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30 OUTUBRO 2009 - 17.13h

Indesculpável

Categoria - Política

Isto de vários meios de comunicação social portugueses estarem a colocar em destaque nos seus portais online o vídeo de um assassinato é uma coisa abominável e indesculpável.


RETIREM O VÍDEO JÁ!


O que é que virá a seguir? O vídeo de uma violação de um adulto? O vídeo de uma violação de uma criança?


Desde que a cara esteja irreconhecível então está tudo bem? E o facto de que está também disponível no Youtube e em outros lugares de fácil acesso desculpabiliza e irresponsabiliza os media portugueses que oferecem o vídeo nos seus portais? E um assassinato já é um coisa banal que não incomoda ninguém? Não; não; e não.


RETIREM O VÍDEO JÁ!



Ricardo Vicente

30 OUTUBRO 2009 - 13.48h

Economistas e Juristas

Categoria - Sociedade

Os economistas falam enquanto almoçam.

Os juristas aproveitam para almoçar enquanto conversam.

Falar é uma coisa que se pode fazer ao mesmo tempo que se come - para os economistas.

Conversar é o prato principal ao almoço - para os juristas.



[Os preconceitos são mais ou menos bons quando verdadeiros.]



Ricardo Vicente

30 OUTUBRO 2009 - 13.02h

É ele, é

Categoria - Política

30 OUTUBRO 2009 - 06.14h

O ar

Categoria - Política

Vi sensivelmente 72 segundos da entrevista do Pedro Passos Coelho ao jornalista de economia sem ombros da SIC. Logo por extremo azar para representante máximo da "lufada de ar fresco" do PSD a pergunta era "gostava que concretizasse o bocadinho mais o que está a dizer", o suficiente para eu ter estabelecido o novo máximo mundial para a abertura de todas as janelas de um T2+1, uma acção despoletada pela súbita necessidade de arejar a casa recorrendo à ecologicamente sustentável "corrente de ar", não sei se é destes calores outonais mas ando com um persistente cheiro a mofo no nariz.



Maradona

29 OUTUBRO 2009 - 15.40h

Google versus Microsoft

Categoria - Outras

A grande diferença entre Google e Microsoft é que a primeira destas duas empresas, sempre que lança um novo produto, disponibiliza-o GRATUITAMENTE e o mesmo é inovador e, em geral, ou o melhor disponível ou, pelo menos, o terceiro melhor.


Vem aí agora uma coisa útil e inovadora chamada Google Wave: será grátis.


A Microsoft: tudo o que faz é sempre caríssimo, especialmente quando já vem incluído: quão mais barato seria um computador se fosse possível comprá-lo sem nenhum software Microsoft instalado? Além de serem caros, os produtos Microsoft são, em geral, maus.


De Windows em Windows, o espaço no disco fixo ocupado cresce exponencialmente enquanto que o desempenho, ceteris paribus, só piora. Para além disto, o computador vai ficando imbecilizado e vai cada vez mais forçando o próprio utilizador ao mesmo destino: é cada vez mais difícil controlar manualmente aquelas settings obscuras em que os utilizadores mais experientes gostam de mexer; é cada vez mais estúpido que o sistema operativo insista que a firewall ou o antivírus não estão ligados só porque o raio que o parta do sistema operativo só reconhece firewalls e antivírus se forem da Microsoft.


De versão em versão, o Windows vai-se tornando uma coisa applizada: inventada para quem apenas quer utilizar, sem perceber, sem ir ao bisturi. O Windows vai aderindo à filosofia mac, isto é, convencer alguém de que sabe, de facto, conduzir um automóvel mesmo que nunca tenha experimentado um carro com três pedais e um selector de velocidades em que as mesmas não são letras mas sim números.


O problema desta tendência é alienar os utilizadores minimamente experimentados, com pelo menos um por cento de geekiness: estes deparam-se com versões do Windows cada vez mais "simples" em que simplicidade quer dizer cada vez maior dificuldade em abrir a capota, por um lado, e, por outro lado, há um acréscimo de complicação indesejada: mais maus-funcionamentos e mais atrasos de vida.


Desde o Word, Excel e Powerpoint que a Microsoft não faz nada que se aproveite. Enquanto que esta empresa continua com sucessivas versões de Windows a que se juntam os milhares de patches, updates, service packs, cada um deles tornando o arrancar do computador cada vez mais lento e obrigando a downloads, actualizações e outras ameaças cada vez mais constantes, mal se liga o computador, de minuto a minuto - enquanto isto vai acontecendo, a esperança é esta: o lançamento do sistema operativo Google que, para além de obsoletizar em definitivo o Windows, seja gratuito e seja DE QUALIDADE e faça com que de uma vez por todas seja possível comprar computadores que venham virgens, sem software nenhum.



Ricardo Vicente

P.: Qual é a semelhança entre José Sócrates e o Tony Carreira?
R.: Ambos são perseguidos pelo público.  



Rui Castro

29 OUTUBRO 2009 - 10.08h

Grandes títulos

Categoria - Desporto

28 OUTUBRO 2009 - 10.00h

Bom dia

Categoria - Sociedade

É difícil pedir mais. O sol está radioso e o Paulo Bento continua a ser o treinador do Sporting. 



Rui Castro

28 OUTUBRO 2009 - 08.53h

O Agassi é nosso amigo

Categoria - Política

Um dos melhores do mundo de sempre, Andre Agassi, na sua extraordinariamente intitulada autobiografia "Open", confessa que se dopou. Num momento de histeria em relação ao ciclismo e ao atletismo, é bom que os grandes homens dos outros desportos se engrandeçam ainda mais, e ajudem a que isto volte à normalidade.



Maradona

27 OUTUBRO 2009 - 11.53h

A publicidade e o casamento gay

Categoria - Política

27 OUTUBRO 2009 - 11.51h

Ler os outros

Categoria - Política

"Alberto Martins na Justiça. Grandes almoçaradas no Eleven com os juizes do Supremo. Muita palmada nas costas, e trate-me lá daquele assunto bicudo, que os interesses do país falam mais alto. A última coisa de que o PS precisa são tribunais a funcionar. Sócrates não queria um ministro, queria um office boy. Este pôs-se a jeito há muito tempo." - Luís M. Jorge



Rui Castro

Como eu os compreendo. Se os deputados estão incluídos, não vejo razão para excluir os taxistas. 



