Você está em: Homepage / Blogues / Blogue de Esquerda
Alterar tamanho de letra

30 NOVEMBRO 2011 - 23.35h

A TDT

Categoria - Política

A partir de Janeiro do próximo ano a emissão do sinal de televisão deixará de ser analógico para passar a digital – aquele que timidamente se tem vindo a apresentar nas nossas televisões como TDT ou Televisão Digital Terrestre, através de momentos informativos de utilidade nula, protagonizados por figuras públicas que se deviam envergonhar pelo papel a que se prestam.

Se do ponto de vista tecnológico este passo parece constituir um avanço incalculável na forma de ver e apreciar as emissões dos nossos canais de televisão, representando um acréscimo de qualidade que honestamente não consigo quantificar ou qualificar, no que respeita à garantia de prestação de um serviço público de televisão a TDT será a cápsula de cianeto que a fará deixar de respirar.

Não sei das mais-valias que levaram à tomada de uma decisão tão irracional, não sei dos custos ou da viabilidade de manter os dois sistemas em simultâneo. Não sei nem me interessa. Mas compreendo que para governantes para quem as pessoas deixam de ser cidadãos para ser meros números, um serviço público que visa chegar a um número reduzido de cidadãos deixa de fazer sentido. Para uma lógica governativa que encara o Estado como um actor rendido às regras do mercado faz todo o sentido acabar com os serviços públicos cuja finalidade não é chegar a massas. Porque estas não mudam nada.

O negócio da televisão ganhou ultimamente dimensão sobretudo na vertente da distribuição, entregue a operadores privados. Ora, para estes, distribuir sinal de televisão não se trata de garantir nenhum tipo de serviço público, mas sim de fazer negócio com a finalidade de criar mais-valias. Portanto, o que começou por ser uma opção – contratualizar serviços de televisão - passa agora a ser uma obrigação para grande parte daqueles que até agora mantiveram as antenas nos telhados das suas casas.

Este problema, que praticamente não se coloca nos centros urbanos, ganha dimensão nas zonas rurais. Isto porque há zonas do interior do país onde o sinal recebido é de tal modo deficiente que o aparelho que converte o sinal analógico em digital não terá nenhuma utilidade. Logo, a única solução passa por contratualizar serviços pagos de televisão. Mas mesmo nos casos mais simples, onde o sinal recebido é suficiente para ser convertido em digital, subsiste o custo do aparelho que se somará a tantas outras dificuldades imprimidas por outras decisões políticas de semelhante qualidade.

Todos estes parágrafos resumem-se no seguinte: a partir do início do próximo ano milhares de famílias do interior terão de fazer um investimento elevado se quiserem continuar a ver os quatro canais supostamente de sinal aberto. Aqueles que não puderem dispor-se a este investimento e os outros que ainda que o possam deixarão de receber sinal de televisão (o que acontece em grande parte do concelho de Mértola, por exemplo) deixarão de ter acesso a notícias e outros programas de informação e entretenimento, considerados serviço público.

Portugal que a priori teria tudo para não ter interior está cada vez mais a apostar numa diferenciação da população por via do isolamento. Limitar o acesso ao serviço de televisão é mais um passo neste sentido.



Rui Estevão Alexandre

O recente Conselho do Partido Socialista Europeu (PES) foi um tremendo sucesso. Não só pelas mais de 2000 pessoas, personalidades, líderes políticos ou activistas que passaram pelo ‘Le Square’, envolvendo-se nas dezenas de workshops e nas actividades do plenário, mas essencialmente pelos documentos políticos aprovados pela família socialista, social-democrata (no sentido europeu) e trabalhista europeia.

Destes destacamos, para além da declaração geral do Conselho de Bruxelas de 2011, a Declaração de Princípios do Partido Socialista Europeu e a resolução que apresenta as linhas gerais do processo eleitoral aberto, democrático e competitivo para a escolha do candidato do PES a Presidente da Comissão Europeia em 2014 por se apresentarem ‘revolucionárias’ e marcarem um antes e depois na história da construção europeia e do seu sistema de partidos.

