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30 AGOSTO 2011 - 23.40h

Portugal sem Elites

Categoria - Política

Contingências circunstânciais converteram-se em razões históricas. E, por sua vez, as razões históricas têm servido para justificar todo um conjunto de práticas de gestão pública absolutamente desajustadas quer da realidade, quer daqueles que deveriam ser os pilares do que se entende por gestão da coisa pública, que está para além de qualquer crivo ideológico. Gerir a coisa pública, governar o que a todos pertence, é algo que, à partida, deveria ser tarefa de quem demonstrasse a sensatez, parcimónia e conhecimentos necessários para desempenhar tais funções. Todavia, após o 25 de Abril, com a democratização do acesso à gestão da coisa pública, tornando qualquer cidadão eleitor passível de ser também eleito (embora se tenha ganho muito a este respeito), abriu-se mão da importância das Elites na actividade política. Estas, pelas suas competências e conhecimentos, estariam mais aptas a governar, com maior eficiência, mais equidade e respeito. Todavia, a classe política saída da Revolução não era nem viria, a prazo, a tornara-se uma verdadeira Elite Social. As altas rodas das Elites ficariam, por longos anos, entregues aos militares primeiro, e ao poder económico posteriormente. A elite política que viria a consolidar-se era descendente de uma burguesia que definhava, sem poder e com poucas referências. Ora, com a perda de relevo dos militares no panorama Nacional, principalmente a partir da extinção do Conselho da Revolução, ficaria para exemplo apenas a Elite económica a que quase sempre se subjugaria a política. Perante a necessidade de preencher milhares de lugares políticos, mais ou menos relevantes, desde o Parlamento às Juntas de Freguesia, os partidos saídos da Revolução apoiaram-se num conjunto de gente que, ainda que bem intencionada, não fazia a menor ideia do grau de responsabilidade e exigência inerente às funções de gestor público. A multiplicação destes casos por inúmeras Câmaras Municipais e ainda por mais Juntas de Freguesia, trouxe à política o amadorismo e o desconhecimento que degenerariam, em grande parte, nos casos de polícia e de justiça entretanto mediatizados. Dizê-lo deste modo pode levar a aferir que aqui dirijo uma crítica à democracia saída de Abril. De todo! O problema não está na Democracia mas sim naquilo que se entendeu fazer com ela. Criaram-se sistemas paralelos de gestão, facilitadores de esquemas obscuros, de que são exemplo a proliferação sem limites de empresas públicas, municipais e institutos públicos. Criaram-se vícios que se corromperiam degenerando em práticas legitimadas e aceites. O Portugal que hoje temos é reflexo de uma sociedade que cresceu sem ideias claras do que se pretendia para o futuro. É reflexo também da ausência de fortes referências políticas e sociais, históricas e ideológicas. A Elite que se apresentou é má. Não é, em boa verdade uma Elite. Senão vejamos o receio dos governos em aplicar medidas duras e impopulares, os avanços que ensaiam e os recuos que efectivam. Mas, foi com ela que se construiu o que hoje temos para viver, o país que hoje somos. Porém, não teremos que viver com ela a todo o custo. Nunca como hoje houve tantos jovens formados, capazes de estruturarem novas elites, mais cultas, competentes e vividas. Mas também nunca como hoje as elites do sistema sentiram uma tão forte ameaça e, por isso, se uniram tão fortemente na defesa do seu status quo. O Portugal que hoje temos é fruto de erros sucessivos das classes dominantes. Mas esse não será necessariamente o Portugal do futuro. Basta que assim o desejemos.



Rui Estevão Alexandre

22 AGOSTO 2011 - 23.58h

Cortes e Recortes

Categoria - Política

Cortes
O momento é para cortes. Desde há uns meses que a casaca deste velho Portugal vem sendo cortada e encurtada com bainhas feitas à medida. Desde a férias dos deputados às dos membro do Governo, passando pelos salários dos funcionários públicos e pelos subsídios de ordens diversas e mesmo pelo downgrading de Primeira Classe para Económica, no que respeita às viegens dos membros do executivo, tudo tem sido alvo da fúria da foice da coligação. A excepção aos cortes, imposta pela Troika e aplicada pelo Governo, e que por ser excepção se traduz em aumento, está unicamente limitada aos impostos e outros tipos de taxas. De entre os diversos cortes uns destacam-se pela evidente necessidade de acabar com desperdícios e privilégios injustificados, enquanto outros encontram fundamento no imperativo simbólico de “dar o exemplo”. Todavia, e apesar da consciência da importância do tal exemplo, não se coibiu o Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares de se deslocar com relativa urgência a Bogotá a fim de lá assistir à final do mundial de futebol, onde a selecção sub-20 alcançou o segundo lugar. Ora, num momento de tais simbolismos, a decisão dispendiosa de se deslocar à capital colombiana resulta exactamente no inverso do que o Governo tem pretendido. Acima de tudo quando outras modalidades, entretanto premiadas nas Universíadas, não foram alvo da mesma atenção por parte de tão destacada figura do Estado. Lamentavelmente, apesar dos freios da Troika, este Governo não se tem conseguido distanciar de velhos vícios fortemente instalados nas mais altas esferas da Administração.

