O Sr. Dr. Catroga é um bom economista mas não é por esse mérito que tem dado nas vistas nos últimos anos. O Sr. Dr. Catroga merece-me o maior respeito. Guardo sempre o maior respeito pelas pessoas de maior idade. É apenas lamentável que haja ainda quem se ache acima dos outros. É a arrogância de classe e a petulância de casta que se reconhecem e que se pensava afastadas da sociedade portuguesa mas que demonstra bem o nosso crónico défice de igualdade, a subserviência cínica reinante (bem personificada por alguns jornalistas e comentadores) e os falhanços do 25 de Abril.
Há argumentos e argumentos. O Sr. Dr. Catroga tem currículo: é inegável; alguém que foi ministro das Finanças, e que tem experiência na gestão de diversos negócios, poderia, em tese, assumir quaisquer responsabilidades na EDP. Mas considerar que a sua escolha é natural, para além de revelar elevada e saudável autoestima é uma blague de algumas pessoas de direita que se consideram quase predestinadas para algumas funções. As mesmas que reagem epidermicamente às pessoas de esquerda que ocupam esses lugares, sugerindo que há quase uma usurpação de direitos ou que as pessoas de esquerda têm que se comportar como as de direita nesses cargos. O argumento supremo do desplante desenvergonhado é o que defende os chorudos salários com a função redistributiva associada aos impostos que paga. É um ultraje aos portugueses. Aos portugueses que ganham o salário mínimo com o seu trabalho. Aos portugueses da classe média que pagam os seus impostos. Aos trabalhadores da EDP. Aos portugueses que veem cortados os seus salários com a proclamação sempre repetida do “temos que empobrecer” do Primeiro-Ministro.
O Sr. Dr. Catroga tem um percurso de admirável consistência na sua independência. Tanto foi gestor de topo no antigo regime, como foi nomeado por Governos PS, como serviu governos e candidaturas do PSD. Como negociou o calendário de privatização da empresa à qual supervisionava a estratégia. Como escreveu um programa eleitoral com compromissos de inegável impacto na faturação da empresa que supervisionava. Já para não falar da sua posição conhecida e antiga contra a privatização da EDP (talvez porque receasse perder acesso à mesma sem os obscuros caminhos que ligam a direita dos negócios ao Estado – suprema ironia...). Agora é usado para “comunicar” melhor com o regulador. Sempre desconfiei dessas consistências de quem tem convicções compatíveis com tudo e com todos. Gosto mais de gente com convicções consistentes do que com independências consistentes (estas rendem mais...). Admira-me que só ele não perceba a gravidade das suas atitudes e declarações. Vejo, contudo, uma vantagem nesta polémica: fica claro para os portugueses a razão do afã da direita dos interesses e dos negócios sempre que se fala em privatizações. A entrevista do Sr. Dr. Catroga foi um verdadeiro tratado sobre a chamada democratização da economia defendida pelo Primeiro-Ministro: rasgar todos os sistemas de escrutínio público escondendo-se na “liberdade” (insultando a palavra) despudorada dos ditos “privados” e tornando acessível aos poderes financeiros o domínio das dinâmicas económicas e sociais – condicionando assim a democracia e a política. Como aconteceu no BPN. Seria importante para a sanidade nacional evitar um novo BPN. Não queremos ficar sem luz em Portugal. Num momento em que se aumenta a factura da eletricidade, em que se ouve os Srs. Drs. Catroga da vida defenderem diariamente austeridade em cima de austeridade (aparentemente, só para os outros), os portugueses sentem que há pessoas ligadas aos partidos do governo e à direita dos negócios que estão imunes à crise e ao aumento da eletricidade.
Não há refúgio possível no argumento do passado. Em democracia os julgamentos políticos são feitos em eleições. Esse julgamento já foi feito pelos portugueses. Esse argumento não impedirá o PS de denunciar tudo o que deva ser denunciado. Não passa de uma técnica de retórica que descredibiliza a política e os políticos.
Por estas razões, e houvesse vergonha, o Sr. Dr. Catroga recusaria o convite que tem em cima da mesa. Perdeu qualquer condição objectiva para liderar a empresa que me factura mensalmente a eletricidade. Contrato que reavaliarei.