Havia um governo que prometia a modernidade e deixou uma insolvência, confessada num acordo com a tríade/troika/triunvirato.
Há um governo que garantia que estávamos em insolvência e que era necessário o acordo mas que, chegando ao poder, vai afirmando a conta-gotas que a insolvência era, afinal, uma grande insolvência.
Há uma oposição cujo maior partido renova uma liderança, mantendo a velharia da antiga, que se abstém com uma violência tal que é a única aleijada no processo.
Há uma outra oposição, mais pequena, aguerrida e discursivamente coerente, que já parece ter saudades do que dizia ser mau e já parece tomar como esquerda o que antes gritava ser direita. Pior, chegou a anunciar ou a apresentar moções de censura mas agora acusa quem terá votado para derrubar o governo que diziam querer derrubar, mas afinal talvez não.
Temos ainda um grupo de malta que protesta e acena com uns exemplos externos escolhidos selectivamente (um pouco como os que querem tudo como está fazem) sem demonstrarem o que foi conseguido de concreto (ou sem explicarem que a Islândia tem uma população inferior ao concelho de Sintra).
Temos nos tribunais, ou fugindo pelos meandros do sistema, um número apreciável de figurões do regime que começou a sugar os fundos europeus em proveito próprio, deixando o país entregue a si mesmo, sendo que o principal responsável de altura agora parece baralhado e desdizer o que dissse e dizer o que nunca disse. E temos em lista de espera um grupo de outros que já deveria ter chegado à barra dos tribunais mas que, em vez disso, ainda se passeia pelo parlamento.
Temos nas finanças uma banca que é liberal apenas quando especula, querendo protecção quando falha o cálculo dos riscos, mas uma protecção sem contrapartidas e sem conselhos (ler aqui). Isto para não falar na banca formal ou informalmente falida que está à venda em Angola (não chegava o BPN, agora também o BCP, como se lê no caderno de economia do Expresso).
Temos uma economia em que os que apontaram os serviços, os eventos efémeros e a inovação como a via da salvação, agora clamam pelo regresso à terra e ao cultivo das cebolas e limões (ler aqui), ao mar, enquanto uns aprendizes de economistas recomendam que os inovadores qualificados emigrem.
Temos um punhado de governantes que da realidade concreta conhece os gráficos e tabelas e um amontoado de assessores que acha que governar um país é o mesmo que dizer uma graças nos blogues.
Temos uma população que, em grande parte, sabe que abusou um bocadinho da sorte quando comprou o jipe ou o audi com o crédito à habitação, pensando que podia viver à europeia.
Temos uma crescente população-lumpen que, longe das tertúlias jornalísticas, blogosféricas ou cosmopolitas, já está e vai pagar de forma duríssima esta crise. Aqueles a quem querem reduzir os apoios sociais e que são equacionados como variável menor na fórmula macroeconómica.
Estamos tramados é o que é.