Rui Castro

27 OUTUBRO 2009 - 10.43h

Assim só perdem por 3...

Categoria - Desporto

Foram já várias as equipas que comunicaram à Liga de Clubes a sua não comparência em futuros jogos com o Glorioso. 



Rui Castro

26 OUTUBRO 2009 - 17.20h

Prioridade: ?!

Categoria - Política

1. O regime político português inclui duzentos e trinta deputados, dezasseis mais um ministros, dezenas de secretários de Estado. Como é que é possível que com tanto político profissional e a tempo inteiro se invente a desculpa de que "isto não é prioritário" para se deixar de debater, de decidir, enfim, de fazer política?

Como é que é possível que alguém queira que os políticos não discutam, não decidam, não façam política em relação a um assunto concreto só porque esse assunto "não é prioritário"?

Com duzentos e trinta deputados, várias comissões parlamentares, dezasseis ministros - seria de esperar em Portugal pelo menos vários assuntos "prioritários": PELO MENOS um por cada comissão parlamentar e por cada ministério. Aliás, num regime em que cada um dos cinco maiores partidos, durante as campanhas eleitorais, insiste sistematicamente em não escolher duas ou três prioridades e opta, isso sim, por apresentar várias, divulgadas em extensíssimos programas eleitorais (cfr. a soma do número de páginas num post anterior) - é muito estranho que ande alguém, político ou não, a pedir a não-discussão ou a não-decisão ou a não-política em relação a um qualquer assunto por considerá-lo "não prioritário".

Para mim, prioritário é (UM) acabar com os milhares de milhões de euros oferecidos aos amigalhaços da construção civil sob a desculpa de se realizarem obras que são, verdadeiramente, inúteis; (DOIS) investir na educação, na sua qualidade, exigência e liberdade e no acesso não miserável à mesma; e (TRÊS) criar uma política de incentivos demográficos.

Mas isto não significa que eu espere que cada um dos dezasseis ministros e dos duzentos e trinta deputados se dedique exclusivamente a estas prioridades e que tudo o mais seja desatendido. Caramba! São duzentos e quarenta e seis políticos profissionais a tempo inteiro! Por muito importantes que sejam aquelas três prioridades, de certeza que sobram vários políticos profissionais e a tempo inteiro para atender a outras, muitas outras prioridades, isto é, políticas.


2. Agora, a ideia de quantificar o qualitativo é trivialíssima em ciência social. Não é nada esotérico tentar atribuir um número à importância de um assunto ou de uma política. Quantos milhões é que estão em causa? Quantas pessoas são directamente afectadas? Não será nada aberrante dizer que este assunto é mais importante que aqueloutro porque aqui estão envolvidos dez milhões de pessoas e ali somente dois milhões. Ou que isto é mais prioritário do que aquilo porque envolve uma perda potencial de quinze mil milhões de euros enquanto que aquilo diz respeito a uma perda só de um milhar de milhões.

MAS já é um absurdo fazer política exclusivamente em relação ao que é mais importante, tal como é um absurdo gastar todo o orçamento de um Estado na prevenção rodoviária e nada em qualquer outra coisa.

Além disso, "pessoas envolvidas" e "milhões implicados" podem ser mais ou menos quantificáveis mas a importância de um assunto não se esgota nessas quantificações. Qual a dignidade de determinada questão? Uma restrição de liberdade que afecte milhões de pessoas pode ser muito menos grave em termos de dignidade que uma discriminação que afecte só alguns milhares, por exemplo.

E ainda: a hierarquia dos assuntos com base no número das pessoas ou dos euros é muitas vezes pouco mutável. Há assuntos que serão sempre de baixo orçamento, há problemas que envolverão sempre uma minoria, há minorias que nunca se alargarão (e mesmo que se alarguem) - significa isso que nunca se poderá debatê-los, decidi-los, fazer-lhes política?


3. Em suma: que se deixem as desculpas e a falsa questão do que é ou não "prioritário" e que se faça política! Não debater, não decidir, não fazer política implica toda a gente. E com centenas de políticos profissionais e a tempo inteiro não há desculpa nenhuma para não se fazerem políticas, todas as políticas.



Ricardo Vicente

26 OUTUBRO 2009 - 13.57h

Mais Dois Têgêvês?

Categoria - Política

Esta notícia do DE de hoje é verdadeira? É verdade que o Governo, para além da linha Lisboa-Porto-Norte de Espanha e da linha Lisboa-fronteira com Espanha via leste, pretende agora ameaçar-nos e destruir-nos com dois outros têgêvês? Aveiro-Salamanca e Évora-Faro-Huelva?

Sendo certo e sabido que o combóio de alta-velocidade Lisboa-Espanha no sentido oeste-leste é deficitário, isto é, corresponde a um gravíssimo prejuízo económico e social e sendo também garantido o prejuízo do têgêvê Lisboa-Porto-Norte - o Governo vem agora e ainda com dois outros têgêvês ainda mais inúteis?

Depois da terceira auto-estrada Lisboa-Porto? Depois da ameaça de desactivação do Aeroporto da Portela e da ameaça da construção de um aeroporto megalómano sabe-se lá onde? Depois da candidatura conjunta a um mundial de futebol - ameaçam-nos com AINDA mais dois têgêvês?

Mas o que é que virá amanhã? O têgêvê Lisboa-Castelo Branco? A candidatura de Portugal aos jogos Olímpicos? Deitar abaixo o Castelo de São Jorge e contruir lá uma La Défense? Deitar abaixo o Hospital de Santa Maria e construir no local ao lado um novo hospital ainda maior?

Os grandes e inúmeros projectos de construção civil com que os socialistas e os social-democratas permanentemente nos ameaçam não são justificáveis em termos económicos mesmo que estivéssemos em contexto de expansão económica nacional, europeia e mundial. Também não são justificáveis com base em nenhuma ideologia. Não são justificáveis com base na fundíssima ignorância económica dos políticos em geral e dos governantes socialistas em particular. Não são justificáveis sequer por invocação de uma qualquer forma abastardada de keynesianismo popular.

Os grandes e inúmeros projectos de construção civil são exclusivamente o resultado de muitos socialistas e social-democratas quererem oferecer aos seus amigalhaços da construção civil milhares de milhões de euros sem terem qualquer respeito por quem trabalha, por quem investe, por quem estuda, por quem paga impostos.

