À cabeceira da mesa rectangular e pesada do restaurante de Justa Nobre, onde nos sentámos 13 (os bloggers convidados, o assessor e o prelector), uma moderna ilustração decora a parede. Do lado direito do anfitrião Pedro Passos Coelho, destaca-se com ironia a frase: «O Sabor da Tentação – acelera os sentidos». Superstições numéricas à parte, aquela não era a última ceia de Passos Coelho. A refeição foi desenhada para ser um momento de pregação do «novo evangelho» com que o presidente do PSD quer reger o país.
A audiência não podia ser mais favorável, pois a blogosfera representada era simpática à direita. E, apesar da esquerdista presença de Paulo Guinote (A Educação do meu Umbigo) e de Ana Matos Pires (Jugular), era claro a quem calhava o papel de Judas: a mim, dirigente nacional socialista, coordenadora do Blogue de Esquerda da Sábado e que, inconvertível àquela causa e não sendo pombo-correio de quaisquer recados senão dos meus à lavandaria e mercearia, estava ali para quê? Sim, estive na manifestação da «Geração à Rasca», não me tenho manifestado pela cartilha da direcção do meu partido, e os tempos fazem-me bradar por um PS mais à esquerda do que aquela que encontro no actual, tal qual vão as coisas. Mas voltemos ao repasto.
Às 21h de dia 18 de Março, lá chegou a delatora. Combalida e atrasada, já Pedro Passos Coelho, muito mais magro e em pose de Estado, gravata azul cerúleo de nó fininho (para os cromaticamente desatentos, aquele azul que pontua nas gravatas de José Sócrates, forte, eléctrico) desenvolvia a sua estratégia financeira para o país. Reservaram-me o extremo esquerdo da mesa, ao lado de Paulo Guinote (mas perto do João Gonçalves, do Portugal dos Pequeninos). Apropriado. Sentei-me e não contive a interrupção passados escassos cinco minutos: mas afinal o que é que o PSD queria fazer de tão diferente do PEC VI? A resposta foi redonda, mas redundou nesta declaração soberba: «Não posso prometer que não haja aumento de impostos. Mas tem de se mexer no tecido produtivo». Neste momento, a minha missão estava cumprida. Mas a sopa de santola ainda não tinha sido servida, e antes que o PSD de Passos taxe a iguaria a 25% de IVA, mais valia aproveitar.
Não sendo particular fã de mariscos, esperei então pelas outras iguarias, que foram, de facto, servidas. Pedro Passos tentou um formato presencial «simplex», desformatado, e lá ia dizendo que «a malta quer», que «a malta vai fazer». Mas foi igual a si mesmo, cerimonioso e rigoroso, lição estudada, cada blogger tratado pelo nome. Menos eu. Então o que é que «a malta quer fazer»? Aquela malta já se achava, pelas 21h23 de dia 18, governo. O anfitrião falou sempre de si e dos seus companheiros nessa condição. E, assim sendo, do pedido de ajuda externa que ele, governo, vai fazer. Mas vai fazer a quem? É que a sigla «FMI» ouviu-se em sussurro. E como? Tirando «todos os esqueletos do armário», como «o BPN, o BPP, as empresas públicas», e tendo como base «a verdade da situação financeira do país». Além de não prometer que não sobe os impostos («Dear Prudence», já cantavam os Beatles), promete que privatiza o que puder «não por compromisso ideológico, mas por incapacidade de sustentar esta situação» e porque muitas empresas públicas não prestam «verdadeiros serviços públicos» - «para que é que a CP tem uma CP Telecom?», questiona. Para o SNS, tão caro aos presentes, «a liberdade como meio de eficiência»; chama à colação a solução sueca, as carteiras de riscos das seguradoras e do Estado Holandês. Na Justiça «não se trata de construir um edifício novo, senão isto paralisa». É esta a imagem que me fica: mudanças serenas.
Pois é, Pedro Passos Coelho não acredita em revoluções. Repetiu muitas vezes que «a malta» quer moralizar mas sobretudo sem revolucionar: «nós não podemos fazer uma revolução num ano, nestas áreas», falando das sensíveis saúde e educação. E repete a certeza quatro, cinco, seis vezes. Pedro Correia (jornalista do DN mas ali na condição de blogger do Delito de Opinião) diz-lhe que as pessoas gostam de ver o líder social-democrata «irritado». A calmaria da atitude, que parece cultivar para fazer o contraste com o «animal feroz» socrático, oferece alguma vontade de sacudir Passos Coelho, de quando em vez. Mas «as reformas são processos, e isso é que sossega as pessoas». Será que esta gente ainda não se deu conta que ninguém neste país está sossegado? Nem sossega com as candidaturas que se avançam para as tais eleições antecipadas? Desde que se «moralize», não!
Quando já vamos avançados no prato principal, e no meio do seu discurso estruturado, Pedro Passos Coelho coloca a frase: «eu não estou aqui a anunciar o programa eleitoral, estou a abrir portas de discussão». E mal se cala, numa mesa da sala mesmo ali ao lado, cantam-se os «Parabéns» a uma pequena criança – será profecia, nasce um líder?
A verdade é que antes da sopa de santola, quando eu cheguei, todos ouviam com avidez e silêncio de pompa o putativo-futuro-primeiro-ministro. Antes de chegar a sobremesa as conversas já eram bilaterais e o jantar transformou-se num convívio de bloggers. Passos ainda tinha algumas na manga: a certeza do chumbo do PEC IV; a aglutinação da Justiça e da Administração Interna num só Ministério e um super-Ministério da Economia, num governo «historicamente pequeno (e conte aí com os Secretários de Estado, que são sempre demais)»; sem espanto «o governo tem de ir para além do PSD»; enfatiza mais uma vez a ausência de revoluções e por isso «em muitas áreas, como a economia, precisa de métricas de dois mandatos, com metas intercalares ao fim de um». Por fim, Pedro Passos Coelho não se arrependeu de ter viabilizado o OE/2011, mas não confia no acordado pelo Governo: «é preciso andar sempre em cima», e disse esperar que finalmente apresentassem uma moção de confiança. O que José Sócrates apresentou, já naquele dia Passos sabia bem, foi a demissão estudada.
Do restaurante de Justa Nobre, o Spazio Buondi, eu trouxe reforçada a imagem do homem hermético e homogeneizado, que só cedeu ao pecado da sopa de santola mas equilibrou logo a seguir com o bife grelhado, o ananás, os cinco copos de água e um copo de vinho tinto intocado à sua frente. Afinal, «O Sabor da Tentação – acelera os sentidos», mas as tentações são outras e o sentido não é o paladar. Pedro Passos Coelho tacteia o poder. É esse que lhe acelera a pulsação. Mas não muito, porque as revoluções desassossegam.
Marta Rebelo