Até agora, os Partidos Políticos europeus não eram mais que uma amálgama dispersa de partidos nacionais, agregados por interesses fluidos, pouco homogéneos e desligados ideologicamente. É verdade que, dentro do sistema partidário europeu, o PES tem-se destacado pela sua maior coerência e articulação política conjunta – em especial quando actuante no espaço do Parlamento Europeu – mas a recente aprovação da Declaração de Princípios e a resolução sobre a escolha de um candidato comum a 2014 colocam-no num outro patamar.

A declaração de Princípios por dotar o PES de um corpo ideológico partilhado, possibilitando aos cidadãos e cidadãs europeias saberem, abertamente, quais os valores e os princípios políticos base com que se regem os socialistas no espaço europeu.

Já a resolução que vincula a escolha do candidato do PES ao lugar de Presidente da Comissão Europeia em 2014 ilustra o processo de maturação democrático e inclusivo vivido no seio do PES nos últimos anos. Para 2014 – e futuras eleições europeias – não só os socialistas apresentaram um candidato único, como ele será escolhido de forma democrática, transparente e participativa, num processo interno competitivo que envolverá militantes de base, dirigentes, activistas e cidadãos.

Nunca um partido de âmbito europeu tinha ousado avançar com tais passos, quer no que respeita à sua definição ideológica como na decisão de envolver as suas estruturas nos seus processos de decisão e selecção de candidatos. Por isto este Conselho foi revolucionário. Por isto representa um antes e depois.  Por isto os socialistas se encontram, hoje, mais capacitados para representarem os interesses dos cidadãos e cidadãs europeias, e não somente as vontades das suas oligarquias instaladas e do poder bancário e financeiro (como alguns dos partidos de direita).

Da minha parte, espero sinceramente que estas declarações não sejam vãs, e que se operacionalizem de forma concreta, possibilitando a construção de uma alternativa política viável, inclusiva e participada que nos permita abandonar o conjunto de políticas neo-ultra-pos-liberais hoje colocadas em acção pela ‘Comissão Barroso’.  Cabe-nos agora a nós fazermos parte deste processo, exigir a execução destas declações e lutarmos para mudar a face da Europa e da nossa contemporaneidade.



José Reis Santos

O Conselho do Partido Socialista Europeu acaba de anunciar o novo presidente (interino): Sergei Stanishev, ex-Primeiro Ministro Bulgaro. Liderará o PES até ao próximo Congresso (este electivo) do Partido Socialista Europeu a se realizar em Setembro de 2012 em Bucareste, Roménia. 

Aqui a página wiki do novo lider dos socialistas europeus. 



José Reis Santos

Entre hoje e sábado realiza-se em Bruxelas o Conselho do Partido Socialista Europeu e a Convenção Progressista do Partido Socialista Europeu, onde estarei como delegado e activista. Procurarei, na medida do possível, escrever sobre as principais decisões tomadas nestes dias pela família socialista europeia.

Hoje realiza-se o Conselho, onde serão aprovadas algumas declarações políticas e apresentado o líder interino dos socialistas europeus, e sexta e sábado realizar-se-á a Convenção Progressista, onde mais de uma centena de workshops tratarão os temas promovidos pela Re:New, debate online que nos últimos meses proporcionou uma interessantíssima troca de ideias sobre quatro temas centrais: ‘Active Democracy’, ‘ Equal Societies’, ‘a Just World’ e ‘A Fair Economy’. 

Todos estes trabalhos poderão ser seguidos online no site do PES aqui.



José Reis Santos

20 NOVEMBRO 2011 - 17.51h

Retalhos da Vida num País Suave

Categoria - Política

Havia um governo que prometia a modernidade e deixou uma insolvência, confessada num acordo com a tríade/troika/triunvirato.

Há um governo que garantia que estávamos em insolvência e que era necessário o acordo mas que, chegando ao poder, vai afirmando a conta-gotas que a insolvência era, afinal, uma grande insolvência.