Se houvesse uma lei comunitária que impedisse que grandes projectos fossem adjudicados a empresas do próprio país ou a empresas estrangeiras com participações nacionais, os grandes projectos em Portugal acabariam imediatamente.

E se as transferências do Governo central para os municípios dependessem inversamente do número de casas por município, acabava-se imediatamente os excessos do betão, as rotundas, a construção explosiva cancerígena, a violação das reservas ecológica e agrícola e uma grande parte da corrupção e das fortunas autárquicas.

A situação das finanças públicas portuguesas já é uma desgraça. O stock de dívida pública em percentagem do PIB é presentemente altíssimo. A isso junta-se a descida da dívida soberana nos ratings internacionais. As taxas de imposto já são gigantescas por comparação com a baixa qualidade e quantidade dos serviços públicos prestados. São gigantescas também quando se pensa nos seus efeitos de desincentivo ao investimento estrangeiro e, também, à imigração qualificada. A administração pública acaba por ser factor de empobrecimento: depois de pagar impostos, as pessoas deixam de ter recursos para recorrer aos sectores privados, por exemplo de saúde, enquanto desesperam para ser atendidas no sector público. Ainda, a administração pública acaba por dificultar a ascensão social: em Portugal, a educação agrava as diferenças na distribuição do rendimento, contribuindo para a desigualdade.

E o governo socialista, em vez de reduzir gastos inúteis, como é o caso destes têgêvês malditos, do aeroporto, da terceira ponte sobre o Tejo que parece vir a ter dez quilómetros; em vez de reduzir a despesa e o stock de dívida pública, com vista a reduzir a porção do orçamento de Estado que serve unicamente para pagar juros; em vez de investir onde verdadeiramente faz falta e há retornos económicos e sociais garantidos, como é o caso da educação; em vez de, por exemplo, pensar pela primeira vez em reformar o parque habitacional JÁ existente, com uma política geral de renovação de habitações degradadas - a cidade do Porto, o centro de Lisboa, parece que saíram de uma guerra mundial, os próprios centros das cidades: centenas de prédios abandonados, a caírem de podres, com janelas tristemente entaipadas, logo ali na Avenida da Liberdade, em qualquer grande avenida, em todo o lado -; em vez de gastar o dinheiro dos impostos em projectos úteis, sérios, justos vai gastar a maior porção das receitas actuais e futuras em projectos gigantescos que nem aos países mais ricos da Europa interessam, projectos gigantescos cujos estudos económicos indicam rentabilidades negativas, mesmo quando se consideram todas as externalidades boazinhas e se toma como "cenário central" as previsões económicas do próprio governo definidas ainda antes da actual crise económica.

Não, isto não pode ser ideologia, não pode ser ignorância económica, não pode ser crassa estupidez: estes projectos numerosos e gigantescos de construção civil resultam da pura desonestidade de socialistas e social-democratas que querem entregar milhares de milhões de euros aos amigalhaços da construção civil.



Ricardo Vicente

Umoutra reflexão bem-educada:


Há um imarcescível discurso sobre a “natureza das coisas”. Tal natureza existe (admitindo que existem “coisas”)? Se sim, donde vem? É essencial e eterna ou é um produto, uma construção, uma estrutura? É humana ou divina? Podemos conhecê-la (verdadeiramente ou não)?


Admitindo que as coisas existem e que são imbuídas de uma natureza e abstendo-me de tomar parte na questão de saber se essa natureza pode ser violada ou não – permito-me revelar um pouco da natureza de algumas modalidades de artista.


Os cantores e músicos pop gostam muito de dinheiro. Para ganhar dinheiro é preciso “chamar a atenção”. Os cantores e músicos pop chamam a atenção através dos seus escândalos químico-recreativos e químico-independentes, com as suas atribulações familiares (agressões físicas aos entes queridos e, bem assim, aos fãs) e espalhando as suas fezes pelas paredes de quartos de hotel de classe, caríssimos hotéis estes que tanto se orgulham de ter recebido o rei ou os reis, a rainha ou as rainhas deste ou daquele compartimento do universo limitado mas infinito (como, de resto, todos os outros universos) da música rock-pop.


As estrelas de hollywood, em particular as estrelas de cinema, gostam muito de dinheiro. Para ganhar dinheiro é preciso “chamar a atenção”. As estrelas de hollywood, em particular as estrelas de cinema, chamam a atenção através dos seus enlaces românticos pré-conjugais, conjugais, paralelojugais e, também, pósjugais e, ainda, por via dos seus afilhamentos conhecidos e desconhecidos, insuspeitados e suspeitáveis, cruzados, legítimos, ilegítimos e legitimáveis por recursos judiciodesoxirribonucleicos.


Os escritores nobelizados, nobelizáveis ou esperançadamente em vias de gostam muito de dinheiro. Para ganhar dinheiro é preciso “chamar a atenção”. Os escritores nobelizados, nobelizáveis ou esperançadamente em vias de chamam a atenção através de inesperadas declarações orgulhosas de ignorância científica, desesperadas proclamações acintosas da não-existência do divino, incompreensíveis manifestações odiosas dirigidas ao religioso, patéticas expressões mentirosas relativas aos judeus e ao holocausto e, ainda, inquantificáveis piscares-de-olho e lambidelas-de-língua ao político ditador e ao democrata subsidiador.


É assim a natureza das coisas de algumas modalidades de artista. É assim.



Ricardo Vicente

Uma reflexão bem-educada:


Há uma coisa que me causa um bocadinho de irritação (mas quem me dera que todas as irritações da minha vida fossem como essa!).


Irrita-me um bocadinho que pessoas inteligentes, com bom gosto e letradas façam depender a sua análise estética da obra de Saramago das suas considerações relativas à pessoa Saramago e ao discurso político que este emite fora dos seus livros.


Uma análise estética de uma obra de arte deve ser separada do ser humano que realizou essa obra, bem como das suas opiniões, por exemplo, políticas. De facto, uma crítica de arte só tem a ganhar se for independente das opiniões (e, mesmo até, das interpretações) do próprio artista sobre a sua arte.


