Ficaram imortalizados pelas expressões “que pena”, “era lindo”, “merecia melhor sorte” ou “foi quase”. Estes são os remates que não entraram para tristeza de todos os adeptos do futebol bonito. São as obras de arte que afinal não chegaram a ser. Aqui ficam cinco dos melhores “quase golos de sempre”.
João Vieira Pinto. Portugal vs. Alemanha. Apuramento para o Mundial de 1998
Se esta lista fosse elaborada por um adepto inglês, espanhol ou italiano, o nome de João Vieira Pinto não aparecia. Mas como o cronista de serviço é português, e teve a dor de ver este momento ao vivo e a cores, não podia deixar de abrir com a selecção nacional na altura em que, efectivamente, éramos os verdadeiros campeões do quase. Estávamos numa noite fria no Estádio da Luz. Portugal defrontava a poderosa Alemanha, então campeã europeia em título depois da conquista do Euro ´96. Ganhar o jogo era fundamental, mas a equipa das quinas simplesmente não estava a ser capaz de ultrapassar a muralha germânica. Foi então que, perto do fim, João Pinto arrancou num “slalom” louco, deixou para trás a melhor defesa do mundo e rematou. O estádio levantou-se em êxtase, pronto para elevar o seu número 8 à condição de génio universal, mas o guardião Kopke (maldito sejas!) afastou para canto. Que dor não ter entrado. Que depressão. Que momento tão bonito, recordado aqui com a narração do incomparável Gabriel Alves.
“Diego, devias ter fintado o guarda-redes.” A frase pertence ao irmão de Maradona na sequência de um falhanço frente à Inglaterra, num jogo amigável de 1980, em que o “El Pibe” passou por meia equipa britânica e atirou ao lado. O mundo ainda não sabia que aquele insucesso servia apenas de ensaio para o melhor golo de todos os tempos, marcado seis anos depois no México. Maradona voltou a pegar na bola longe da baliza e ultrapassou todos os defesas ingleses, relegados à condição de obstáculos menores no caminho que separa o homem mortal da glória eterna. Quando chegou frente ao guarda-redes, fez o que lhe disse o irmão. E em vez de mais um falhanço épico, o mundo do futebol também passava a ter a sua Nona Sinfonia. O nosso obrigado ao irmão de Diego.
Pelé. Brasil vs. Uruguai. Mundial do México (1970)
Comemorou 70 anos no passado sábado e marcou 1283 golos pela selecção brasileira. Dá vontade de dizer que este devia ter sido um deles: engana o guarda-redes com uma simulação, vai buscar a bola ao outro lado e atira a rasar o poste. Hoje parece um movimento comum. Pode ser visto um pouco por todo o lado e muitos daqueles que o fazem nem sempre são especialmente habilidosos. Mas para ser tentado, copiado, melhorado ou piorado, foi preciso que alguém se lembrasse de levar esta dose de fantasia e habilidade para dentro de um campo de futebol. É impossível saber se Pelé inventou este movimento ou se viu outros jogadores fazê-lo e tentou pôr em prática. Mas é justo afirmar que, seja qual for a origem, esta simulação ficará para sempre associada ao nome do “rei”. Assim como muitos outros truques de pura magia futebolística.
Franck Ribéry. Bayern Munique vs. Juventus. Liga dos Campeões (2009)
“Teve um excelente pormenor a passar pelo meio dos defesas que valeu o preço do bilhete. Depois ficou frente-a-frente comigo e, em vez de atirar por baixo, tentou marcar o golo do século, mas como sou alto, ele teve de picar muito a bola e esta passou por cima da barra.” O guarda-redes da Juventus, Gianluigi Buffon, explicou da melhor maneira o lance em que Ribéry perdeu a oportunidade de fazer um golo extra-terreno. Quando a bola saiu por cima da baliza, o extremo francês ficou em estado de choque, consciente de que tinha estragado um dos maiores best-sellers do mundo por causa de um último capítulo exagerado. Buffon percebeu, deu-lhe os parabéns e sorriu. Parece que até ele teve pena de não sofrer aquele golo.
Zinedine Zidane. Real Madrid vs. Valladolid. Liga Espanhola (2003/04)
Esta é daqueles que, ainda agora, dá vontade de pôr a mão em frente ao ecrã do YouTube para ver se conseguimos baixar a bola em direcção à baliza. É uma jogada brilhante por parte de todos os intervenientes. Nenhum deles podia fazer melhor até ao último toque de Zidane. Puro clímax de estética de conjunto. Começa em Gutti, que tira dois adversários do caminho e faz um passe diagonal para Ronaldo. O “Fenómeno”, hoje mais conhecido por “Gordo”, recebeu com classe e serviu Zidane. Este driblou um defesa com a sua famosa rotação 360 graus, fintou o guarda-redes e picou a bola para ficar a vê-la subir leve, levemente, até passar… por cima da trave. “Zizou” caiu e levou as mãos à cara enquanto o comentador dizia a única coisa possível num momento como este: “Que pena.”