Faço parte do grupo de pessoas que defende (tanto quanto eu defendo coisas) uma via literalmente populista para a construção europeia, na medida em que penso (idem) ser muito difícil o processo de construção europeia evoluir (de um modo não pernicioso) do ponto em que está sem ouvir 'os povos'. Basicamente, a tese do Pacheco Pereira e do Miguel Portas no prós e contra de há uns anos atrás, quando eu ainda via o prós e contras.
Nunca estive muito certo desta posição: não só pelo ensaio do Rui Ramos, onde defende a tese oposta (elitista) -- isto, para os interessados, ocorreu tudo há uns anos atrás -- como pela leitura da biografia do Raymond Aron (onde se percebe que talvez o sr.Arond fosse o único francês que acreditava verdadeiramente que o projecto europeu tinha de incluir a Alemanha, sem um arrepio na espinha -- e no entanto, ele tinha mesmo de incluir a Alemanha).
De acordo com a posição populista a que, digamos, aderi, sempre me pareceu razoável, democrático e, por assim dizer, normal a sra Merkel ouvir o povo alemão e o tribunal constitucional alemão no que ao destino da Alemanha na UEM(zona euro) diz respeito. Neste sentido, também me parece razoável e democrático e normal que o PM grego decida ouvir o povo grego no que ao destino da Grécia na UEM diz respeito. Na verdade, até me parece inteligente (no sentido pragmático do termo), porque acredito na inteligência do povo grego, e portanto não me parece que eles troquem um empobrecimento regular de 4 ou 5 anos para o nível de enriquecimento em que estavam há 10 anos atrás, por um empobrecimento imediato para o nível em que estavam há 30 anos-- onde uma viagem pela Raynair até Paris custará um salário (médio) -- e assim que escolham a primeira opção a tensão deve esmorecer.
Num outro sentido, como se costuma dizer, gostava (se ninguém sofresse com isso) que os adeptos em Portugal da alternativa, os adeptos de 'o governo escolheu um túnel sem luz ao fundo', os adeptos da 'via Sócrates' para resolver o problema, vissem, via povo grego, o catastrófico resultado da tal alternativa. Seria, por assim dizer, um óptimo banho de transparência da discussão política na sociedade portuguesa, e talvez estimulasse o juízo (no sentido de 'tenham juízo').
Mas parece-me (e espero) que vai correr tudo bem.