A quem se encontra demasiadamente impressionado pela pessoa e pelo discurso extra-literário de Saramago (ou de outro qualquer) é pois eventualmente aconselhável que não tente uma crítica da sua arte. Nestes casos, as tentativas de crítica acabam quase sempre por ser meros ataques à pessoa projectados na obra ou ataques à obra com o objectivo de atingir a pessoa. Ou seja, acaba por não se fazer justiça à obra enquanto se ataca (e atacar não é o mesmo que criticar!) uma pessoa.


E o facto de alguém eventualmente merecer ser atingida as mais das vezes não se relaciona com os méritos ou deméritos estéticos das suas obras. (Aliás, suponho ser um puzzle ético impossível tentar justificar uma crítica moral dirigida a alguém com base numa apreciação do mérito estético da obra da pessoa em causa).


E ainda: não me custa acreditar quando alguém me diz que não gosta dos livros de Saramago pela dificuldade de leitura. Mesmo reconhecendo que quem espera facilidade da arte deveria recorrer só à música e literatura pop (mas também que beleza e, até, inteligência não têm necessariamente de ser complexas), aceito que o estilo de escrita de Saramago não seja imediatamente muito cativante.


(Aceito também que num país com hábitos de leitura tão miseráveis não seja de surpreender o queixume face ao texto “tão difícil de ler”; o que é verdadeiramente surpreendente é o caso de esse queixume vir de gente auto-declaradamente muito lida).


Agora, da simples constatação da leitura difícil a dizer que os livros são maus é que já vai um grande espaçamento longitudinal (para não dizer distância...): o espaçamento entre os que fazem um trabalho crítico sério, justo e política e pessoalmente isento e os que, não se disponibilizando para suposto maior aborrecimento, vertem os seus biliosos ressentimentos políticos naquilo a que ilegitimamente chamam de crítica.



Ricardo Vicente

Obrigadinho.



Ricardo Vicente

23 OUTUBRO 2009 - 23.21h

Debate (2)

Categoria - Sociedade

Alguns moralistas de pacotilha apareceram a defender Saramago, invocando a sua condição de ateu e a liberdade de dizer e escrever o que pensa. Até aqui tudo bem. Só não percebo por que razão anda um ateu há anos a dizer mal de Deus e a criticar as suas Obras.



Rui Castro

23 OUTUBRO 2009 - 22.34h

Debate

Categoria - Sociedade

Dificuldades técnicas não permitiram que aqui viesse antes comentar o "debate" de hoje. Começando pelo fim, parece-me evidente que a conversa que o Padre Carreira das Neves teve hoje com Saramago não passou de propaganda à borla para o novo livro do escritor. Diz quem leu, na maioria apreciadores, que Caim será uma das obras menos conseguidas de Saramago. Percebe-se, assim, o investimento na propaganda. Só não compreendo como é que pessoas inteligentes como Carreira das Neves se prestam a contribuir para este peditório.



Rui Castro

Diário de Notícias: "Governo de Combate" (aqui).

Jornal de Negócios: "é um governo de combate" (
aqui).


Governo de combate era o anterior: bem ou mal, o Partido Socialista encabeçado por José Sócrates foi o que mais combateu lóbis, sindicatos, corporações, função pública. E foi de longe o que mais estruturas reformou (por exemplo, segurança social e administração pública). Pode ser criticado pela direcção que esses combates levaram, pelo sentido das reformas e, sobretudo, pelos respectivos níveis de sucesso. Mas o governo anterior não poderá jamais ser criticado por falta de espírito combativo. [A palavra "jamais" causa-me desconforto mas pronto, ou melhor, prontos.]


A mim, parece-me que a reforma da administração pública ficou muito aquém do desejado e esperado. O combate na educação foi pessimamente conduzido e muitíssimo mal sucedido. E houve claramente corporações que em vez de combatidas continuaram a ser vergonhosamente privilegiadas: construção civil, obviamente, mas também ordens profissionais.


As energias poupadas nos confrontos parlamentares (não obstante o debate com o governo ter passado a ser quinzenal e não apenas mensal) foram usadas nos confrontos com os grupos de interesses, também com a "rua" e, claro, contra a comunicação social (a crítica).


O novo governo, em contexto de maioria relativa, é, isso sim, um governo apaziguador. Em primeiro lugar, os ministros mais criticados (Educação, Agricultura, Cultura) foram afastados (o da Saúde, infelizmente, já tinha sido afastado há mais tempo). Fica só por explicar o não afastamento de Rui Pereira.


Em segundo lugar, o ministro-rottweiler Silva transitou dos Assuntos Parlamentares, um lugar muito exposto, para a Defesa Nacional, que é, em conjunto com os Negócios Estrangeiros, uma das pêras-doces de qualquer governo.


Em terceiro, em contexto de crise económica e social, o ministro mãos-largas e de coração muito à esquerda Vieira da Silva passa da Solidariedade Social para a Economia e leva ainda consigo a pasta dos fundos comunitários que muda do Ambiente para aquela. É muitíssimo dinheiro concentrado num só ministério e ainda por cima gerido por um esquerdista-mãos-largas.


Isto é bom em relação aos dinheiros europeus: o maior escândalo desaproveitado pelo jornalismo português é precisamente os rios e estuários de dinheiro a que Portugal tem direito e que, vá-se lá saber porquê, nunca chegam a entrar.


Mas é mau em relação ao outro orçamento: uma das grandes dificuldades mentais da esquerda (dificuldade essa que serve para classificar à esquerda muito político e comentador convencido de pertencer à direita) é precisamente a de compreender que tudo aquilo que só sobrevive com apoios e subsídios está à partida vocacionado ao fracasso. Com Vieira da Silva na Economia é de esperar muitos milhões de euros injectados em cadáveres económicos que, quais personagens de filme de horror, conservam a ilusão de estarem vivos (e de servirem para alguma coisa).


Para além de apaziguador, este é um governo de continuidade: um, o ministério da Justiça, provavelmente o ministério onde menos se faz, menos se tem conseguido e onde mais problemas se têm acumulado ao longo de décadas, recebe uma figura nada forte.


Dois, o recordista da estabilidade, Gago, prepara-se para bater o guiness da longevidade governamental: desde o Vinte e Cinco de Abril de Setenta e Quatro, quantos seres humanos é que já estiveram à frente da mesma pasta ministerial num total acumulado de onze anos? Gago prepara-se para atingir o total acumulado à frente da Ciência e Tecnologia de quinze anos assumindo que este governo dura quatro.


