28 OUTUBRO 2011 - 00.11h
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Política
A construção de um projecto com a dimensão do Europeu foi resultado de circunstâncias muito particulares que transformaram o Velho Continente num espaço incomparavelmente mais seguro, mais agradável para o quotidiano dos seus cidadãos e economicamente mais próspero, do que anteriormente existia. A Europa que sai do pós-guerra é um continente exausto e desgastado por dois conflitos mundiais em apenas meio século.
Do Tratado de Paris (1951) caminhou-se no sentido de uma integração económica que teria como finalidade última a paz. A arquitectura de um projecto desta dimensão requereu um empenhamento e disponibilidade por parte dos seus fundadores e dos demais líderes de então que não teve paralelo em nenhuma outra fase do processo de integração.
A Europa pacificadora e próspera tornou-se rapidamente numa casa de vícios burocráticos, de cedências e preferências em razão do peso e da dimensão dos Estados-Membros, enfim, numa amálgama que cresceu demasiado sem que sedimentasse devidamente nos novos cidadãos europeus uma consciência de comunidade, logo de cidadania europeia comum. Numa casa em que os grandes desde logo fizeram sentir o peso do seu pé sobre a pequena cabeça dos mais rasteiros.
Ora, apesar de todos os benefícios que resultaram da construção contínua do projecto, está ainda por conquistar os cidadãos para um conceito difuso do que se pretende que seja a cidadania europeia. Mas esta dificuldade é e será tanto maior quanto maior for a incapacidade dos líderes Nacionais justificarem a pertinência de um projecto político comum que vá além de meros conselhos europeus (como o desta 4ª feira) onde o que está em causa é, no fundo, garantir a perpetuação de um sistema financeiro que tem sufocado a classe média europeia e que, nalguns Estados já a levou à extinção.
Esta semana no Reino Unido voltou a falar-se na eventualidade de um referendo que coloque a questão da sua continuidade no projecto europeu. Não tenho a menor dúvida que se a incompetência gritante da actual liderança europeia permitir que se realize o primeiro referendo deste teor, nos restantes países os “tais” cidadãos europeus levantar-se-ão a pedir uma oportunidade para se expressarem. Não que a ideia não faça sentido, porque faz. Avaliar a pertença a um projecto é algo que todos deveríamos fazer. Mas quando o projecto está na sua fase mais crítica colocar uma questão de vida ou morte é apostar na sua extinção e assumir a sua irrelevância na solução dos problemas dos povos da Europa.
Mas essa incapacidade é eminentemente resultado de más decisões de maus líderes, de gente que está rendida a um sistema que os financia e suporta. De gente que precisa dos vícios e da burocracia da máquina europeia para perpetuar a sua influência. E assim, perante a falta de visão estratégica de quem tem governado a Europa, o projecto vai-se afundando num poço de nulidade sem retorno. E no momento antes de bater no fundo, os líderes serão suficientemente leais com os mercados e ignorarão a existência de um povo, que um dia se pensou que poderia ser comum.
Rui Estevão Alexandre
26 OUTUBRO 2011 - 14.46h
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Política
The Age of Extremes. Feito o devido downgrade, o título da obra de Eric Hobsbawm é suficientemene adulterável para descrever aquele que foi o momento fundador da blogosfera portuguesa. Mais, descreve a natureza da blogosfera política que lhe sucedeu e que acabaria por perdurar até há bem pouco tempo. A aparição de uma blogosfera portuguesa, resolutamente marcada pela direita intelectual e provocatória que se corporizou na coluna infame, foi de molde a definir o debate político em termos diversos da demais esfera pública.
O facto é que os dados inicialmente lançados impuseram lógicas de radicalismo e afinidade ideológica que longamente definiriam os termos do jogo. Além dessa direita intelectual, decididamente à direita do PSD, fosse pela irreverência e pelo culto do politicamente incorrecto, fosse pela afirmação de um conteúdo ideológico orgulhosamente de direita, a blogosfera tornar-se-ia também o habitat de um certo liberalismo que se reivindica subsisidiário de Friedrich Hayek e Isaiah Berlim (seria difícil noemar todos os blogs que se destacaram nesta linha). Escusado será dizer que este liberalismo não tinha então qualquer correlato significativo na vida partidária indígena (só muito mais tarde Passos Coelho ensaiaria uma tradução política).
Como resposta, haveria de surgir uma blogosfera ideológica à esquerda do PS, conotada sobretudo com o Bloco de esquerda, que se mostrou capaz de afirmar uma agenda vincadamente de esquerda recorrendo aos usos da ironia e do cinismo, marcas de estilo que a direita influentemente havia cultivado. Parece-me lícito afirmar esta esquerda ideológica surge na blogosfera como uma réplica vagamente simétrica da direita que então dominava. Esta vaga de esquerda -- com corolário no
Blog de Esquerda e no
Barnabé -- viria também a ser grandemente definida e impulsionada, no seu "radicalismo oposicionista", tanto pela oposição à governação Barroso/Santana Lopes, como pela constestação à guerra do Iraque -- estávamos numa altura em que a política internacional aparecia como uma dimensão decisiva na demarcação política (voltaria a acontecer com a guerra do Líbano).