E recortes!

Em ambiente de contenção importa que a amplitude de visão de cada um dos cidadãos vá para além do que o horizonte nos proporciona como limite. Lá longe, depois do horizonte, numa pequena vila do interior alentejano, encontra-se um presidente de câmara que, apesar das circunstâncias, decidiu trocar o seu carro por um outro mais actual – nada menos que um Audi topo de gama. Independentemente das justificações, mais ou menos elaboradas, o que nos deve preocupar é o aparente alheamento de certos decisores políticos relativamente à realidade que administram, tornando-se-lhes aceitável aplicar 70.000€ do erário público em pequenos ataques de exuberância egocêntrica. Todos não seremos muitos para registar e denunciar este tipos de abusos e agir sempre que o simbolismo não se concretize numa acção eficaz de corte de despesa pública.



Rui Estevão Alexandre

17 AGOSTO 2011 - 11.07h

La Sconosciuta (A Desconhecida) - 2006

Categoria - Sociedade

 Pelos ásperos meandros do tráfico humano para fins de exploração sexual, em La Sconosciuta  a dupla Tornatore-Morricone procura conciliar pretensiosismo formal -- no caso, dobrado às convenções do thriller --, exaltação intemperada do amor maternal, e uma cuidadíssima purga do sentimentalismo de autor. O resultado é distinto.

 Trailer Oficial.



Bruno Sena Martins

Em Portugal surgiu, de há uns anos a esta parte, um tal problema relacionado com uma espécie específica de “rapazes”, que também, em circunstâncias várias, pode conter indivíduos do género feminino. São eles os Boys. Valeria a pena, por uma questão de elementar justiça, esclarecer quem são estes tais Boys, o que fazem ou é suposto que façam, o modo para chegarem à dita posição e a forma de serem avaliados no exercício de funções públicas. Isto porque, de repente, tudo se generaliza e alguém que é fundamental à estrutura governativa passa a ser um Boy, e aquele que é visivelmente um premiado político ascende, por absurdo, à categoria pomposa de administrador de empresas públicas. Sim, o problema é a generalização, o pôr tudo no mesmo saco. No DN de domingo (7 de Agosto) escreveu-se em primeira página que das 450 nomeações até agora feitas pelo Governo 73 são de Boys. Quando vamos ver melhor a coisa os Boys são assessores que ocupam cargos da confiança política e pessoal dos membros do executivo. Os puros, aqueles em quem o político mais confia para o coadjuvarem no trabalho da governação são vítimas dos puritanos que escrevem nos jornais e entrincheiram a opinião pública. Lida a notícia com o cuidado e a atenção de quem está entre dois mergulhos no mar logo parece que o que está mal são os 73 nomeados políticos e não os outros 380 que ninguém sabe quem são e porque motivo foram nomeados para funções públicas. Nenhum político como nenhum dirigente associativo ou empresário se sentiria seguro se o trabalho de gabinete fosse assegurado por elementos estranhos à sua confiança. É natural e da condição humana confiar naqueles que nos são próximos. A questão relacionada com os excessos nas contratações para os gabinetes facilmente se resolvia com a criação de um limite máximo de indivíduos por cada membro do executivo. O problema está, de facto, nos restantes 380 nomeados para empresas públicas, direcções regionais, CCDR’s. Esses, que ninguém conhece, que estão na penumbra da acção pública, têm geralmente uma maior capacidade de gestão de influências por uma série de razões várias: estão tão politizados quanto os outros; gerem dinheiros públicos; influenciam sem que os holofotes e as câmaras os atinjam, etc. Por outro lado, hoje, Macário Correia levanta um outro problema nas páginas do Público que está relacionado com uma questão paralela mas nem por isso menos relevante. Os vencimentos dos ditos Boys. Se é uma injustiça de puritanos generalizar o que não deveria sê-lo, também me parece que deveria ser revista a condição salarial destes trabalhadores temporários. Afinal a grande maioria dos presidentes de câmaras municipais, legitimados pelo voto, responsáveis pela gestão da coisa pública, gestores de máquinas burocráticas altamente complexas são hoje menos bem remunerados que o menos bem pago dos assessores. Não tem menos responsabilidades e está sujeito ao escrutínio público caso pretenda ser eleito, o que não acontece com os membros dos gabinetes.