Três, a construção civil (vulgo Obras Públicas, Transportes e Comunicações) recebe um professor do ISEG. Como era de esperar, vem aí a festa do despesismo e da derrapagem financeira (traje formal, entrada quinhentos mil milhões de Euros).


Quatro: são mais os que ficam do que novos a entrarem. Em rigor, este governo não é "novo" mas sim "remodelado".


Finalmente, este será um governo de diversão das atenções. O Partido Socialista reservou espertamente para agora pequenos combates que embora afectem directamente (DIRECTAMENTE) muito poucos têm o condão de desviar as atenções dos assuntos de impacto (populacional e económico) mais extenso e de concentrá-las em uma ou duas questões que, muito provavelmente, serão arrastadas até à náusea. Ou seja, é de esperar que o casamento homossexual e a regionalização (por exemplo) absorvam mais o debate do que as auto-estradas, têgêvês, pontes, aeroportos e estádios e que se arrastem por muito tempo.


E ainda é também de esperar que as políticas com maior impacto no PIB e com consequências a nível temporal mais longas fiquem sob a protecção da doutrina do "facto consumado" (e dos  "direitos adquiridos") e defendidas do interesse mediático pelo discurso, por exemplo, das questões fracturantes.


(É preciso dizer e enfatizar bem enfatizadamente que num parlamento com duzentos e trinta seres humanos e num país em que uma parte de leão da política é feita pelos partidos FORA do parlamento, a não discussão de um qualquer assunto não pode nunca ser desculpada por falta de tempo ou por falta de disponibilidade (o que quer que isso queira dizer...) dos políticos. A desculpa de não ser o timing certo também não pega e é uma forma desonesta e ridícula de duvidar subentendidamente da capacidade da sociedade portuguesa de se interessar e discutir mais do que um assunto ao mesmo tempo. Essa dúvida que tanto aflige os políticos é uma das perversidades inconfessadas por trás do horror que os mesmos têm aos referendos e à possibilidade de eleições diferentes num mesmo dia).


Em conclusão: este não é um governo de combate: é um governo apaziguador - por causa da maioria relativa e dos últimos anos de protesto social generalizado -, de continuidade (há bibelôs que nunca se partem) e de diversão (apostem comigo que muito assunto de pequeno impacto social mas grande potencial mediático e que até já podia estar resolvido se não fosse o PS (!...) vai passar a assunto prioritário e absorvente de todo o debate nacional).


Boa sorte (para Portugal).



Ricardo Vicente

22 OUTUBRO 2009 - 20.22h

Governo

Categoria - Política

Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros – Luís Amado
Ministro de Estado e das Finanças - Fernando Teixeira dos Santos
Ministro da Presidência – Pedro Silva Pereira
Ministro da Defesa Nacional - Augusto Santos Silva
Ministro da Administração Interna – Rui Pereira
Ministro da Justiça - Alberto Martins
Ministro da Economia, da Inovação e do Desenvolvimento - Vieira da Silva
Ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas - António Manuel Soares Serrano
Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações - António Augusto da Ascensão Mendonça
Ministra do Ambiente e do Ordenamento do Território - Dulce dos Prazeres Fidalgo Álvaro Pássaro
Ministra do Trabalho e da Solidariedade Social - Maria Helena dos Santos André
Ministra da Saúde - Ana Maria Teodoro Jorge
Ministra da Educação - Isabel Alçada
Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - Mariano Gago
Ministra da Cultura - Maria Gabriela da Silveira Ferreira Canavilhas
Ministro dos Assuntos Parlamentares - Jorge Lacão
Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros - João Tiago Silveira  



Rui Castro

20 OUTUBRO 2009 - 19.58h

Esquizofrenia

Categoria - Política

Quer isto dizer que Outubro de 2008 teria sido prematuro? 



Rui Castro

20 OUTUBRO 2009 - 16.59h

O efeito Obama

Categoria - Política

Os repórteres sem fronteiras no seu relatório anual sobre a liberdade de imprensa dizem que a América trepou 20 lugares no ranking (do 40.º para o 20.º) por causa do efeito Obama... Aqueles que, como eu, descreram da bondade da atribuição do Prémio Nobel ao Presidente de (quase) todos os terrestres têm que reconhecer que o homem tem mesmo qualquer coisa. Aguardam-se outras manifestações dos seus poderes taumatúrgicos. Talvez o aquecimento global arrefeça. Ou os desertos reverdeçam. Quem sabe?
Um certo mundo parece que andava sedento de um santo laico. Mesmo quando ele não é santo nem laico...



João Vacas

20 OUTUBRO 2009 - 15.27h

Da liberdade respeitosa

Categoria - Política

Está visto que o juiz de instrução que decidiu não pronunciar João Miguel Tavares não alinha na tese da liberdade respeitosa tão apreciada por Sócrates. Para quem passou ao lado do caso, importa relembrá-lo.

João Miguel Tavares escreveu há meses um artigo de opinião em que criticava o primeiro-ministro por causa do processo Freeport. Sócrates sentiu-se ofendido e apresentou uma queixa-crime contra o colunista do DN. Findo o inquérito, levado a cabo pelo Ministério Público, entendeu o respectivo procurador da república que João Miguel Tavares não havia cometido qualquer crime, limitando-se a expressar uma opinião no uso da sua liberdade de expressão. Sócrates, não satisfeito com o resultado, requereu a abertura de instrução visando a pronúncia de João Miguel Tavares e, consequentemente, o seu julgamento. O juiz decidiu agora pela não pronúncia do colunista, arquivando definitivamente o processo.

Não está em causa o direito de Sócrates recorrer aos tribunais para tentar reparar uma alegada injustiça de que foi alvo. O que está em causa é a instrumentalização da justiça como forma de combate político. Não é preciso saber muito de Direito para se perceber que Sócrates não tinha razão. O principal objectivo do primeiro-ministro não passava por punir João Miguel Tavares pelo seu texto. Sócrates decidiu, isso sim, apostar na tese da vitimização em plena pré-campanha e, ao mesmo tempo, tentou condicionar que outros - jornalistas a comentadores - tivessem a mesma veleidade de Tavares. Apesar do despacho agora proferido, a verdade é que Sócrates conseguiu o que queria: mais 4 anos.