Há uma oposição cujo maior partido renova uma liderança, mantendo a velharia da antiga, que se abstém com uma violência tal que é a única aleijada no processo.

Há uma outra oposição, mais pequena, aguerrida e discursivamente coerente, que já parece ter saudades do que dizia ser mau e já parece tomar como esquerda o que antes gritava ser direita. Pior, chegou a anunciar ou a apresentar moções de censura mas agora acusa quem terá votado para derrubar o governo que diziam querer derrubar, mas afinal talvez não.

Temos ainda um grupo de malta que protesta e acena com uns exemplos externos escolhidos selectivamente (um pouco como os que querem tudo como está fazem) sem demonstrarem o que foi conseguido de concreto (ou sem explicarem que a Islândia tem uma população inferior ao concelho de Sintra).

Temos nos tribunais, ou fugindo pelos meandros do sistema, um número apreciável de figurões do regime que começou a sugar os fundos europeus em proveito próprio, deixando o país entregue a si mesmo, sendo que o principal responsável de altura agora parece baralhado e desdizer o que dissse e dizer o que nunca disse. E temos em lista de espera um grupo de outros que já deveria ter chegado à barra dos tribunais mas que, em vez disso, ainda se passeia pelo parlamento.

Temos nas finanças uma banca que é liberal apenas quando especula, querendo protecção quando falha o cálculo dos riscos, mas uma protecção sem contrapartidas e sem conselhos (ler aqui). Isto para não falar na banca formal ou informalmente falida que está à venda em Angola (não chegava o BPN, agora também o BCP, como se lê no caderno de economia do Expresso).

Temos uma economia em que os que apontaram os serviços, os eventos efémeros e a inovação como a via da salvação, agora clamam pelo regresso à terra e ao cultivo das cebolas e limões (ler aqui), ao mar, enquanto uns aprendizes de economistas recomendam que os inovadores qualificados emigrem.

Temos um punhado de governantes que da realidade concreta conhece os gráficos e tabelas e um amontoado de assessores que acha que governar um país é o mesmo que dizer uma graças nos blogues.

Temos uma população que, em grande parte, sabe que abusou um bocadinho da sorte quando comprou o jipe ou o audi com o crédito à habitação, pensando que podia viver à europeia.

Temos uma crescente população-lumpen que, longe das tertúlias jornalísticas, blogosféricas ou cosmopolitas, já está e vai pagar de forma duríssima esta crise. Aqueles a quem querem reduzir os apoios sociais e que são equacionados como variável menor na fórmula macroeconómica.

Estamos tramados é o que é.




Paulo Guinote

18 NOVEMBRO 2011 - 12.06h

Os riscos de maturidade da nossa democracia

Categoria - Política

Nos últimos 40 anos muito dos nossos destinos individuais foi determinado por cumplicidades informais, mais ou menos legítimas, e muito para além do nosso conhecimento. Ex-colegas de faculdade (e há 40 anos não eram muitos), ex-colegas de clandestinidade, ex-colegas de movimentos reaccionários e revolucionários, contraditórios entre si (as juventudes partidárias de então), familiares mais ou menos amigos, concorrentes de heranças e fortunas, irmãos de irmandades identificados com grandíssimos princípios e sem traficância, foram todos moldando a sociedade à sua imagem e semelhança.

Muito pouco resultou da vontade democrática e legítima. E muito do que resultou dessa vontade democrática e legítima agravou défices e dívida.

As tensões actuais da sociedade portuguesa (e apenas naquilo que é nacional, filtrando a torrente internacional) tem muito a ver com uma transição geracional para gente com novas legitimidades e merecedoras de desconfiança. Ou porque não pertencem a nenhuma das categorias referidas acima ou porque nem sequer são filhos de membros das ditas categorias dominantes da sociedade portuguesa. Isso provoca medo, insegurança e desconfiança. Os protagonistas que têm sido dominantes, e que nalguns casos conseguem prolongar essa dominância com os seus filhos, assegurando-lhes formação e percurso profissional imune à crítica da normalidade (porque eles próprios conceptualizam e determinam o que é normal e portanto banal), vêm-se cercados por novos protagonistas não filiados. Em filiações que interessem, que eles conheçam, que controlem, mais ou menos conscientemente.

