ainda fez pior: «Estou aqui consigo. Não estou lá dentro, por isso não sei o que se passa.» E minimizou totalmente o assunto, como se atear um fogo fosse uma brincadeirinha sem importância.
Já se sabe que infelicidade puxa infelicidade e o Benfica não demorou muito tempo a soltar o seu perito em ataques verbais de mau gosto. João Gabriel, director de comunicação dos encarnados, desceu à sala de conferência de imprensa para criticar a intervenção de Cristóvão e começou por falar bem até que resolveu puxar o assunto do fosso de Alvalade. Os adeptos do Sporting que caíram ao fosso não merecem ser envolvidos em discussões taberneiras e totalmente laterais a este jogo. Da mesma forma que não se deve julgar o Sporting com base em meia dúzia de marginais que gostam de fogueiras. Mas aqueles que deviam dar o exemplo são os primeiros a encher-nos os ouvidos de barbaridades…
A triste troca de palavras poderá agora originar um corte de relações entre Benfica e Sporting. O mesmo deverá acontecer contra a vontade de muitos dos dirigentes dos próprios clubes. Nestas politiquices da bola, contudo, ambos os lados começam a perceber que poderá ser a única solução para manterem coerência com as posições tomadas no pós-jogo.
Luís Filipe Vieira e Godinho Lopes estão a embarcar nesta cantiga, mas podiam fazer bem melhor. O ideal seria marcarem um almoço regado a bom tinto e resolverem este diferendo com a classe que faltou a Cristóvão e Gabriel.
Quanto a estes dois, e outros parecidos, a resolução também era simples. A Liga devia aproveitar a ideia do Benfica e criar uma caixa de protecção unicamente destinada a dirigentes. Os jogos acabavam, eles ficavam ali até acalmar a parvoíce e depois podiam ser soltos. Tanto pode servir para os duelos entre Benfica e Sporting, como para as guerras entre FC Porto e TVI. Talvez dessa forma, o jornalista Valdemar Duarte conseguisse sair do Dragão sem ser agredido pelos capangas de Pinto da Costa.
Já há demasiados delinquentes que usam o futebol para soltar os seus ímpetos de violência. Não precisam de ser estimulados pelos dirigentes dos seus próprios clubes. Assim, ficariam todos na jaula. Sem direito a isqueiros…