Rui Castro

20 OUTUBRO 2009 - 10.35h

Pilar

Categoria - Política

Li agora esta notícia, percebi tudo e estou contra toda a gente, mas agora só tenho tempo para me focar no João Miguel Tavares. João Miguel Tavares considera que "uma vergonha da democracia portuguesa por ter à frente dos seus destinos um homem [José Sócrates] sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático". Isto é das tais coisas que me deixam os dois extremos do sistema digestivo abertos. Por um lado é uma "vergonha para a democracia portuguesa" ter eleito democraticamente (pelo menos que eu tenha dado) um primeiro-ministro. É muito estranho que um amante da democracia não evidencie qualquer tipo de preparação antecipada para arcar com as "vergonhas" democráticas. Dá ideia que para João Miguel Tavares os méritos da democracia se devem medir não pela moralidade do processo mas pela dignidade e eficiência dos resultados. No caso em concreto João Miguel Tavares parece ter-se em melhor conta que à "nossa" democracia actual, uma incompatibilidade que pode ser facilmente colmatada através da emigração. Por outro lado, João Miguel Tavares também considera que o engenheiro Jósé Sócrates não revela o "menor respeito pelos pilares essenciais de um regime democrático". Ora, que "pilares essenciais" são esses que José Sócrates "desrespeitou"? O estar-se a cagar para os jornalistas e as suas perguntas? O facto de utilizar a sua maioria absoluta para governar sem consideração pelas oposições ou pelas forças sociais que se lhe opôem? Esta ideia de que entre eleições os governantes têm que viver segundo os resultados de um sufrágio jornalístico (que muitas vezes se cinfunde com sufrágio popular) permanente a mim não me convence, e desagrada-me. Tal como Cavaco Silva nos seus bons velhos tempos, José Sócrates tem lá os objectivos dele e, com grande sentido de Estado, não quer saber de nada nem de ninguém que não lhe seja útil. É assim que deve ser. Confundir isso com desrespeito pelos "pilares de um regime democrático" é acaldeirar esta coisada toda. José Sócrates é um ser livre e, que eu saiba, até agora não foi condenado por pisar os calcanhares de nenhuma lei. É isso que interessa. Para que uma pessoa seja "um pilar do regime democrático" basta que cumpra a lei e, não a cumprindo, que aceite a justiça correspondente. José Sócrates é um "pilar do regime democrátio", nós somos todos pilares do regime democrático, o Yannick Djalo é um pilar do regime democrático. Somos todos pilares do regime democrático desde que não andemos "envergonhados". Pela parte que me toca, ainda bem que o nosso regime permite esta espécie de despotismo entre eleições, um local onde os governantes têm tempo e espaço para ignorarem o país e os seus 10 milhoes de defensores individuais de pilares míticos da democracia e assim. A última coisa que eu quero é que quem nos governa ande por aí a ouvir o que temos para dizer.



Maradona

20 OUTUBRO 2009 - 00.08h

Ensaio sobre a estupidez

Categoria - Política

A meia dúzia de leitores que continua a ler-me ao fim destes 4 anos (em blogues), conhece a pouca simpatia que nutro por Saramago. Adiante.

Independentemente da questão sentimental, convém referir que Saramago tem vindo a desbaratar o capital de simpatia e admiração que muitos ainda lhe granjeavam (essencialmente por causa do Nobel).

As recentes declarações sobre a Bíblia, a propósito do lançamento do seu novo livro, mais não são que uma tentativa patética de publicitar Caim.

O que mais se ouve junto de alguns admiradores de Saramago são palavras de espanto e de incompreensão. Não vale a pena dizer-lhes que Saramago está igual a si próprio e que a diferença não está no escritor mas sim nos olhos de quem olhava para ele de forma diferente.

Admitindo que Saramago quisesse comprar uma polémica semelhante à que manteve com Sousa Lara há 18 anos e que fez disparar as vendas do seu Evangelho Segundo Jesus Cristo, importa lembrar que não é o PSD que está no Governo e também que Sousa Lara anda arredado há muito dos corredores do poder.

Se Saramago quer vender muitos livros, é melhor que comece a escrever (bem). Resta saber se consegue fazê-lo.



Rui Castro

19 OUTUBRO 2009 - 22.58h

Marcelo

Categoria - Política

Não tenho grandes dúvidas de que Marcelo Rebelo de Sousa seria, à partida, o concorrente que mais mossa poderia fazer a Sócrates. Pela sua experiência política, pelo seu brilhantismo e pela sua seriedade. No entanto, é pouco crível que Marcelo vá alguma vez a votos com Sócrates.

Com efeito, se a ideia de uma reunião entre notáveis pode até agradar a muitos eleitores, a verdade é que quem o elege presidente do PSD não são os eleitores, mas sim o aparelho. Tenho, assim, para mim que os mesmos que o fizeram cair aquando da sua passagem pela liderança do partido, serão os mesmos que farão eleger Passos Coelho caso venham os 2 a concorrer à liderança do partido.



Rui Castro

19 OUTUBRO 2009 - 22.44h

Sócrates é passivo

Categoria - Política

"O autor do fax, Keith Payne, administrador da Freeport em Lisboa, alerta para as mudanças políticas em Portugal e manifesta-se preocupado por Sócrates deixar de tutelar a pasta do Ambiente."

Se estivéssemos em campanha, as almas mais sensíveis diriam que não é inocente o momento em que notícia é revelada. Impedidos, porém, de usar o argumento da oportunidade, imagino que o silêncio ensurdecedor seja a reacção escolhida pelos habituais advogados de defesa do primeiro-ministro.



Rui Castro

16 OUTUBRO 2009 - 16.29h

Mistério

Categoria - Política

Segundo o jornal que se chama "Público" uma pessoa chamada José Pedro Aguiar Branco vai ser o novo presidente do grupo parlamentar do PSD. Sempre embirrei com José Pedro Aguiar Branco, devo confessar. Anos e anos a ouvir falar dele, a dizerem-me que o gajo era aquele assim e assim que está "ali atrás do presidente", e nunca consegui concretizar o José Pedro Aguiar Branco numa figura concreta que me satisfizesse a curiosidade. Quem são estas pessoas que se arrastam pelos partidos "à espera do momento certo", valha-me deus? Quem são!



Maradona

16 OUTUBRO 2009 - 14.44h

Assuntos Maiores Tendem a Ser Ignorados

Categoria - Política

É um facto: os assuntos mais importantes tendem a ser ignorados durante as campanhas eleitorais.


