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31 DEZEMBRO 2011 - 15.37h

Balanço Político de 2011

Categoria - Política

E o ano de 2011 acaba com o confronto, em termos político-económicos, com o confronto entre duas vias dominantes para o futuro do país que indiciam que atingimos um novo patamar de indigência, agora completamente generalizada à classe política que resta e aos cérebros e interesses que a alimentam.

  • A da Situação, representada pelo PSD, de forma menos impetuosa pelo CDS e implicitamente pelo magrinho PS de António José Seguro, defende a teoria do Emigre quem Puder, que a Malta não sabe como Governar Isto!. Nela se incluem todos aqueles que acham que o buraco é horroroso e não há maneira de o resolver sem ser pela redução das despesas a toda a velocidade e no rebuscar de todos os tostões ainda passíveis de ser encontrados em todos os que não têm contos de réis para contratar segurança e alarme para defesa desses mesmos tostões. São aqueles que, para combater o défice das contas públicas e a falta de receitas, convidam a emigrar os profissionais qualificados em idade útil para constituir família e, quando empregados, com condições para estimular o consumo e gerar receitas fiscais. Mas como os governantes que estão são incapazes de um projecto de desenvolvimento, mas apenas de empobrecimento e emagrecimento, a única coisa que conseguem ver é que, emigrando muita gente desempregada, há menos subsídios e apoios sociais a pagar. Em termos económicos são pela democratização e liberalização da economia, embora isso se traduza na aquisição de posições estratégicas em empresas nacionais por empresas detidas a 100%  por outros Estados. Não percebem a contradição ideológica, apenas estão interessados no encaixe ocasional. São pelo menor peso do Estado na sociedade e economia, mas sobrecarregam-nas com impostos; são pela liberdade das famílias escolherem muita coisa, mas retiram à maioria os meios para escolherem seja o que for. Instituem a lei da selva, em que o mais forte pode e compra e o mais fraco emigra ou submete-se. Carecem de imaginação e estão presos de uma meia dúzia de teóricos que leram três livros na vida, citam Hayek abertamente, von Mises só no caso dos mais eruditos, mas receiam o libertarismo de Ron Paul, porque esse correria com todos os grupos de trabalho e think tanks pagos pelo Estado.

É uma geração que já foi nova, antes de ficar precocemente envelhecida nas ideias e confundir hiperactividade com actividade consequente. É a geração relvas, com o empático Pedro como testa-de-ferro, já incapaz de dominar a criatura que o dominou.

  • A da Oposição, representada pelos órfãos de Sócrates no PS, por um Bloco desorientado e por um PCP discreto e à espera dos votos que nunca chegarão dos desencantados da restante Esquerda, encontrou um tema comum de resistência em torno do lema Marimbemo-nos para a Dívida! Encontram-se aqui vultos secundários do PS, equivalentes à geração relvas do PSD e todos aqueles no PCP e Bloco que, na falta de outra alternativa, acreditam que não pagando a dívida criada em larga escala pelos projectos que apoiaram, quase sempre em conjunto, nos últimos anos, conseguem solucionar a dita dívida e os constrangimentos por ela criados. Esquecem-se que, não pagando, poupam no pagamento, mas deixam de receber o que ainda alimenta grande parte do funcionamento do país. Esquecem-se que durante 25 anos se trocou a produção nacional por subsídios aplicados quase à grega. Sim, alguns contestaram isso, mas agora parecem desacreditar que o país que temos é um país que não produz riqueza capaz de auto-alimentar-se sem a engenharia financeira externa. Demonizam os mercados, mas não apresentam alternativa. Acusam de salazarismo os que defendem o cumprimento das obrigações externas, mas aprenderam História (Económica e Política) em sedes de jotas partidárias e de forma acrítica. Não percebem que o salazarismo não manteve o país na pobreza por causa do projecto económico de equilíbrio orçamental, mas sim porque defendia um isolamento político do exterior para melhor manter o controle interno. Não percebem que a economia obedecia à política e não o inverso. Mas a ortodoxia marxista (ou reminiscências suas mal digeridas) explica tudo com base nas relações de produção e desentende que, em regimes ditatoriais fechados a economia submete-se ao poder político. Consultem a China, a esse propósito, o único regime político ditatorial com economia de mercado florescente, mas à custa do quê.

Temos, portanto, uma oposição que à Esquerda quase recupera Sócrates para as suas fileiras e coloca os seus representantes no PS actual lado a lado com os seus escassos mas firmes opositores internos desde 2005. Uma oposição cuja alternativa não se percebe se é a saída do euro, se é o reforço de opções centralistas como as eurobonds. Se é um projecto de independência nacional, se de reforço do federalismo. É uma posição baralhada, sem liderança, porque só lhe restam dois líderes: Carvalho da Silva cá dentro e José Sócrates lá fora. Que até há um ano eram grandes inimigos e defendiam posições absolutamente contrárias.

