30 SETEMBRO 2011 - 10.23h
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Política
Num jornal de Évora (Diário do Sul), onde mantém há uma série de anos uma crónica semanal, o Dr. Carlos Zorrinho escreveu isto:
"Depois da febre suspensiva que atacou todos os investimentos públicos significativos programados para a nossa região, o governo iniciou agora uma nova fase da sua acção de devastação, eliminando paulatinamente as estruturas desconcentradas de coordenação regional."
O tom e os pressupostos que estão na base das elucubrações do líder da bancada parlamentar do PS são invariavelmente estes: “o país estava relativamente bem, sofrendo apenas um ligeiro abalo de origem externa; por culpa do PSD o país teve de pedir ajuda ao exterior, ajuda essa cujos termos o PS desconhece e em relação aos quais se está basicamente a marimbar; o governo actual está contra a região Alentejo”.
Uma mistura primária de caciquismo, amnésia e falta de sentido de responsabilidade, parece ter-se apoderado do Dr. Carlos Zorrinho (outrora actor, é bom não esquecer, da farsa socrática). Antes isso do que lançar no ar a ideia de que o Dr. Carlos Zorrinho é um demagogo que nos toma por parvos.
Carlos do Carmo Carapinha
29 SETEMBRO 2011 - 16.07h
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Política
Por entre lamentos e indignações (que hoje em dia se banalizam que nem papo-secos) contra a decisão de Nuno Crato de cancelar a atribuição de prémios pecuniários aos melhores alunos (500 euróis por aluno), de que destaco este notável esforço contorcionista para discordar precedido do anúncio da concordância, fui acometido de um ataque de nostalgia.
Nostalgia de um tempo em que, quando chegava a casa e anunciava uma boa nota, o meu pai dizia “muito bem… mas entende que não fizeste mais que a tua obrigação.” Ensinaram-me, vá se lá saber porquê (as pessoas antigamente eram meio parvas, há que dizê-lo) que ser bom naquilo que fazemos é uma obrigação conducente a um processo de auto-satisfação que, no final e em bom rigor, só a nós nos diz respeito. É uma «luta» interna, que travamos com a nossa capacidade, inteligência e força de vontade. É uma questão que encaixa em conceitos antigos, hoje em dia provavelmente démodés, como o brio, a dignidade e a modéstia.
É verdade que o mundo tem mudado para melhor, ao contrário do que vão dizendo os partidários do Armagedão. Mas em cretinice e idiotice estamos a atingir níveis inéditos. Premiar, numa escola pública, os melhores alunos com um prémio pecuniário, não é só estupidez: é uma forma de instituir uma relação causa-efeito entre competência/mérito e o dinheirinho. E é desta forma que estamos a criar «monstrinhos» cuja principal motivação para serem competentes, aplicados e responsáveis aos 15 ou 17 anos é a respectiva retribuição monetária sob a forma de «prémio». Há qualquer coisa de muito errado em tudo isto.
PS: a minha mulher está aqui a dizer-me que terminou o secundário com média de 18 valores e que, por isso, lhe devem dinheiro (no mínimo 500€, mais juros e correcção monetária).
Carlos do Carmo Carapinha
28 SETEMBRO 2011 - 23.06h
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No Cachimbo de Magritte, o Carlos Botelho, uma pessoa que fala muito bem de educação, no sentido de eu concordar muitas vezes com ele, diz que o Carlos Moedas esteve mal no forúm TSF. É capaz. Nunca ouvi um forúm na vida, na TSF ou noutro lado qualquer. Contudo, hoje vi o Jornal da RTP2, aquele que dá às 22h, e o Carlos Moedas, quando questionado sobre o que o governo está a fazer para Portugal crescer em 2013, falou na elaboração de leis de concorrência eficazes, leis do trabalho claras para quem chega ao país, e esse tipo de coisa. Não estou certo se também falou do sistema de justiça, mas parecia alguém de direita a falar. Gostei.
PM Ramires
24 SETEMBRO 2011 - 21.42h
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O Dr. Marinho Pinto tem a seu favor o elemento-técnica que melhor convive com a democracia e, simultaneamente, maiores problemas lhe levanta: o populismo.
Não sendo uma prática estupidamente fácil, não é seguramente difícil. No caso do Dr. Marinho Pinto, a fórmula é, aliás, bastante conhecida: invocar os «ímpios interesses», auto-proclamando-se um intrépido combatente dos mesmos (no caso da actual ministra da Justiça, com acusações de nepotismo à mistura).
