Crónica: Música dos meus ouvidos
Não me lembro da primeira música. Mas acredito que tenha nascido com alguém a cantar.
Pelo menos aprendi a nadar com uma música sobre um pirata. Disso lembro-me. Pelo meio houve uma música sobre uma barata com os pés peludos e muitos paus atirados ao gato. No banho geralmente Caetano Veloso pela voz do meu pai.
A seguir a isto uma indefinição musical gigante e a memória salta para o banco de trás do carro, para as cassetes de onda choque e para a gritaria do meu irmão para ouvirmos outra coisa qualquer. Tudo menos a música da menina.
Eu não ouvia nada, cantava sem medos sobre o rei lá do liceu, e outras letras sem correspondência emocional, facto que em nada interferia com o empenho com que eram cantadas. Tinha inclusivamente um rádio Sony vermelho que servia não só para ouvir as cassetes, como para gravações absolutamente constrangedoras.
Daqui às músicas em inglês foi um pulinho, desde que as palavras tivessem o mesmo som valia tudo. Fins-de-semana na expectativa de ver o Top+, a televisão por satélite com os canais internacionais de música, os videoclips censurados pelo meu irmão que aumentavam exponencialmente a minha vontade de os ver. A loja da Valentim de Carvalho no Amoreiras e o crédito de um cd por semana. Os tops da rádio. Os “Nows” e as mixtapes que gravávamos. Todas as musicas tinham uma coreografia e eram apresentadas nos corredores da escola nos intervalos.
E assim fui parar ao mini-chuva de estrelas lá da terra, felizmente disto não há registo. Éramos tantos a participar que a cassete da câmara de filmar dos meus pais acabou pouco depois de eu entrar em palco com a minha parceira. Na altura fiquei incrivelmente espantada. Hoje fico só agradecida.
Depois houve a música associada aos momentos mais importantes da adolescência. Os rapazes que tocavam guitarra e que nos deixavam de queixo caído. As vozes roucas e desafinadas. Os cds de mp3 que trocávamos, as músicas que circulavam vertiginosamente rápido pela internet. As visitas de estudo com o leitor de cds e uma catrefada de pilhas.
Houve o tempo das aulas de piano – sem sucesso. E das aulas de canto – sem sucesso também. O empenho nunca terá sido o suficiente.
Passaporte carimbado para concertos, festivais de verão, óperas e musicais. Ainda hoje um prazer assumido. O confronto directo com os intérpretes. A proximidade por vezes tão longínqua que se instala numa sala de espectáculos. “Para não ver nada, mais valia ter ficado em casa a ouvir o álbum.” Mas isto é só uma frase que sai da boca para fora. No fundo não é isso que sinto.
Se me perguntam pela banda, música, álbum ou concerto favorito a resposta é simples. Não consigo escolher. Nem sequer um estilo.
A única coisa que sei é que o silencio não é música para os meus ouvidos.
Por isso a partir de hoje e sempre à segunda-feira encontrarão aqui histórias, factos e comentários sempre com base em música. Aceitam-se obviamente opiniões e sugestões. E sendo este um espaço de partilha sem grandes regras ou limites não se admirem se desfilar por aqui música pimba e música rock. É que música é música. E o melhor de tudo é sermos livres para trocar o disco sempre que nos apetecer.