Estamos no meio da ponte: pessoalidade endogeneizada versus impessoalidade legítima.

O passo em frente para consolidar a nossa democracia, para que seja verdadeira democracia, é algo que deve romper com a pessoalidade endogeneizada na sociedade e induzida pela dominância. O reforço das instituições com a sua imunização às rotações de pessoas, a formalização de comportamentos que assegurem verdadeira igualdade de oportunidades de acesso, a destruição de critérios informais ocultos sob aparente credibilidade através da denúncia são essenciais para uma nova fase da democracia representativa. A verdade e a transparência são instrumentos essências dessa evolução. Sem moralismos nem generalizações e calúnias.



João Ribeiro

18 NOVEMBRO 2011 - 00.09h

É burro que dói!

Categoria - Política

Por momentos sustive a respiração. Tentei perceber do que se tratava. De um estudo científico, de uma reportagem de uma brincadeira?

O propósito daquele vídeo assustador é promover a leitura da reportagem que, por sinal, está mais bem documentada que o vídeo, concluí de imediato. Porém, o propósito da reportagem é provar algo que não pode ser provado de modo tão simplista. Ainda assim, o trabalho das duas jornalistas da Sábado tem um fundo tão relevante quanto preocupante - o nível de formação cultural dos universitários de Lisboa é mau.

Podíamos recuar no tempo para ir em busca da génese de tanta ignorância. Podemos colocar a culpa nos políticos, nos professores e no sistema educativo. Os dois primeiros cairiam rapidamente por terra. Maus políticos temo-los por toda a Europa e professores bons e maus certamente que também. Talvez o problema se centre no sistema educativo. O elevado grau de especialização que é exigido aos estudantes faz com que estes se centrem exclusivamente na sua área de estudo e eliminem qualquer contacto com áreas de estudo mais distantes. Mas este argumento não justifica a gritante falta de cultura geral daqueles jovens. Não saber quem pintou o tecto da Capela Sistina ou o nome do presidente da comissão europeia ou dos EUA atinge um tal grau de ignorância que deveria constituir crime público.

Apesar de se tratar de um trabalho pouco sério do ponto de vista científico (limite que não pretendia de todo alcançar) parece-me que deve servir de base para que se perceba que tipo de geração se está a criar com o actual sistema educativo. Por outro prisma, parece-me que esta geração (que é também a minha) precisa de conhecer o limite crítico da sua ignorância. Precisa que alguém lhe faça ver que o bom aluno de física quântica ou de biologia molecular afinal é um perfeito ignorante. Esta geração precisa de perceber porque razão ler e escrever para além dos SMS constitui um factor distintivo na sociedade actual. Ler e escrever são a base do conhecimento.

Não sei os contornos de preparação da reportagem, nem o modo como foram escolhidos e abordados os entrevistados. Não sei como seleccionaram as perguntas nem as respostas. Não sei se os autores daquelas respostas absurdas responderam correctamente a todas as outras. Só sei que a ignorância que fizeram transparecer me envergonhou.

Com aquelas respostas provaram que o investimento que o Estado fez neles não serviu de muito. Se ao menos o desemprego servisse para os novos Drs. e Engs.º se instruírem!



Rui Estevão Alexandre

17 NOVEMBRO 2011 - 19.51h

O colarinho de Duarte Lima

Categoria - Política

 A impunidade dos crimes de regime (tráfico de influências e especulação financeira) é uma questão de classe tanto quanto de deferência aos que ocuparam o poder. Duarte Lima pôde se preso porque a reputação do seu colarinho branco foi matizada com gotas de sangue. Sem esse 'dégradée, desconfiamos, nada feito.



