Diário de Notícias: "Governo de Combate" (aqui).
Jornal de Negócios: "é um governo de combate" (aqui).
Governo de combate era o anterior: bem ou mal, o Partido Socialista encabeçado por José Sócrates foi o que mais combateu lóbis, sindicatos, corporações, função pública. E foi de longe o que mais estruturas reformou (por exemplo, segurança social e administração pública). Pode ser criticado pela direcção que esses combates levaram, pelo sentido das reformas e, sobretudo, pelos respectivos níveis de sucesso. Mas o governo anterior não poderá jamais ser criticado por falta de espírito combativo. [A palavra "jamais" causa-me desconforto mas pronto, ou melhor, prontos.]
A mim, parece-me que a reforma da administração pública ficou muito aquém do desejado e esperado. O combate na educação foi pessimamente conduzido e muitíssimo mal sucedido. E houve claramente corporações que em vez de combatidas continuaram a ser vergonhosamente privilegiadas: construção civil, obviamente, mas também ordens profissionais.
As energias poupadas nos confrontos parlamentares (não obstante o debate com o governo ter passado a ser quinzenal e não apenas mensal) foram usadas nos confrontos com os grupos de interesses, também com a "rua" e, claro, contra a comunicação social (a crítica).
O novo governo, em contexto de maioria relativa, é, isso sim, um governo apaziguador. Em primeiro lugar, os ministros mais criticados (Educação, Agricultura, Cultura) foram afastados (o da Saúde, infelizmente, já tinha sido afastado há mais tempo). Fica só por explicar o não afastamento de Rui Pereira.
Em segundo lugar, o ministro-rottweiler Silva transitou dos Assuntos Parlamentares, um lugar muito exposto, para a Defesa Nacional, que é, em conjunto com os Negócios Estrangeiros, uma das pêras-doces de qualquer governo.
Em terceiro, em contexto de crise económica e social, o ministro mãos-largas e de coração muito à esquerda Vieira da Silva passa da Solidariedade Social para a Economia e leva ainda consigo a pasta dos fundos comunitários que muda do Ambiente para aquela. É muitíssimo dinheiro concentrado num só ministério e ainda por cima gerido por um esquerdista-mãos-largas.
Isto é bom em relação aos dinheiros europeus: o maior escândalo desaproveitado pelo jornalismo português é precisamente os rios e estuários de dinheiro a que Portugal tem direito e que, vá-se lá saber porquê, nunca chegam a entrar.
Mas é mau em relação ao outro orçamento: uma das grandes dificuldades mentais da esquerda (dificuldade essa que serve para classificar à esquerda muito político e comentador convencido de pertencer à direita) é precisamente a de compreender que tudo aquilo que só sobrevive com apoios e subsídios está à partida vocacionado ao fracasso. Com Vieira da Silva na Economia é de esperar muitos milhões de euros injectados em cadáveres económicos que, quais personagens de filme de horror, conservam a ilusão de estarem vivos (e de servirem para alguma coisa).
Para além de apaziguador, este é um governo de continuidade: um, o ministério da Justiça, provavelmente o ministério onde menos se faz, menos se tem conseguido e onde mais problemas se têm acumulado ao longo de décadas, recebe uma figura nada forte.
Dois, o recordista da estabilidade, Gago, prepara-se para bater o guiness da longevidade governamental: desde o Vinte e Cinco de Abril de Setenta e Quatro, quantos seres humanos é que já estiveram à frente da mesma pasta ministerial num total acumulado de onze anos? Gago prepara-se para atingir o total acumulado à frente da Ciência e Tecnologia de quinze anos assumindo que este governo dura quatro.
Três, a construção civil (vulgo Obras Públicas, Transportes e Comunicações) recebe um professor do ISEG. Como era de esperar, vem aí a festa do despesismo e da derrapagem financeira (traje formal, entrada quinhentos mil milhões de Euros).
Quatro: são mais os que ficam do que novos a entrarem. Em rigor, este governo não é "novo" mas sim "remodelado".
Finalmente, este será um governo de diversão das atenções. O Partido Socialista reservou espertamente para agora pequenos combates que embora afectem directamente (DIRECTAMENTE) muito poucos têm o condão de desviar as atenções dos assuntos de impacto (populacional e económico) mais extenso e de concentrá-las em uma ou duas questões que, muito provavelmente, serão arrastadas até à náusea. Ou seja, é de esperar que o casamento homossexual e a regionalização (por exemplo) absorvam mais o debate do que as auto-estradas, têgêvês, pontes, aeroportos e estádios e que se arrastem por muito tempo.
E ainda é também de esperar que as políticas com maior impacto no PIB e com consequências a nível temporal mais longas fiquem sob a protecção da doutrina do "facto consumado" (e dos "direitos adquiridos") e defendidas do interesse mediático pelo discurso, por exemplo, das questões fracturantes.
(É preciso dizer e enfatizar bem enfatizadamente que num parlamento com duzentos e trinta seres humanos e num país em que uma parte de leão da política é feita pelos partidos FORA do parlamento, a não discussão de um qualquer assunto não pode nunca ser desculpada por falta de tempo ou por falta de disponibilidade (o que quer que isso queira dizer...) dos políticos. A desculpa de não ser o timing certo também não pega e é uma forma desonesta e ridícula de duvidar subentendidamente da capacidade da sociedade portuguesa de se interessar e discutir mais do que um assunto ao mesmo tempo. Essa dúvida que tanto aflige os políticos é uma das perversidades inconfessadas por trás do horror que os mesmos têm aos referendos e à possibilidade de eleições diferentes num mesmo dia).
Em conclusão: este não é um governo de combate: é um governo apaziguador - por causa da maioria relativa e dos últimos anos de protesto social generalizado -, de continuidade (há bibelôs que nunca se partem) e de diversão (apostem comigo que muito assunto de pequeno impacto social mas grande potencial mediático e que até já podia estar resolvido se não fosse o PS (!...) vai passar a assunto prioritário e absorvente de todo o debate nacional).
Boa sorte (para Portugal).
Ricardo Vicente