Por exemplo, durante as europeias, enquanto se discutia uma avaliação aos quatro anos do governo socialista, nunca ou quase nunca se falou da Política Agrícola Comum ou da política de pescas. São dois assuntos muito importantes para Portugal e que são decididos mormente ao nível das instituições da União. No entanto, estes assuntos estiveram sempre ou quase arredados da discussão, pelo menos nos fora mais mediáticos.


Outro exemplo: durante as legislativas foi abordada a questão das grandes obras públicas. Mas nunca ou quase nunca se virou ou enfoque para as consequências de longo prazo ao nível das finanças públicas. Durante o debate José Sócrates vs. Ferreira Leite falou-se do timing das obras públicas: para já ou para mais daqui a bocado. Mas ninguém tocou ao de leve nas consequências de longo prazo de tais projectos, consequências essas que não são muito diferentes quer os projectos avancem agora ou só daqui a três ou quatro anos.


Porquê estes silêncios em relação aos assuntos mais importantes? Eu avanço com três hipóteses:


1a. O imediatismo dos discursos políticos: o partido de governo pretende em primeiro lugar defender as suas políticas mais recentes perante a opinião pública enquanto que todos os outros partidos pretendem antes de qualquer outra coisa atacar essas mesmas políticas. Ou seja, todos os partidos colocam sobre a mesa e acima de tudo o mais as políticas e os casos mais recentes mesmo que estes tenham pouco ou nada a ver com as eleições mais próximas.


Por exemplo, no contexto de campanha eleitoral para umas eleições europeias, os partidos preferem mil vezes discutir o último caso passado entre ministra da educação e professores do que falar da entrada da Turquia na União. Isto é, os partidos optam pelo que é nacional e recente mesmo que as eleições em causa tenham a ver com questões supra-nacionais e com impacto só no futuro próximo.


2a. A discussão das questões mais importantes muitas vezes exige conhecimentos técnicos que vão muito para além das poupanças científicas do político-profissional típico. Se juntarmos a isto as gigantescas e gerais iliteracia matemática e ignorância dos princípios da economia, que afectam por igual o cidadão comum, o político mais prestigiado e até o jornalista/comentador mais respeitado - é impossível esperar sequer a menor aproximação a temas ligeiramente mais complexos como a relação entre grandes projectos e rendimento social de inserção por via dos efeitos sobre as restrições dinâmicas da política orçamental.


3a. Finalmente, os assuntos mais importantes muitas vezes e na prática ou são decididos por "instituições longínquas" ou por "instituições obscuras". Outra vez o exemplo das eleições europeias e de uma qualquer política comum: os partidos têm dificuldade em discutir estes assuntos porque sabem que as decisões são tomadas em instituições europeias que abrangem uma multitude de países. Apenas um pequena fracção do poder deliberativo dessas decisões cabe aos representantes portugueses. Ora isto desmotiva os políticos nacionais: sabem que não têm muita influência, por um lado, e sabem que não têm muito a ganhar (ou a perder) a nível PESSOAL com essas decisões.


O que é decidido por uma instituição distante do país e no qual este tem uma pequena parcela de poder acaba por não interessar aos políticos nacionais que não vêm como podem beneficiar de decisões em relação às quais se sentem tão alheados.


Outras vezes, há grandes decisões que são de facto tomadas totalmente à revelia das instituições democráticas: entre telefonemas em linguagem sofrivelmente codificada, jantares em restaurantes de luxo e partidas de golfe, encontros informais entre empresários-políticos e políticos-empresários, ligações entre sub-carluccis e wannabes - haverá alguém que duvide que muitas das grandes decisões que afectam o cidadão comum são tomadas em qualquer sítio excepto uma instituição democrática e fundamentadas em tudo menos coerência ideológica, opinião científica séria, preocupação pelo bem-comum?


Haverá alguém que duvide que as ameaças terríveis que agora impendem sobre o bem-comum português - os têgêvês, as novas auto-estradas, as novas pontes, o novo aeroporto - não têm absolutamente nada a ver com uma ideologia socialista ou social-democrata (ou com a falta dela) nem com nenhuns estudos científicos sérios (ou a falta deles) nem com nenhum paradigma da ciência económica (ou a mais pura ignorância em relação a essa ciência) mas sim com interesses privados cuja teia obscurantiza qualquer possibilidade de discussão séria e de decisão fundamentada?


Evidentemente, não interessa a nenhum político virar o debate para questões cujos processos de decisão são por demais obscuros e não-democráticos.


É por tudo isto que não é de surpreender que durante as campanhas eleitorais se discuta muita coisa mas pouco do que mais interesssa.



Ricardo Vicente

16 OUTUBRO 2009 - 11.31h

Assuntos menores

Categoria - Política

18 por cento dos portugueses são pobres e a situação tende a piorar

Durante a campanha para as legislativas andámos a discutir o sexo dos anjos. As coisas verdadeiramente importantes ficaram guardadas na gaveta. Sócrates, como não podia deixar de ser, agradece. Afinal, que governante é que gosta de ser confrontado com os falhanços da sua governação?



Rui Castro

16 OUTUBRO 2009 - 11.19h

Hoje como ontem

Categoria - Política

NEVER, NEVER, NEVER QUIT (Churchill)



Rui Castro

15 OUTUBRO 2009 - 18.09h

Dos Acordos e Coligações Parlamentares

Categoria - Política

Em contexto de maioria relativa, o partido mais votado (PS) tem de se apresentar aberto a acordos e a coligações por duas razões: a primeira é que poderá precisar mesmo desses acordos; a segunda é a de que em caso de impasse ou bloqueio político poderá sempre declarar-se como não responsável por essa crise: nós oferecemos a possibilidade de acordo, os outros é que recusaram, etc..


No mesmo contexto, os outros partidos (BE, PCP, PSD, CDS), se não lhes for proposta a possibilidade de formar governo com o partido mais votado, têm de negar quaisquer acordos ou coligações parlamentares por uma razão: se aceitassem tais acordos, estariam a enviar a mensagem política de que o voto neles acabou por servir o partido mais votado. Ou seja, estariam a dizer aos eleitores que se recusaram ao voto útil e optaram por votar num partido que com grande probabilidade não seria vencedor que, afinal, mais valia terem votado no presumível vencedor: a política seria a mesma e evitar-se-ia o suposto problema da instabilidade.


