O terror do ESGOTADO
Os rumores já se ouviam, mas não quis acreditar para não ficar de novo desiludida.
A verdade é que há já vários anos que recebo um sms a dizer: “Acho que o Stevie Wonder vem actuar a Portugal.” Depois disto um longo silêncio, e nunca a confirmação.
Desta vez foi diferente, é oficial! Um dos meus maiores ídolos vem actuar a Lisboa. Não me importa que não seja nas condições que sonhei. O que importa é que vai acontecer. Assim que tudo se tornou oficial não perdi mais do que dez minutos até ter o bilhete na mão. E não, até ver o dia do evento ainda não está esgotado!
Aconteceu o mesmo no dia em que os bilhetes para o concerto de regresso - e despedida - dos Ornatos Violeta, foram postos à venda.
Levantei-me cedo, tomei um duche e o pequeno-almoço e desci a rua alegremente com a certeza de que iria garantir o meu lugar. E garanti. Podia tê-lo feito pela Internet, mais rápido e imediato, mas quis-me dar ao luxo do ritual.
E de facto é um luxo. Cada vez mais os espectáculos esgotam a um ritmo alucinante e a uma distância considerável. O que é maravilhoso para o promotor, para o artista e para quem tem lugar na assistência, mas angustiante para quem não chegou a tempo.
Desde pequena que vou a concertos, e na minha adolescência nunca me foi vedada a possibilidade de assistir a espectáculos por parte dos meus pais. Mas lembro-me que a grande maioria dos meus amigos não podia ir a concertos e culpava a entidade paternal pela frustração e pela angústia de não fazer parte de momentos tão especiais.
Mas quando se trata de desleixo, a culpa será sempre nossa, porque deixámos o tempo passar, porque achámos que não ia esgotar, e a frustração reflecte-se sempre em nós mesmos. Não há volta a dar.
Aconteceu-me a mim quando a Amy Winehouse actuou em Lisboa, e apesar do lamentável concerto, não consegui em momento algum parar de pensar que devia ter comprado o bilhete. Confesso que cheguei a desejar secretamente que o concerto não acontecesse como tanto se especulou, só para aliviar a culpa de ter deixado esgotar, de não ter comprado o bilhete a tempo, com a convicção de que tudo se resolveria, quando nada se resolveu.
É também a experiência profissional e o ter de lidar algumas vezes com a angústia de potenciais espectadores que se deparam com a placa “ESGOTADO” numa bilheteira, que se prontificam a mundos e fundos por um lugar que não podemos inventar, por muito boa vontade que tenhamos, mas que é sempre conjugada com a impossibilidade dos limites que nos são impostos, que me faz compreender que urge chegar a tempo e horas aquilo que queremos. Mesmo que esse tempo e essa hora nos pareçam demasiado distantes.
Afinal de contas as coisas porque ansiamos parecem sempre longe no tempo, mas temos de as agarrar enquanto estão lá para nós.