Bruno Sena Martins

16 NOVEMBRO 2011 - 16.40h

Paulo Bento e o Esplendor de Portugal

Categoria - Política

 

Perante os boatos de que Ricardo Carvalho poderá estar a atravessar uma depressão pelo alto preço do erro que cometeu no estágio da Selecção, apreciem-se as artes de sensibilidade que Paulo Bento, impoluto-combatente-patriota, decidiu empregar na hora da vitória: 

 "Bosingwa e Ricardo Carvalho no Europeu? Só como espectadores."

 Poderíamos julgar esta declaração como escusadíssima numa noite em que Paulo Bento poderia ter contornado o tema, limitando-se a fruir a glória da noite. Mas Paulo Bento não é um mero seleccionador, é a eminência moral da nação e, simultaneamente, alguém que alcança as mais satisfatórias erecções quando ouve a palavra "castigo".



Bruno Sena Martins

11 NOVEMBRO 2011 - 14.17h

A irascibilidade tem que dar lugar à serenidade

Categoria - Política

É um momento de excepcional dificuldade na nossa história. E a nossa história é colectiva. Nos bons e nos maus momentos. O PS assumiu uma posição excepcional perante este orçamento do estado. Um orçamento violento e injusto. Mas com a vida de tantos portugueses em causa recusou os jogos políticos reféns do passado, os concursos de popularidade imediata ou a tentação do desespero radical de quem há muito abandonou o futuro. Os portugueses não querem políticos desesperados nem políticos que ameacem. Os socialistas demonstraram  querer a política que supera o medo. Que dá confiança. Que acredita no futuro. Mostraram democraticamente que querem um novo futuro. Um futuro diferente.
Este momento exige política clara e transparente. Este não é o momento para contabilizar pequenas vitórias e pequenas derrotas. Este é o momento que ficará para a história como vitória colectiva ou como derrota colectiva. A irascibilidade nunca ganha. Nenhum comentário malabarista ou avençado pode iludir um aspecto fundamental: este orçamento não é do PS. É o orçamento da maioria absoluta de direita. São as escolhas orçamentais e financeiras do PSD e do PP. E é ao Governo que cabe executar o orçamento. Ao Governo cabe governar. Ao PS cabe liderar a oposição, fiscalizar o Governo e alertar os portugueses para os excessos da sua acção, para as medidas que comprometam a coesão social e nacional, para as irresponsabilidades que minem o necessário consenso político e social. O PS esteve à altura da responsabilidade histórica que se exige à política portuguesa. Cabe ao Governo, ao PSD e ao PP, decidirem se trocam a responsabilidade histórica e colectiva que se lhes exige pela irresponsabilidade motivada por uma cegueira ideológica datada e em contra-ciclo fracturando irremediavelmente o amplo consenso nacional social e político. As consequências são imprevisíveis.
As responsabilidades têm que ficar claras. A responsabilidade do PS é apontar outro caminho. Demonstrar aos portugueses que existem alternativas às inevitabilidades incansavelmente repetidas pela direita europeia e pela maioria. Há outro caminho, com outras políticas. Políticas que preservem um Estado forte com capacidade para regular e para agir. Políticas que respeitem o tempo de cada um – que não excluam os mais velhos como inúteis improdutivos apenas para produzir mais depressa e mais. Políticas que assegurem desenvolvimento e progresso mas em que todos têm um lugar. Em que cada vida, de cada pessoa, tenha um sentido, para os seus amigos e familiares, mas também para o seu país. Cumprir a lei, cumprir o espírito da lei é fundamental para iniciar este novo ciclo de confiança. Recuar na desconfiança mútua, assumir o contributo sério e individual para um bem colectivo. Bem esse que deve ser reconhecido por todos. Todos temos que sentir que vale a pena. Que o Estado é justo. Que o contributo de cada um é usado para um bem maior. Que a exigência de cada um é a exacta medida do necessário contributo colectivo. Não há lei ou orçamento, não há discurso ou estado de alma que possa recuperar a confiança perdida. A confiança no próximo. A confiança colectiva.
E o PS tem que apresentar um projecto alternativo de esperança que passe não só por Portugal mas sobretudo pela Europa. Uma Europa que definha. Esgotada de credibilidade e de legitimidade. Escondida atrás de glórias passadas capitulou perante os egoísmos nacionais. Os egoísmos que alimentam as políticas conservadoras. Não podemos esquecer que a Europa da Crise é a Europa da Direita. A Direita que é maioritária no Parlamento Europeu. A Direita que controla a Comissão Europeia. A Direita da aliança franco-alemã. Há 6 anos que a Europa é de Direita. A direita que falhou na Europa tenta agora inspirar o Primeiro-Ministro de Portugal com as ideias que conduziram a Europa ao declínio, à desagregação política, à derrota do sonho europeu. O PS tem que se mobilizar para derrubar esse muro frio e tecnocrata. O PS tem que fazer renascer o projecto europeu. O PS quer mais Europa. Quer mais democracia na Europa. Quer um Banco Central Europeu que emita moeda, que emita obrigações para financiar dívida mas sobretudo para financiar políticas europeias de crescimento. Quer um orçamento europeu forte. Quer as ideias políticas progressistas a substituir os egoísmos nacionais conservadores. Quer a política e a democracia em vez da arrogância dos mercados. Quer um novo ciclo na Europa.
É preciso sonhar e dar um novo sentido à política europeia e nacional. O país precisa de acreditar. O país tem que abrir um novo ciclo de vida. Tem que acreditar que há alternativas e que pode construir um novo futuro. Um país mobilizado, participado, rejuvenescido. Um país que assume colectivamente, com orgulho, todo o seu passado, e que tem os olhos postos num horizonte de esperança.