Isto é verdade sobretudo em relação a quem votou CDS mas até poderia ter votado PSD e a quem votou BE ou PCP mas poderia até ter votado PS. Por exemplo, os eleitores CDS com queda para o PSD sabiam que ao não votarem no PSD (e considerando que a probabilidade de o CDS ser o mais votado de todos é zero) estariam a aumentar a probabilidade de o PS ser o vencedor. Se, mesmo assim, votaram no CDS é porque desejam mesmo que este partido seja fiel às suas promessas.


Esta lógica aplica-se também aos eleitores do BE e do PCP com queda para o PS: se não votaram no PS, mesmo sabendo que dessa forma estavam a aumentar as chances do PSD ser o mais votado (admitindo que BE e PCP à partida nunca seriam os vencedores), é porque querem que o BE/PCP seja fiel às suas diferenças relativamente ao PS.


É preciso notar uma coisa: os eleitores CDS, BE e PCP "puros" (isto é, que não têm queda nem para o PSD nem para o PS) ainda ficariam mais desiludidos com estes partidos se estes realizassem um acordo com o PS do que os "impuros". Mas a probabilidade de aqueles se vingarem nas eleições seguintes é menor do que a dos "eleitores com queda para" e, portanto, é SÓ por causa destes "impuros" que se aplica a regra de não se realizar acordos com o partido mais votado.


Ainda outra coisa: os partidos menos votados até poderão beneficiar no IMEDIATO com a realização de acordos com o partido mais votado. Isto porque a razão apontada para o não fazer tem força só nas eleições seguintes. Ou seja, recusar acordos parlamentares é estrategicamente correcto numa lógica que tenha em conta a vida e o poder do partido ao longo de mais do que um ciclo legislativo: só nas eleições seguintes é que poderá haver vingança contra os partidos que decidiram realizar acordos com o partido de governo. E quem realiza a vingança são os eleitores "com queda" para outro partido, ou seja, aqueles que mais preciso é serem namorados pelos partidos e pelas campanhas.


E ainda: o horizonte temporal estratégico dos partidos depende dos seres humanos que os gerem: um indivíduo muito sôfrego pelo poder poderá violar a lógica e a estratégia e entrar num acordo parlamentar com o partido mais votado para disso retirar poder imediato mesmo que assim esteja a invocar a vingança futura dos eleitores "impuros" contra o partido. É por isto que os políticos profissionais podem trazer credibilidade e utilidade ao voto em partidos que, à partida, não se espera venham a ser vencedores.


Agora, visto que os líderes políticos portugueses sabem (e gostam) de esperar, têm uma perspectiva muito paciente, muito extensa do tempo, todas as posições recentemente tomadas pelos vários partidos em matéria de acordos parlamentares têm sido de acordo com a análise aqui exposta. Donde nenhumas surpresas políticas esta semana no xadrez parlamentar português.



Ricardo Vicente

Para que serve um deputado? Para que serve o parlamento? Para que serve votar neles? Para que serve votar nas listas de candidatos à Assembleia da República se depois das eleições quem lá se senta afinal não foi a votos, não se apresentou aos eleitores antes das eleições, enfim, não chegou a ser candidato?

É preciso acabar com
isto. E isto é só um de muitos exemplos. E foi o exemplo escolhido meramente por, salvo erro, ser o primeiro caso da legislatura que agora começou.

Os deputados à Assembleia da República acabam por ser uns tipos que não foram a eleições, que não foram votados. A Constituição da República Portuguesa, o Regimento da AR ou outra coisa qualquer - ao permitir a mais irresponsável substituição de deputados está na prática a dizer que as pessoas não votam em deputados mas sim em percentagens que pertencem aos partidos.
 
Na prática, as legislativas não decidem a composição, indivíduo a indivíduo, ser humano a ser humano do parlamento. Decidem percentagens que serão detidas pelos partidos durante (talvez) quatro anos.
 
Também não decidem o conjunto de deputados cérebro a cérebro: se somarmos à irresponsável substituição de deputados a disciplina de voto que habitualmente recai sobre os mesmos ficamos com a total e absoluta fungibilidade dos deputados. Em Portugal, os deputados são, em geral, inúteis: o poder político está na percentagem, num número, que cada partido detém.
 
Não se elege um parlamento. Entregam-se percentagens aos partidos.


Agora, uma coisa importante: o problema das pessoas que se candidatam a deputados sem nunca terem a menor intenção de levar a cabo o mandato, o problema da substituição de eleitos por indivíduos que nunca foram candidatos, o problema, enfim, do total desrespeito que os membros da Assembleia da República denotam face ao povo eleitor - tudo isto é separável da questão da lei eleitoral e dos seus parâmetros (mapa eleitoral, método de escrutínio, círculos uninominais versus plurinominais, proporcionalidade versus maioria, etc.).

Por exemplo, a uninominalidade dos círculos, uma ideia que tem aparecido muitas vezes em muitos lugares, não é necessária nem suficiente para resolver o problema.
 
Não é suficiente: nada garante que o eleito por um círculo uninominal não decida renunciar ao mandato trinta minutos depois da primeira sessão no parlamento.
 
Não é necessária: mesmo mantendo todos os parâmetros do escrutínio eleitoral, é possível resolver o problema.


A solução do problema é simples:
basta introduzir a norma (por exemplo na CRP) de que de cada vez que um eleito pretenda renunciar seja necessário realizar uma eleição intercalar para o substituir. O único caso em poderá ser admissível a substituição sem eleição intercalar é o da morte do eleito ou de familiar próximo deste.

Finalmente (e mais complicado): o Tribunal Constitucional deverá sancionar os partidos que num x período de tempo sejam responsáveis por y (ou z% relativo ao número de membros da bancada eleitoral) eleições intercalares. A questão de punir partidos é complicada mas talvez seja resolúvel por via do financiamento dos partidos
.



Ricardo Vicente

Autor:

  • Rui Castro

    Advogado. O seu conservadorismo é um acto de rebeldia. Gostava de ser de esquerda mas é mal frequentada.

  • Maradona

    Cidadão que só faz posts sob a capa do anonimato.

  • Carlos do Carmo Carapinha

    Alentejano, hipocondríaco, filosoficamente conservador, céptico e pessimista. Só chatices

  • Lourenço Ataíde Cordeiro

  • Nuno Pombo

  • PM Ramires

    

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