 *

Há quem diga que em política o vazio não pode durar muito tempo e que qualquer solução surgirá para o ocupar.

Discordo.

Acho que, neste momento, o vazio é um espaço cada vez maior, onde se refugia cada vez mais gente na apatia e anomia. O vazio passou a ser uma opção. Aliás, o país vazio começa a ser uma realidade, se exceptuarmos um punhado de cidades e umas dezenas de grandes centros comerciais.

A maior parte do país esvazia-se e a classe política ou encoraja isso ou faz o seu melhor para que ninguém sinta orgulho em ficar, sem ser o que nasce da própria dignidade e da percepção de que há um país que, apesar dos seus solavancos seculares, não merece ser deixado apenas aos oportunistas, aos chineses, aos opinadores da SICN e do Expresso e à geração relvas-seguro.

Ainda há quem tenha respeito pelo país onde nasceu e cresceu. Mas o ano de 2011 foi dos piores a esse nível. Resta saber se esses portugueses e Portugal sobrevivem a 2012 sem danos irreparáveis.

Mas há quem não desista e prefira ficar e resistir do que exilar-se em Londres ou Paris. Nem todos somos ferros, cravinhos, carrilhos ou consultores no Dubai. Muitos teriam de se limitar a servir-lhes cafés. Ou  àqueles que lhes irão suceder nessas formas de emigração dourada, para a qual não há dívida que aflija.




Paulo Guinote

16 DEZEMBRO 2011 - 10.36h

The Marimba Theory on Economics - Part 1 and 2

Categoria - Política

A Bomba Antónia

Porque não estender a teoria económica do visionário deputado da Nação por Aveiro?

 

E, se os Estados endividados a podem aplicar aos bancos estrangeiros, porque não aplicá-la à banca nacional e deixar de pagar as dívidas aos bancos, quando os créditos para pagar a casa, o jipe e mais umas coisas, começarem a pesar demais?

 

Marimbemo-nos na banca que, quando não é para receber crédito, não passam de uns capitalistas exploradores do povo?

 

Vá lá, malta das esquerdas corajosas da boca para fora, que nunca deixou de usar cartões de crédito, nem optou por uma economia de recolecção, para quando um movimento popular de incumprimento generalizado do pagamento das dívidas aos bancos?

 

Sejam coerentes! Apelem ao boicote aos bancos!

 

(que realmente têm as suas culpas no cartório,  estando longe de ser inocentes…)

 

Que tudo entre em colapso, que da destruição completa do sistema financeiro capitalista renasça o mundo ideal da utopia da troca directa.

 

Ahhhh… a destruição criadora!

 

Não esqueçamos que a origem do conceito, embora não do ermo específico) é marxista.

 
Antes de Schumpeter houve o jovem Sombart (que acabou em nazi, eu sei, daí a ironia profunda de todas estas coisas)!



O Neo-Socratismo

 

Estou particularmente emocionado com algumas defesas do marimbeiro deputado aveirense (em terras de Candal, a truculência balofa é via verde para o Parlamento?).

 

Em especial aquelas que excedem as que o próprio partido ensaiou pela atrapalhada figura de Zorrinho ou pela presente vetustez de Alegre.

 

Temos, pois, socratinos-novos, uma nova geração que toma como boa e válida a prática implícita e a teoria explícita do engenheiro do não pagamos! não pagamos! tão popular na década de 90 em relação às propinas.

 

Distraído, até Passos Coelho é capaz de embarcar na coisa, não seja ele agarrado pelo Gaspar.

 

Os socratinos-novos são malta corajosa de esquerda que já seria capaz de votar novamente em Sócrates se ele lhes prometesse o TGV no município (quiça uma nova ponte!) para despertar as mais-valias à custa de mais uns empréstimos arrancados com lábia ao polvo da banca internacional.

 

São gente coerente, cheia de princípios – o capitalismo é mau e os mercados fazem crescer pelos nas mãos – que apenas não tem coragem de os aplicar na sua vida quotidiana, na qual se rendem por completo ao modo de vida capitalista com o argumento de que uma andorinha não faz a primavera proletária e não-classista. Que os Estados é que são eternos (excepto os que se desfazem em décadas como certos paraísos terrestres), que o povo ainda não está preparado e que, até estar, é melhor viver-se com as peles do camaleão que depois se despe e se descobre um fatal escorpião para os globalizadores que exploram o sangue dos povos dominados.

 

É pá! Poupem-me!!!