Assim se forjou uma era em que o debate político ia sendo fortemente alimentado pelas franjas do espectro político e em que a discussão vivia de questões marcadamente ideológicas. Pois bem,
essa era acabou.
Hoje a blogosfera é um reflexo fiel da esfera pública portuguesa: o debate ideológico foi largamente substituído pelas questões pragmáticas do governo da república e a crítica tendencialmente indiscriminada deu lugar aos rigores da lealdade partidária. De facto, não haveria forma de olharmos para o
Jamais ou para o
Simplex senão como sintomas cintilantes de uma nova era, uma era em que os partidos do centro político reclamam na blogosfera o protagonismo que lhes é devido no mundo real. Enumerando as causas desta transformação, poderíamos dizer que resulta de uma crescente densificação de transações entre a blogosfera e o mundo exterior, que resulta da institucionalização de algumas vozes sob a morna respeitabilidade dos
media tradicionais, que resulta de uma conjuntura em que a política internacional não fomenta fracturas ideológicas de maior, que resulta de um clima pré-eleitoral que favorece um calibrar das relações de poder, que resulta, enfim, do magnetismo de um centro político que assim revela a extensão da sua hegemonia.
Publicado originalmente em
Avatares de um Desejo
Bruno Sena Martins
17 OUTUBRO 2011 - 14.14h
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Política
Perigo: que os 12 de Março e os 15 de Outubro se tornem em rituais de anti-estrutura que, qual vazadouro de indignação, ajudem a perpetuar a estrutura.
Esperança: que a politização interior dos manifestantes em cíclica procissão ajude a incandescer a indignação revolucionária nas gerações pós-revolucionárias.
Bruno Sena Martins
17 OUTUBRO 2011 - 00.19h
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Política
Sábado os Indignados voltaram a sair à rua. Desta vez em menor número do que em Março mas, ainda assim, em Lisboa e no Porto juntou-se gente suficiente para fazer com que o PM marcasse uma saída até Leiria para se juntar aos seus autarcas e esperar que estes o bajulassem o suficiente para voltar revigorado a Massamá.
Objectivamente, nesta versão mundial da “Geração à Rasca” estiveram cerca de metade dos que se manifestaram em Março. A manifestação foi menos festiva e estruturou-se num ambiente mais revolucionário. Faltou o brilho e o charme da burguesia brasonada que em Março festejou (por antecipação) a queda do Socratismo. E faltou porque por grande que seja o sapo para já há que engoli-lo.
Mas a manifestação, que em todo o mundo teve como alvo principal o tal 1% de gente que através da especulação bolsista, das agências de notação financeira e genericamente da banca, tem agudizado fortemente as consequências desta crise, em Portugal centrou-se exclusivamente na classe política. Não apenas neste Governo ou primeiro-ministro, mas de uma forma geral na classe que ao longo dos anos tem sido responsável por uma gestão absolutamente danosa dos recursos públicos.
Não quer isto dizer que de Badajoz para cá o problema tenha deixado de ser financeiro, de todo! Mas a interpretação que o comum dos mortais portugueses faz da situação económica que vivemos está intimamente ligada à impunidade que graça sobre os políticos, de antes e de depois de Abril. E por isso, por grande que seja a responsabilidade da banca, por maiores que sejam os seus lucros e por mais alheados que nos pareçam os seus patrões, em Portugal a face da crise financeira e económica é a dos políticos. Os outros navegam na sombra!
Rui Estevão Alexandre
1 OUTUBRO 2011 - 11.22h
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Política
Isto de andar ao sabor das brisas provocadas pelo voltar das páginas dos jornais já começa a ser demais. Se há estratégia no facto de ser o Ministro das Finanças a anunciar o que aí vem para doer devo dizer que está a resultar. Se o conteúdo fere, a forma fede! Mas pior é a falta de decoro deste Governo que, antes das eleições de Junho “exigiu” saber o estado das contas públicas, para além da presença da troika e das suas receitas de cartilha liberal e agora vem dizer que só negociará o programa de reajustamento orçamental da Madeira com o Governo que sair das próximas eleições. Onde está o critério da paridade? Então e os Madeirenses não têm o mesmo direito de votar em plena consciência?
Parece-me que com o andar das coisas o PM deverá começar uma nova edição das “conversas em família” para ir acalmando os portugueses ou depressa terá de lidar com o regresso dos ideais!
Rui Estevão Alexandre