Em matéria de justiça, nada mais empolga uma plateia de leigos mais ou menos insatisfeitos com a vida, do que falar na putativa «corja» que dirige os «grandes escritórios de advocacia da capital», ou apontar o dedo à «teia de interesses» dos «poderosos», fazendo das palavras tremendos heroísmos de pulso.
Por entre a pose colérica e a bravata proto-revolucionária que habitualmente caracterizam o chinfrim que o Dr. Marinho Pinto faz questão de levar à cena a cada intervenção pública, disfarçando a sua muito particular e furtiva agendazinha política, o Dr. Marinho Pinto raramente concretiza, raramente faz prova das suas acusações, raramente explica, com factos, o que está a dizer.
Ao não o fazer, o Dr. Marinho Pinto não passa de um populista grotesco com aparentes laivos de arrivista, cuja cacofonia desarticulada já ninguém leva a sério. Como dizia hoje um senhor taxista em Lisboa, enquanto escutávamos a notícia relacionada com as últimas declarações do senhor Bastonário, «este gajo só sabe mandar bocas e dizer mal». Acreditem: os senhores taxistas às vezes dizem coisas acertadas.
Carlos do Carmo Carapinha
24 SETEMBRO 2011 - 20.47h
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Assisto às reacções inusitadas, pré ou pós-desfalecimento, das organizações sindicais às propostas de alteração da lei laboral. O tom é inevitavelmente o mesmo: os patrões não têm escrúpulos; os empregados são gente infinitamente boa e santa. Vai daí, há que elevar ao expoente máximo o princípio que encabeça toda e qualquer legislação laboral: há uma parte fraca (os trabalhadores) e há uma parte forte (o «patronato»). Para os sindicatos, a parte forte está sempre de faca afiada na direcção da parte fraca (provavelmente acharão que é para isso que se abrem empresas: para uns lixarem outros). Não admira, portanto, que, nas palavras de um sindicalista esperto e perspicaz, a proposta seja «execrável».
Dou de barato que a entidade empregadora detém, na relação contratual (ou num jargão mais elaborado, no «âmbito do vinculo laboral»), um ascendente sobre o trabalhador (é, aliás, das primeiras coisas que se aprende em cadeiras de Direito do Trabalho). Quando mais não seja, um (o trabalhador) depende do outro (patrão) para, digamos, viver.
Mas quando alguém da CGTP refere, parafraseio, que com a introdução da possibilidade de despedir um trabalhador com base na (falta de) produtividade, se abre a porta a que um patrão com menos escrúpulos fixe um determinado objectivo que ele sabe à partida inatingível para «lixar» o trabalhador, há qualquer coisa de estupidamente parcial nesta disposição mental.
A pergunta a que os senhores sindicalistas nunca, jamais, responderam – nem provavelmente lhes cabe a eles responder, empenhados que estão em cumprir a defesa inapelável dos fracos – é esta: como pode um patrão defender-se, na actual lei, de um trabalhador, usando agora a mesma terminologia, «pouco escrupuloso»? Dito de outra forma: que mecanismos a actual lei confere à entidade empregadora para que esta possa afastar, sem grandes dramas ou prejuízos (leia-se sem a burlesca teia burocrática e processual), um trabalhador simplesmente incompetente?
A pergunta é desnecessária. Para os sindicatos não há trabalhadores incompetentes ou sem «escrúpulos». Quando um trabalhador não cumpre as suas funções de forma responsável e competente, a culpa é invariavelmente do «patronato», que: a) não organizou e geriu a empresa como lhe competia (a já lendária incapacidade gestora dos patrões portugueses); b) não disponibilizou ao trabalhador os meios adequados à prossecução da função que lhe foi incumbida; c) não o formou ou ensinou; d) ou pura e simplesmente porque se trata de um bando de «blood sucking freaks».
E assim continuamos, todos: contentes, valentes, orgulhosos, cada um cumprindo o papel que o Altíssimo lhe atribuiu, nesta ordem cósmica tão bem arrumadinha.
