17 NOVEMBRO 2009 - 13.47h
Categoria -
Política
As escutas telefónicas entre José Sócrates e Armando Vara ainda não foram disponibilizadas no Youtube. O conteúdo de uma dessas escutas ainda pertence ao domínio da "coisa jornalística": um jornal decidiu relatar parte do conteúdo, em vez de transcrevê-lo palavra por palavra, e não revelou quem divulgou esse conteúdo (assumindo que esse alguém existe).
Ou seja, neste momento, há dois factos importantes: se é verdade que o conteúdo escutado ainda pertence ao mundo da construção jornalística (um jornalista diz que alguém - que não se quer responsabilizar por violar o segredo de justiça - ouviu ou leu assim e assim de uma conversa entre JS e AV), também é verdade que nem JS nem AV negaram terem tido uma conversa com aquele conteúdo jornalisticamente alegado.
Portanto, não será especialmente abusivo concluir da veracidade do relato do jornal relativo à suposta conversa entre JS e AV. Isto é, não será abusivo concluir que o homem que ocupa o órgão de Primeiro Ministro envolveu-se em conversa privada com um ex-político de sua confiança e ao momento alto gestor do maior banco privado português para falar sobre dívidas de um importante empresário da comunicação social.
Agora... mas seria necessário haver uma peça jornalística a relatar uma suposta conversa entre um dos mais poderosos políticos e um dos mais importantes gestores privados para que só então pudéssemos concluir que existem relações obscuras entre política e negócios e, por exemplo, entre política, banca e comunicação social? Não têm havido já tantos outros exemplos pressentidos, declarados, não desmentidos e mesmo provados das relações indesejáveis entre política e negócios?
O que o caso das escutas a JS e AV traz de novo será, no máximo, os nomes concretos destes dois homens. Mas isso, só por si, acrescenta alguma coisa ao que já se suspeita e ao que já se sabe das relações entre grandes partidos e grandes negócios? Não, não acrescenta nada.
Há uns tempos atrás deu-se um caso que me parece o símbolo perfeito das associações obscuras e ilegítimas entre partidos e negócios: o Tribunal de Contas (salvo erro) declarou que o PSD tinha recebido um financiamento ilegal da parte da Somague (uma das grandes da construção civil). Para a legião dos que passam a vida a clamar que toda a gente, não obstante o peso e a consistência das evidências, é inocente até prova em contrário - aí estava (uma) prova da relação entre um grande partido e um grande negócio.
Mas qual foi a reacção do PS? Indignou-se? Protestou? Clamou ser este um sinal da podridão do "sistema" político-económico português? Não: o que o PS fez foi ficar em silêncio.
As escutas não trazem nada de novo. E a verdade é que a realidade não poderia ser outra: ninguém chega a presidente da Colômbia sem o beneplácito dos barões do narco-tráfico. Da mesma forma, ninguém chega a Secretário-Geral do PS (ou a Presidente do PSD) sem o apoio e a concordância de uma vasta e toda-poderosa elite que abarca altos funcionários públicos, gestores de grandes empresas públicas e privadas e ainda outras corporações.
Aliás, esta realidade não pode mesmo ser outra: quando em Portugal metade da economia é absorvida pelo Estado, as maiores empresas em termos de facturação, número de empregados e número de clientes são detidas e controladas pelo Estado, a quase totalidade da classe média é uma criação do Estado por via do funcionalismo público, os grandes negócios das maiores empresas têm como cliente principal o Estado, as corporações profissionais enriquecem graças a privilégios injustos que travam a mobilidade social mas que são protegidos por leis do Estado, todos os partidos têm uma visão maximalista das funções do Estado e, dado o desenho das instituições políticas, quem ganha o governo herda o Estado - é mais do que natural que haja uma total confusão e corrupção entre política e negócios e que estas relações altamente indesejáveis até possam ser perfeitamente legais.
Tendo em conta esta realidade e tendo em conta o poder concreto do Partido Socialista, o que é absolutamente natural e esperável sem necessidade de uma qualquer prova jornalística saída do sub-mundo dos investigadores, procuradores e juízes - o que é absolutamente natural será a trivialidade com que um qualquer Secretário-Geral do Partido Socialista contacta quotidianamente com empresários públicos e privados, de diferentes sectores, para tratar de assuntos em que interesses ora privados ora "do partido" são geridos à custa e sob a capa do interesse público. E muitas vezes, desde que se possa contactar e gerir esses interesses longe da vista e dos ouvidos de investigadores e jornalistas, nem será precisa essa capa de declarar a prossecução do interesse público.
E esta realidade diz respeito só ao Partido Socialista? Claro que não, diz também respeito ao PSD. A principal diferença é que o PS tem estado há mais tempo no governo o que lhe tem possibilitado uma eventual maior sedimentação do seu poder tendencialmente omnipresente.
Portugal precisa tanto de separar aqueles que são políticos daqueles que são empresários como os países da outrora "Europa de Leste" precisaram de afastar os comunistas das instituições políticas, administrativas, burocráticas, académicas e empresariais. E o poder não-político e não democraticamente legitimado nem legitimável do PS e do PSD precisa tanto de ser destruído como foi o poder comunista na ex-Europa de Leste.
Mas dois factos ainda recentes e uma tendência cada vez mais actual dão pouca esperança ao país: o afastamento de Marques Mendes do PSD, a completa ausência de apoio por parte do PS às propostas legislativas de João Cravinho relativas a corrupção e o cada vez mais notório papel do sistema de justiça enquanto criador de confusão, lançamento de lama, parte interessada em estranhos interesses e sábio utilizador das possibilidades manipulatórias oferecidas pela comunicação social.
Tudo isto significa que em Portugal, neste momento, ter esperança implica estar aberto a mudanças que serão não apenas profundas mas completamente transversais ao desenho institucional, ordenamento jurídico, política, economia e sociedade. Por outras palavras, é cada vez mais difícil ter esperança sem admitir a necessidade de uma... revolução.
Ricardo Vicente