Contingências circunstânciais converteram-se em razões históricas. E, por sua vez, as razões históricas têm servido para justificar todo um conjunto de práticas de gestão pública absolutamente desajustadas quer da realidade, quer daqueles que deveriam ser os pilares do que se entende por gestão da coisa pública, que está para além de qualquer crivo ideológico. Gerir a coisa pública, governar o que a todos pertence, é algo que, à partida, deveria ser tarefa de quem demonstrasse a sensatez, parcimónia e conhecimentos necessários para desempenhar tais funções. Todavia, após o 25 de Abril, com a democratização do acesso à gestão da coisa pública, tornando qualquer cidadão eleitor passível de ser também eleito (embora se tenha ganho muito a este respeito), abriu-se mão da importância das Elites na actividade política. Estas, pelas suas competências e conhecimentos, estariam mais aptas a governar, com maior eficiência, mais equidade e respeito. Todavia, a classe política saída da Revolução não era nem viria, a prazo, a tornara-se uma verdadeira Elite Social. As altas rodas das Elites ficariam, por longos anos, entregues aos militares primeiro, e ao poder económico posteriormente. A elite política que viria a consolidar-se era descendente de uma burguesia que definhava, sem poder e com poucas referências. Ora, com a perda de relevo dos militares no panorama Nacional, principalmente a partir da extinção do Conselho da Revolução, ficaria para exemplo apenas a Elite económica a que quase sempre se subjugaria a política. Perante a necessidade de preencher milhares de lugares políticos, mais ou menos relevantes, desde o Parlamento às Juntas de Freguesia, os partidos saídos da Revolução apoiaram-se num conjunto de gente que, ainda que bem intencionada, não fazia a menor ideia do grau de responsabilidade e exigência inerente às funções de gestor público. A multiplicação destes casos por inúmeras Câmaras Municipais e ainda por mais Juntas de Freguesia, trouxe à política o amadorismo e o desconhecimento que degenerariam, em grande parte, nos casos de polícia e de justiça entretanto mediatizados. Dizê-lo deste modo pode levar a aferir que aqui dirijo uma crítica à democracia saída de Abril. De todo! O problema não está na Democracia mas sim naquilo que se entendeu fazer com ela. Criaram-se sistemas paralelos de gestão, facilitadores de esquemas obscuros, de que são exemplo a proliferação sem limites de empresas públicas, municipais e institutos públicos. Criaram-se vícios que se corromperiam degenerando em práticas legitimadas e aceites. O Portugal que hoje temos é reflexo de uma sociedade que cresceu sem ideias claras do que se pretendia para o futuro. É reflexo também da ausência de fortes referências políticas e sociais, históricas e ideológicas. A Elite que se apresentou é má. Não é, em boa verdade uma Elite. Senão vejamos o receio dos governos em aplicar medidas duras e impopulares, os avanços que ensaiam e os recuos que efectivam. Mas, foi com ela que se construiu o que hoje temos para viver, o país que hoje somos. Porém, não teremos que viver com ela a todo o custo. Nunca como hoje houve tantos jovens formados, capazes de estruturarem novas elites, mais cultas, competentes e vividas. Mas também nunca como hoje as elites do sistema sentiram uma tão forte ameaça e, por isso, se uniram tão fortemente na defesa do seu status quo. O Portugal que hoje temos é fruto de erros sucessivos das classes dominantes. Mas esse não será necessariamente o Portugal do futuro. Basta que assim o desejemos.
Rui Estevão Alexandre