Carlos do Carmo Carapinha
22 SETEMBRO 2011 - 20.36h
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Política
O deputado do PS na Assembleia da República eleito pela Madeira decidiu suspender o mandato, alegando que apesar da responsabilidade da situação financeira ser do Governo Regional não se revê nas posições do seu partido nesta questão. “Sou madeirense e considero que se está a usar a dívida, os buracos e os erros de governação na Madeira para fazer esquecer os erros colossais que o país fez ao longo do tempo”, disse à agência Lusa Rui Caetano. O deputado socialista insular salienta que “o PS-Madeira sempre alertou para estes problemas, a todos os Presidentes da República e todos os primeiros-ministros, incluindo os socialistas, e eles foram fazendo de conta que esqueciam a situação”.
(via Cachimbo (negritos incluídos), para juntar a tudo o que o Carapinha (com todo o respeito), com razão, tem escrito sobre isto.)
PM Ramires
22 SETEMBRO 2011 - 20.26h
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Política
Este artigo do Rui Tavares – um político (e) comentador que tento seguir acalentando sempre a ideia de um dia poder vir a concordar com as suas ideias porque se concordar com as ideias de uma pessoa manifestamente inteligente isso pode fazer de mim uma pessoa igualmente inteligente - encerra uma explicação tão simpática e arrumadinha da realidade que apetece não contrariar. É pena, de facto, mas não há como não o fazer.
Quando Rui Tavares tenta explicar a razão para o facto de a Bélgica escapar, incólume, às desconfianças ou, se quiserem, às diatribes dos «mercados», escrevendo «sem o choque contracionário que tem atacado as nossas economias da austeridade, a economia belga cresce de forma mais saudável, e ajudará a diminuir o défice e a pagar a dívida», espanta-me o lado pueril ou ingénuo do seu argumentário. No limite, trata-se de uma técnica argumentativa que encaixa numa longa e notável tradição: a de colocar os factos ao serviço de uma tese particular, ajustando-os de forma milimétrica.
As medidas de austeridade que estão a ser implementadas em países como a Grécia, Portugal e Irlanda (e Itália, mesmo sem a visita da troika), não nasceram do nada. Não foram uma opção estratégica levada a cabo de forma livre pelos respectivos governos. Foram, antes, a consequência de um descalabro continuado, paulatino, sem sinais de reversão, de dívidas soberanas e de défices orçamentais de grandeza não despiciente. Em bom rigor, as medidas de austeridade foram impostas – quer pelos factos, quer pelas instituições que vieram em auxílio desses países (ou ambas) – em países cujo modelo económico, os indicadores macroeconómicos e a dependência face ao exterior, não permitiram convencer os «mercados» da natureza pontual, de origem maioritariamente sistémica (logo mais ou menos transitória), da crise que esses países atravessavam.
Rui Tavares tenta convencer-nos de que a crise dos países «atacados» pelos «mercados» foi consequência das medidas de austeridade – e que, por causa delas, esses países, ao contrário da Bélgica, não cresceram e prosperaram livre e alegremente. Ou seja, Rui Tavares inverte a ordem dos factos.
Sim, é verdade: a Bélgica não é propriamente um exemplo de racionalidade e saneamento financeiro. Mas bastava observar os dados relativos à evolução da dívida pública belga (interna e externa) e uma série de indicadores macroeconómicos (PIB, PIB per capita, taxa de crescimento, produtividade laboral por hora de trabalho, balança comercial, etc.) para perceber as diferenças. A PORDATA é muito útil nestas coisas. Seria fastidioso fazer, aqui, um levantamento desses indicadores. Mas teria sido muito útil a Rui Tavares, esse pequeno trabalhinho de casa. Minutos antes de carregar no botão «publish».
Carlos do Carmo Carapinha
22 SETEMBRO 2011 - 11.13h
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Que nome se dá ao transtorno psíquico que leva uma pessoa a sentimentos de repulsa e a reclamar castigo exemplar em relação a outra porque, inconscientemente, vê reflectidos nesta os seus próprios defeitos?
Ao longo de décadas, Alberto João Jardim abraçou o keynesianismo à lá Sócrates: o investimento público como motor eterno e inesgotável da riqueza do povo. E se adiou (ou, se quiserem, escondeu) o registo contabilístico da despesa, nada que o anterior governo não tivesse praticado (“governo adiou despesa pública para melhorar défice”, lembram-se?).
Portanto, meus caros, entendamo-nos: não está em causa a crítica ao comportamento imperdoável e irresponsável de Alberto João Jardim; está em causa a auto-proclamada autoridade moral dos socialistas (ainda por cima pela voz de Carlos Zorrinho, um seguidor canídeo de José Sócrates) para falar destas questões, ou melhor, para falar «assim» destas questões (em registo «lição de moral» e pose «indignada», como se o passado fosse uma galáxia distante e o presente uma ilha no Atlântico).