João Ribeiro

6 NOVEMBRO 2011 - 21.14h

O referendo à democracia europeia

Categoria - Política

Para muitos proposta de referendo resumiu-se à rotunda humilhação do seu proponente, George Papandreous, alguém que, pragmaticamente, terá acabado por perceber a magnitude da sua veleidade. Pois bem, é uma leitura respeitável que só peca por estar olimpicamente errada. Ao aventar a hipótese de referendo Papandreous desencadeou um outro escrutínio: "A construção europeia tem algum pingo de respeito pela democracia?" À falta de referendo tivemos, pois, uma significativa eurosondagem em que o não à democracia demarcou com maior nitidez as fronteiras do seu império. No ostensivo esmagamento perpetrado pelo "Não ao referendo" está a dádiva de limpidez de Papandreous para toda uma geração de europeus.



Bruno Sena Martins

3 NOVEMBRO 2011 - 15.04h

Hoje a Europa, Hoje Portugal

Categoria - Política

Hoje a Europa

A Europa agoniza na sala dos fundos de um hospital de terceiro mundo. Ninguém repara muito nela, nem se debruça o suficiente sobre o caso clínico a ponto de lhe encontrar uma cura. Ninguém parece, portanto, muito preocupado com a sua recuperação, rápida ou lenta. Dos seus diversos membros um está em fase de colapso, enquanto outros estão a aproximar-se rapidamente deste ponto demasiado crítico. Os dias que se vivem na Europa de hoje são terrivelmente perturbantes para quem se habituou a viver num clima de paz e prosperidade e, de repente, sente que todas as conquistas dadas como adquiridas se tornaram num turbilhão de vulnerabilidades. A preocupação com as dívidas externas dos Estados europeus e dos privados sobrepôs-se de forma absolutamente inadmissível à consolidação de uma forma verdadeiramente unificada de cidadania europeia. Da Europa dos Estados e dos cidadãos passou-se à Europa das constantes cimeiras franco-alemãs. Da Europa das decisões colectivas transitou-se para uma outra realidade de domínio individualista de dois Estados cujos Governos, de direita conservadora, se encontram rendidos ao mercado e à sua capacidade de auto-regulação, que mais não significa do que uma tentativa desesperada de proteger os seus próprios sistemas financeiros. Eu acredito num projecto de uma Europa Federalista, num projecto arrojado de uma verdadeira unificação do que pode e deve ser unificado, mas onde sejam asseguradas as diversidades culturais. Onde cada Estado passe a ser verdadeiramente um membro de uma entidade maior.

