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O suicídio político


A frase:
“O suicídio político que o Presidente da República tem em mente é o suicídio político do líder do Partido Socialista, porque qualquer acordo [de salvação nacional] implicaria que o Partido Socialista renunciasse ao que tem dito nos últimos anos.”

O autor:
João Galamba, deputado do Partido Socialista, durante um almoço-debate realizado a 16 de Julho no American Club

A análise:
A ala socrática agita-se. Está nervosa, trepidante. Foi apanhada na curva pelo súbito abandono de Cavaco Silva do estado de hibernação. De um momento para o outro, o maior dos seus pesadelos – ver António José Seguro confortavelmente instalado em São Bento – parece mais real do que nunca. Não é preciso ser tão incrivelmente culto e inteligente como João Galamba para fazer uma conta simples: com a antecipação do calendário eleitoral prometida por Cavaco em caso de Acordo de Salvação Nacional entre PSD, CDS e PS, só uma bomba atómica estrategicamente lançada sobre a residência do Primeiro-ministro impedirá Seguro de cumprir o seu sonho de juventude.

João Galamba tem múltiplas habilidades. Não consta que uma delas seja fabricar artefactos explosivos, mas compensa a falha com a capacidade para ser bombástico quando fala. E ultimamente tem sido especialmente contundente relativamente à possibilidade de Seguro se entender com o PSD. Galamba sabe que falar de suicídios em política é manifestamente exagerado – uma vez mais, não é preciso ser tão extraordinariamente culto como o deputado socialista para saber que a História está recheada de talentosos suicidas que nunca chegaram a morrer – mas, nesta fase dos acontecimentos, abdicar de encostar Seguro às cordas seria uma declaração de impotência que não é capaz de assumir.

Nas suas intervenções bélicas, Galamba, como Sócrates, Soares ou Alegre, cansa-nos com a enunciação dos seus elevadíssimos princípios – os da esquerda pura, que alegadamente compõem o património genético do PS. Cansa-nos porque repete um equívoco que só distrai os cronicamente distraídos. O PS não é um partido ideológico – nunca foi. Não é de esquerda nem de direita. É uma estrutura de poder. Uma máquina que não pensa; que está unicamente programada para conquistar votos. O PCP e o Bloco de Esquerda são partidos de princípios – quase todos obtusos, é certo, mas alicerçados num quadro ideológico sólido. O PS, o PSD e, já agora, o CDS, são estruturas gélidas e pragmáticas – e é por isso que só por ignorância ou oportunismo a acção política dos seus líderes pode ser analisada à luz do mesmo quadro mental utilizado para avaliar os partidos de Jerónimo de Sousa ou João Semedo.

À falta de princípios, Seguro acrescenta a ausência de coragem. Quando Ferro Rodrigues abandonou, o então deputado foi incapaz de avançar contra José Sócrates – apesar de o desejar ardentemente. Posteriormente, aos dislates da governação socrática respondeu sempre com um silêncio cúmplice. Dentro do seu partido tem-se preocupado muito mais em agradar os seus inimigos – com António Costa, Francisco Assis e José Sócrates à cabeça - do que em enfrentá-los com a força das suas convicções. E na qualidade de candidato a Primeiro-Ministro tem perdido mais tempo a fingir que está morto do que a afirmar a sua alternativa. Seguro é um labirinto em que estamos condenados a entrar. E nem o desespero de Galamba e de outros como ele o evitará – seja já ou em Julho de 2014.

O veredicto:
João Galamba confundiu os seus desejos com a realidade. 


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