O que Alberto João Jardim fez na Madeira (gastar sem olhar às consequências, em nome do «bem comum» e do «Estado Social»), não é muito diferente do que José Sócrates fez no continente. Pudor e vergonha na cara é coisa rara, por estes dias, nas hostes socialistas.
Carlos do Carmo Carapinha
18 SETEMBRO 2011 - 17.45h
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Qualquer módico de graça que a descontraída, desavergonhada e provocadora, embora não raras vezes boçal e mal-educada, postura de Alberto João Jardim fazia planar sobre a cinzenta, amorfa e patética política portuguesa, acabou de se extinguir. O que se passou nas contas da Madeira não pode deixar ninguém indiferente. O habitual encolher de ombros que tendíamos a fazer perante as diatribes de Alberto João, deixou de servir. Mais ainda no caso dos que tanto se revoltaram contra a forma como o senhor engenheiro geriu os dinheiros públicos e fingiu que o dinheiro seria infinitamente elástico. Dito isto, não deixa de ser pateta e patética a forma como os socráticos reclamam, agora, que se acabe com a contumácia e se apurem responsabilidades. Após sete anos de emudecimento no «contnente». Não se enxergam.
Carlos do Carmo Carapinha
13 SETEMBRO 2011 - 17.06h
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Sobre as Novas Oportunidades e o relatório da OCDE, Nuno Crato: “Temos sido muito críticos em relação a distribuir diplomas porque isso não resolve os problemas do país. O que resolve é a formação.”
Trabalhar para a estatística requer manha de qualidade e capacidade de trabalho. Coisas que, há que reconhecê-lo, nunca faltaram ao senhor engenheiro e respectivo governo. Mas, at the end of the day, o resultado só pode ser tendencialmente inconsequente, servindo apenas para nos enganarmos mais um pouquinho. Qualquer país que trabalhe para brilhar nas estatísticas da OCDE, com base em esquemas meio artificiais, meio facilitadores, está apenas a diferir para as futuras gerações a efectiva e séria resolução das muitas fraquezas que por aí pululam, no país real. Aquele que o senhor engenheiro tentou esconder ou disfarçar anos a fio, como bom provinciano deslumbrado militante da procrastinação.
Carlos do Carmo Carapinha
13 SETEMBRO 2011 - 11.22h
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Estudo hoje divulgado conclui que, graças ao programa "Novas Oportunidades", Portugal tem a maior taxa de obtenção de diplomas do final do ensino secundário (96%) da OCDE. (aqui.)
Quem procura, sempre alcança. Ou: quem trabalha para a estatística, consegue brilhantes resultados estatísticos.
PM Ramires
7 SETEMBRO 2011 - 12.58h
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A dívida da empresa Parque Escolar será talvez o melhor exemplo para explicar um distúrbio cognitivo qualquer que parece afectar as pessoas de esquerda em geral.
As pessoas de esquerda sabem que, endividando-se, um dia vão ter que pagar, com juros, a dívida? E que se se endividam sem ter condições para pagar a dívida, vão ter de abdicar de coisas que tinham para pagar aquilo que adquiriram? Qual é o distúrbio que lhes impede ter presente o problema do endividamento na altura em que tomam decisões?
Parece infantil pôr o problema nesta perspectiva, mas a discussão sobre a dívida da Parque Escolar mostra bem que não o é, porque a forma como surge publicamente a discussão também é ela infantil.
A renovação do parque escolar é útil? Claro. É uma excelente ideia? Claro. Então vamos lá renovar o parque escolar.
Alguém pensou em como se pagaria? Quais as consequências de mais este endividamento dantesco? Em 4 anos a dívida da Parque Escolar ultrapassou a da Carris e a da RTP. Parece que estou a ouvir o mentor do projecto, entre painéis solares, a gritar aos súbditos: Mais um esforço, estamos quase a apanhar a TAP!
E depois ficam surpreendidos quando isto acaba mal. Isto vai acabar mal, e não é por causa de uns malandros, mas porque tinha de acabar mal. O deslumbramento normalmente acaba mal. A mistura de deslumbramento com incompetência, acaba sempre mal.
PM Ramires
3 SETEMBRO 2011 - 13.19h
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Haverá outras?