 

Têm saudades do engenheiro, das suas práticas enunciadas, mas nunca efectivamente praticadas contra os grandes interesses que o apoiaram, ergam uma vaga de fundo, tragam-nos em ombros de Paris, defenestrem primeiro o Seguro (conseguia-se em menos do que um nano-segundo tamanho o entusiasmo que desperta em todos os narcolépticos), defenestrem depois o Passos Coelho e voltem a colocá-lo lá, com a esperança que, na pior das hipóteses, têm lugar na mesa das negociações e, na melhor, que têm uma aliança parlamentar ocasional.

 

Façam isso. Mas assumam-se. Saiam do armário. Passem a dizer que é Esquerda o que antes apodavam de Governo de Direita, mas que agora é que é mesmo, estes que lá estão.

 

Troquem as tintas todas, dêem o dito por desdito e, não se esqueçam, digam que eu é que estou confundido, que eu é que mudei de opinião. Porque antes queria ver a clique socrática fora do poder e continuo a achar que esse afastamento foi uma das poucas coisas boas destes anos. Veja-se isto a partir da esquerda, direita, cima, baixo ou de cernelha. Se isso vos faz encarar-me como um apoiante acrítico da Direita, um idiota útil ao serviço de uma estratégia, sirvam-se à vontade.

 

Mas não se aproximem de um espelho.







 




Paulo Guinote

2 DEZEMBRO 2011 - 18.47h

Um Espaço Vazio Cheio de Gente, Ali Quase a Meio

Categoria - Política

É o que se passa com a bancada parlamentar do PS. É um grupo de deputados incaracterístico e que, como acontece sempre que uma liderança partidária sai após um derrota eleitoral, tem mais fidelidades ao líder que foi do que ao líder que é ou tenta ser.

Aconteceu no PSD com vários líderes, agora é com o PS.

Só que esta liderança é demasiado frágil, encontrando mais apoios fora do próprio partido do que dentro dele. Basta ver como tanto o PR e o PM o não atacam, preferindo o próprio PSD, quanto muito, formulações generalistas sobre o PS.

Para além de que o longo exercício do silêncio calculado, do vago não alinhamento insinuado, da indecisão como modo de vida, se transformaram numa liderança sem identidade ou projecto num partido que precisava de alguém para ocupar o lugar como, outrora, o fizeram Almeida Santos e Vítor Constâncio, mas apenas isso.

O grupo parlamentar, onde se destacam os herdeiros do socratismo pseudo-modernaço, com o próprio Zorrinho à frente, é aquilo que é… um grupo onde os herdeiros do engenheiro são os mais activos e não assumem a herança dos seis anos de governança que não seja a da propaganda que construíram em seu redor.

Os episódios caricatos em torno da votação do OE para 2012 triturariam a credibilidade de qualquer liderança que a tivesse. Assim, são epifenómenos no trajecto de estabilidade em baixa de um António José Seguro muito útil ao governo do PSD/CDS que ninguém leva a sério como líder de uma oposição fragmentada à esquerda, por muito que Mário Soares tente elaborar teorias unificadoras ou Carvalho da Silva tente arregimentar para as ruas.

Dos mails a fazer ultimados ao líder ao episódio da deputada que votou isto, mas depois pediu desculpa, sem se perceber no que acredita, o PS arrasta-se num pântano que deixa o país completamente à mercê de um Governo que faz das fraquezas alheias as suas forças.

Como se antecipou desde sempre, António José habituou-se demasiado a não ter posições definidas e a estar apenas convicto da necessidade de sobreviver no aparelho de poder do PS até chegar o seu tempo (s trocadilhos com o apelido ocorrem em catadupa, sendo esforço hercúleo resistir à tentação).

Só que o seu tempo só poderia chegar quando a maior parte dos que o apoiam também não têm convicções que não sejam observar o voo das aves de arribação e acertarem no momento de apoiarem outro.

Um outro que teve o bom senso de esperar e que esperará até ao momento certo. Sendo que esse momento certo passará pela erosão do governo em virtude do colapso social que se vai desenvolver em 2012. Em 2013 alguém aparecerá e Seguro sairá de cena como saíram, no PSD, Santana Lopes, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite e Luís Filipe Meneses que, honra lhes seja feita, ainda se sabia mais ou menos no que acreditavam.

O PS, como o seu grupo parlamentar, é neste momento um enorme vazio cheio de gente à espera.




Paulo Guinote

Autor:

  • Marta Rebelo

    Jurista de formação, professora por dedicação, política de actividade e escritora por amantíssimo gosto

  • Tomás Vasques

    Advogado de profissão, mas dedica-se com frequência a outras artes. Gosta do conceito "esquerda liberal"

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    Doutorando em História Contemporânea. Benfiquista, socialista e liberal, por esta ordem.

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    Recorda com saudade a última frase de um dissidente soviético que se suicidou: "Não disparem camaradas!"

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    Doutorando em Sociologia, jurista, socialista (moderno e não só) acredita que os consensos só servem os que dominam.Quer discutir os meios antes dos fins

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