Hoje Portugal

 Por cá, entre as notícias que vão chegando da Grécia e de Cannes, onde parece que os hotéis de luxo se encontram cheios de chefes de Estado e de Governo, a classe política discute o mais duro Orçamento de Estado (OE) de que há memória, mas simultaneamente o mais injusto e o mais letal. Apesar disso e depois de no início desta semana terem surgido notícias de que o anterior secretário-geral do PS teria influenciado alguns deputados a votarem contra ao orçamento, parece que a opção da actual liderança será a abstenção. Abstermo-nos é não tomarmos posição nenhuma. É querer ficar bem com Deus e como Diabo. É não assumir que este OE não seria nunca resultado de um Governo socialista. É certo que há compromissos com a troika e que esses compromissos foram, em primeira mão, negociados pelo PS. Mas este OE vai muito além do que a imaginação daquele triunvirato poderia alcançar. O PS não é peça crucial neste processo. O OE passará com ou sem os votos dos deputados socialistas. Por isso, é meu entendimento que só depois de uma negociação séria com o Governo, de que resulte a subtracção ao OE de um conjunto de medidas fortemente penalizadoras quer do comum dos cidadãos, quer das pequenas e médias empresas, o PS poderá tomar uma posição pela abstenção. Caso contrário deveria ser atribuída a liberdade de voto aos deputados socialistas para cada um se expressar com base na sua consciência.
Nos termos em que o texto do OE se encontra e atendendo ao papel de partido subalterno a que o Governo remeteu o PS, eu votaria contra!



Rui Estevão Alexandre

Autor:

  • Marta Rebelo

    Jurista de formação, professora por dedicação, política de actividade e escritora por amantíssimo gosto

  • Tomás Vasques

    Advogado de profissão, mas dedica-se com frequência a outras artes. Gosta do conceito "esquerda liberal"

  • José Reis Santos

    Doutorando em História Contemporânea. Benfiquista, socialista e liberal, por esta ordem.

  • Nuno Ramos de Almeida

    Recorda com saudade a última frase de um dissidente soviético que se suicidou: "Não disparem camaradas!"

  • João Ribeiro

    Doutorando em Sociologia, jurista, socialista (moderno e não só) acredita que os consensos só servem os que dominam.Quer discutir os meios antes dos fins

  • Rui Estevão Alexandre

    Socialista, Republicano e Laico. Partilha de uma visão humanista do mundo. Através da Política contribui para o processo de construção da Polis

  • Catarina Caetano

    Gosto de trabalhar, das tábuas, do palco, de questionar, de reflectir. Sou actriz, e quero sempre mais

  • Bruno Sena Martins

    Antropólogo dado a radicalismos de esquerda procura sociedade séria para compromisso aberto

  • Miguel Cardina

    Historiador nos tempos úteis, musico nas horas vagas e esquerdista o tempo todo

  • Tiago Mota Saraiva

    Comunista e benfiquista. Arquitecto por vontade própria, professor desempregado e empresário por obrigação

  • Vítor Dias

    Comunista com muita honra, uma amargura combatente, a idade pesando e o cabelo embranquecendo

  • Ana Gomes

    Socialista, eurodeputada, blogger preocupada

  • Paulo Guinote

    Professor porque sim, aprendiz de historiador nos tempos livres, individualista e liberal demais para acreditarem que sou de esquerda

  • Mariana Mórtagua

    Economista (cada vez mais aterrorizada). De esquerda por absoluta convicção e estruturalmente feminista

  • Miguel Marujo

    Pai babado. Jornalista. De esquerda. Benfiquista. Católico. Leitor compulsivo. Blogger. Viajante. Cagaréu. A ordem não pode se esta

  • Miguel Vale de Almeida

    50 anos, antropólogo, professor universitário, activista LGBT e ex-deputado independente pelo PS à AR

    

Arquivo

<Maio 2012>
 
segterquaquisexsábdom
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031   
       
Copyright ©. Todos os direitos reservados. É expressamente proíbida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Edirevistas, S.A. , uma empresa Cofina Media, SGPS. Consulte as condições legais de utilização.