Carlos do Carmo Carapinha
3 SETEMBRO 2011 - 01.29h
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Nesta altura do campeonato, é mais ou menos evidente que a distância entre o discurso e as intenções políticas do Dr. Passos Coelho antes das eleições, e as decisões políticas do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, parece agigantar-se. Mas no meio das conjecturas e prelecções que por aí abundam, e que vão transfigurando a figura do Dr. Passos Coelho a meio caminho entre a do usurpador de Massamá e a do tirano de São Bento, afigura-se a prazenteira ideia de que bastava uma mudança de governo, acompanhada do cumprimento tangencial de três ou quatro pontos avulsos do Memorando de Entendimento (MdE, para não repetir o acrónimo do Lourenço), para que todos pudéssemos voltar à mesma vidinha de sempre. É sempre bom não perder de vista o primeiro e o mais rudimentar dos factos: o país não mudou. O atavismo da crise está por aí, vivinho da Silva. De seguida, acrescentemos outro: as «patifarias» do Sr. Eng. José Sócrates, que anda por estes dias a visitar amigos por essa brilhante Europa, deixarão marcas por muitos e bons anos. Terminemos com estoutro: existe um Memorando para cumprir e alguns dos pressupostos que lhe serviram de base – por exemplo, a estimativa da colecta de receita associada à taxa de crescimento do PIB; por exemplo, o défice orçamental real vs. o propalado aquando da assinatura do acordo – obrigam à implementação de medidas que assegurem uma margem de segurança. Depois, há aquelas coisas básicas e chatas, de carácter mais técnico: em matéria de eficácia e de impacto no curto prazo, uma subida de impostos bate aos pontos quaisquer tentativas de fazer descer a Despesa.
Sim, é verdade: estamos mais ou menos lixados. Coisa mais portuguesa não há.
Carlos do Carmo Carapinha
1 SETEMBRO 2011 - 21.45h
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É um clássico: falta dinheiro para sustentar o Estado-glutão? Há risco de insolvência? A meta orçamental está cada vez mais longe? «Ó Vitor (antes Fernando), sacode aí a ralé». Depois, perante a voz de protesto da ralé – que importa sempre manter quietinha, no seu providencial destino subalterno -, apontam-se baterias ao grupo que, na verdade, as «estava a pedir»: os ricos. Para quem não sabe, os ricos, em Portugal, constituem um bando de ignaros que roubou, explorou, ludibriou e acidentalmente matou com o intuito de promover uma série de patifarias e excentricidades repugnantes: encher a garagem de Bentleys Continental; acrescentar zeros «astronómicos» (à direita) na conta bancária; distribuir pelas amantes apartamentos em zonas chiques mas discretas; viver da especulação; deter terra sem nela lançar uma semente (o Luís Naves pode, depois, explicar isto de forma um pouco mais polida).
Ao contrário dos avaros intelectuais, disponho-me, desde já, a contribuir para esta gloriosa empresa de colecta justiceira, apresentando algumas ideias que só o público-alvo pode considerar indignas:
- Medida n.º 1: comissão de luxo de 100€ por cada minuto no interior de restaurantes de luxo (tipo Tavares Rico ou Eleven). Receita mínima: 1.500€ (para não pagar mais, o rico terá de comer em apenas 15 minutos). Excepções: Pap’Açorda e Bica do Sapato (por razões óbvias: frequentados na sua maioria por gente do milieu cultural e/ou intelectual português, a viver no limiar da pobreza ou com fortuna de origem respeitável);
- Medida n.º 2: 50,00€ de imposto por cada pancada em bola de golfe. Justificação: aproveitar o mau jeito do rico (sobretudo o subtipo pato-bravo) que raramente faz melhor que um Triple Bogey;
- Medida n.º 3: criação de uma brigada profissionalizada (mas não sindicalizada) para fiscalização de sinais exteriores de riqueza. Zonas e áreas especificas de actuação: Avenida de Liberdade; átrios dos hotéis Ritz Four Seasons, Lapa, Le Méridien Penina Golf & Resort e Quinta do Lago; stands dos representantes oficiais das marcas Bentley, Aston Martin, Porsche, Ferrari e Maserati (no caso dos Mercedes e dos BMWs, só para modelos acima da classe E e série 5, respectivamente); clínicas de cirurgia estética e similares;
- Medida n.º 4: o regresso do justíssimo imposto sucessório, com a particularidade de, no caso de falecimento de um rico, o Estado se equiparar a descendente de primeiro grau.
Não têm que agradecer.
Carlos do Carmo Carapinha