Rui Estevão Alexandre

4 AGOSTO 2011 - 08.38h

Vítor Gaspar unveiled

Categoria - Política

É quase comovente ver os esforços do actual governo para tentar estar à altura das exigências da Troika, digo quase porque a actual conjuntura, como se percebe, não é mais do que um pretexto para cumprir o projecto antigo de colocar Portugal na vanguada de uma Batalha Final pelo neoliberalismo. Gosto do estilo de Vítor Gaspar, sinceramente, mas não se deixem enganar, as vestes de aluno esforçado, vagamente totó, não são mais que isso: move-o a antiga vontade de estiolar o sector público distribuindo-o pelos interesses privados afáveis ao capitalismo de iniciativa estatal, move-o o desejo de taxar a classe média enquanto os proventos da especulação são escoltados até aos bolsos de uns quantos, move-o a construção de um paradigma de segurança social em que a prestação pecuniária se indistingue da esmola. Meus caros, em parcos 11 segundos, eis Vitor Gaspar e seus esforçados muchachos:



Bruno Sena Martins

Hoje os portugueses foram confrontados com aumentos nos preços dos transportes públicos. A justificação dada pelo Álvaro, como faz questão de ser tratado o novo Ministro da Economia, reside no facto de não ter sido até agora possível arrecadar receita por via da redução da despesa, pelo que, mais uma vez, se decidiu ir escarafunchar nos bolsos já tísicos dos ainda cidadãos. Continuou o tal Álvaro dizendo que a dívida destas empresas é “colossal” e que, portanto, tem que ser paga. Acontece que a dívida destas empresas é colossal por décadas de gestão danosa e não porque existam três ou quatro carreiras em Lisboa que dão prejuízo. O dia escolhido para a actualização dos preços coincidiu com o início das férias da grande plebe que, na euforia do primeiro dia de ócio, desvalorizou por completo a notícia que sentirá no bolso no início de Setembro. Mas, curiosamente, no mesmo dia em que o Estado decidiu roubar os portugueses que até agora têm resistido a levar os seus carros para os centros das cidades, foi também tornado público que o BPN foi vendido ao banco BIC em detrimento de um conjunto de outras ofertas, todas elas melhores do que a vencedora. Mais, foi noticiado que antes da venda do banco o Estado irá entregar de bandeja mais 500 M€ aos cofres do BPN para que o negócio se torne apetecível. Perante uma oferta de 100M€ para a compra do BPN, o Ministro das Finanças escolheu uma outra de 40M€ de um banco presidido por um ex-ministro de Cavaco. Curioso! Ora, é caso para dizer que em Portugal se concedem financiamentos a fundo perdido a quem aceitar se dono de um banco. Perante um negócio tão ruinoso como este e face ao aumento do preço dos transportes públicos os membros dos gabinetes do Governo terão de voltar a recorrer a um expediente que tinha sido posto de parte. Agora, e porque parece incomportável assumir as despesas dos passes sociais de todos os membros dos gabinetes governamentais, a medida óbvia passará por utilizar os 40 milhões da venda do BPN para comprar carros de serviço e contratar motoristas a 400€ (retribuição mensal dos motoristas do PM). Depois de várias medidas exclusivamente simbólicas já tomadas por este Governo, como a história das gravatas e dos ares condicionados, só falta sair uma portaria que obrigue a que a partir de agora as bicicletas voltem a pagar licença de matrícula e parquímetro sempre que usadas na cidade, tudo a bem dos cofres públicos. Na vida sigo uma máxima: quem paga manda. Se este Governo não tem vergonha, ao menos que não se esqueça que quem paga escolhe onde gastar o seu dinheiro. Pela minha parte farei os possíveis para que Portugal resulte. Mas não com um Governo que já mostrou que não tem com que pagar.



Rui Estevão Alexandre

1 AGOSTO 2011 - 15.44h

Fundametalista islâmico vs Louco cristão

Categoria - Política

Jon Stewart no Daily Show analisa o costumeiro viés da Fox News a propósito da identidade religiosa de Anders Breivik: aqui.



Bruno Sena Martins

Autor:

  • Marta Rebelo

    Jurista de formação, professora por dedicação, política de actividade e escritora por amantíssimo gosto

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    Advogado de profissão, mas dedica-se com frequência a outras artes. Gosta do conceito "esquerda liberal"

  • José Reis Santos

    Doutorando em História Contemporânea. Benfiquista, socialista e liberal, por esta ordem.

  • Nuno Ramos de Almeida

    Recorda com saudade a última frase de um dissidente soviético que se suicidou: "Não disparem camaradas!"

  • João Ribeiro

    Doutorando em Sociologia, jurista, socialista (moderno e não só) acredita que os consensos só servem os que dominam.Quer discutir os meios antes dos fins

  • Rui Estevão Alexandre

    Socialista, Republicano e Laico. Partilha de uma visão humanista do mundo. Através da Política contribui para o processo de construção da Polis

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    Antropólogo dado a radicalismos de esquerda procura sociedade séria para compromisso aberto

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