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Carreira de Ronaldo: Da vírgula ao ponto final (vídeo)


Apareceu para dizer adeus. Quilos a mais, olhos molhados e voz trémula. Tristeza entrecortada, aqui e ali, por um sorriso de moleque que nunca o abandonou. O mundo sabia agora que não ia ver mais vírgulas nem nenhum outro dos seus dribles. Aquela conferência de imprensa era o ponto final. A última dança de um vencedor.

Foi numa segunda-feira de bossa nova.
Foi numa segunda-feira de fado.

Ronaldo Luís Nazário de Lima. Fenómeno. Um dos melhores avançados de sempre. Potência, velocidade, técnica e precisão. Mas também sofrimento, resistência, perseverança e regresso. Tantas vezes caiu, outras tantas se ergueu… até que não deu mais. “Tenho de assumir algumas derrotas e eu perdi para o meu corpo”, disse na despedida. Uma frase que nunca pensámos ouvir quando o víamos a jogar pelo Barcelona. Era o tempo em que apenas nos sentávamos no sofá e esperávamos por maravilhas: “O que irá ele fazer hoje? Quantos adversários vai deixar para trás? Quantos pontapés conseguirá sofrer sem cair? Quantos golos vai marcar?”

Para um miúdo daquela época, os arranques de Ronaldo eram uma espécie de guerra do bem contra o mal. Do homem que queria assinar uma obra-prima contra todos os que queriam destruir essa beleza. E ele parecia invencível. Inquebrável. Eterno. Era impensável conceber um final como este. Ronaldo jamais iria perder velocidade, jamais iria deixar de marcar golos e o seu corpo nunca iria ceder à pancada, aos excessos e à cruel ditadura do tempo. Mas esse momento chegou. E ninguém ficou surpreendido. O passar dos anos indicava este desfecho.

Foi numa segunda-feira de recordações.
Foi numa segunda-feira de agradecimento.

Um dia vai acontecer com Cristiano (o nosso Ronaldo) e com Messi (o nosso Maradona). Aqueles que agora parecem imunes às falhas e defeitos da condição humana, irão perder qualidades até não ser possível continuar. Eles, como ele, vão passar de atletas quase perfeitos a homens incapazes de repetir as glórias do passado. Quando esse momento chegar, fica a lembrança que nenhuma segunda-feira deste mundo pode apagar. Como agora. Navego pelo YouTube sem som. Para não estragar o violão de Toquinho, a poesia de Vinicius e os dribles do Fenómeno. Uma fusão deliciosa com o mesmo sentimento das palavras de Ronaldo, quando lhe pediram para fazer um balanço da carreira.

Foi lindo demais.
Foi maravilhoso demais.


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